A máxima "o que não mata, fortalece" acaba de ganhar um exemplo com interpretação ao pé da letra. Cientistas descobriram que o sol nem sempre atua como um vilão feroz da pele. Na verdade, a exposição solar durante muitas horas diárias ao longo de vários anos pode proteger as pessoas contra o câncer. A tese surpreendente é da pesquisadora da USP, Sarita Martins, que acompanhou pescadores em Recife com uma média de 29 anos de profissão e 12 horas diárias de exposição ao sol.
Nenhum dos participantes do estudo apresentou lesão pré-cancerosa ou tumor na pele. A pesquisa é inicial, mas já gera polêmica entre os especialistas em dermatologia no país.
- Encontrei um espessamento da pele dos pescadores nas áreas expostas ao sol tão forte a ponto de entortar a agulha onde fazia a anestesia para retirada da pele - conta Sarita. - Esta proteção foi confirmada pela biópsia com um achado histológico chamado elastose (uma mudança do tecido da derme com a finalidade de proteção) e da presença de uns marcadores imunológicos significativamente aumentados na pele exposta ao sol.
Metodologia de trabalho
Na Colônia de Pescadores do Pina, em Recife, há 3 mil profissionais registrados. Depois de um período de exames clínicos e laboratoriais, como de urina, sangue e fezes, foram selecionados 20 pescadores saudáveis com idade média de 46 anos, que não apresentassem qualquer tipo de problema orgânico que interferisse no seu sistema imunológico, e que não fossem alcóolatras. Como contraponto, ela escolheu mais 10 profissionais que não trabalhassem no sol, como zeladores e auxiliares de cozinha, que passavam uma média de 1h20 expostos diariamente.
Foram coletadas amostras de biópsias de pele da região do pescoço, cuja exposição ao sol é quase de 100%, e dos glúteos, praticamente nula. Por meio de exames em tecidos realizados com reações químicas, ficou provado que as amostras de pele do pescoço dos pescadores apresentavam marcadores imunológicos bem maiores em comparação à pele dos glúteos. Esses marcadores também foram encontrados no sangue dos pescadores, mas não estavam presentes nem no sangue nem em amostras de pele dos não-pescadores. As células encontradas fazem parte do sistema de defesa do organismo frente a o aparecimento de tumores e infecções.
- O meu trabalho é o primeiro a avaliar a exposição solar crônica e prolongada - comemora Sarita. - É incrível não ter encontrado um caso de câncer, e sim esta tolerância.
Fonte: JB Online
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