sábado, dezembro 29, 2007

Oito minutos de gabolice na TV

O caprichado pronunciamento do presidente Lula na despedida de 2007 e os votos de boas festas na saudação ao Ano-Novo, transmitido com as fanfarras da rede nacional de rádio e televisão, na noite de quinta-feira, merece elogios pelos progressos do orador e o cuidado da assessoria responsável pelo excelente visual e pelo desempenho do astro único do show.
Louvar, ainda mais no clima de esperanças de véspera de um novo ano, o terceiro do segundo mandato do orador, é mais gratificante do que criticar. Ficamos no meio justo, de agrados e ressalvas. Para princípio do balanço, o reconhecimento da excelente atuação presidencial. Desde a aparência cuidada da barba aparada, o terno de corte impecável, a gravata de cor viva e laço irretocável. De tanto treinar nos muitos improvisos de cada dia, o orador aprimorou os inegáveis dotes de comunicador. E aprendeu a ler na telinha o texto, de períodos curtos e com dados de confundir a cuca do ouvinte ou telespectador.
O tom da fala era o que o bom senso recomenda. Com algumas derrapadas nas curvas das contradições. Lula superou o trauma da sua maior derrota política com a derrubada da emenda constitucional que prorrogava a cobrança da CPMF, o imposto do cheque até 2011. Refez as contas, aconselhou-se com a equipe econômica e foi convencido de que o corte dos R$ 40 bilhões por ano pode ser aliviado com as mágicas da execução orçamentária e o aumento na arrecadação.
A cascata de auto-elogios que desfilou no corso da estatística dos êxitos causou o impacto pretendido na boa-fé do povo em pleno clima festeiro. O "excelente momento" que o país está vivendo, segundo a sua avaliação, confirma que "a casa está arrumada" e que os resultados começam a aparecer. Mas, reconhece, "é preciso avançar mais". E completa: "sobretudo em saúde, segurança e educação".
Ainda bem que as ressalvas explícitas, embora limitadas à ginga entre sucessos e frustrações, salvou a credibilidade que perigou na travessia de algumas pinguelas. A mais grave e indesculpável quando ignorou os índices de aumento da devastação da Amazônia, carpidos pelo Ministério do Meio Ambiente e reconhecidos pela ministra Marina Silva, para insistir, na contramão da realidade, nas medidas pontuais que não resistiram à ofensiva desafiadora das motosserras, dos plantadores de soja e fazendeiros. É a mais negra mancha no painel das louvaminhas da metade do segundo mandato.
Não se poderia esperar que o presidente destacasse as falhas dos seis anos do mandato duplicado para modestamente passar às carreiras pelos acertos confirmados pela mobilidade social que levou a ONU a classificar o Brasil como país de alto desenvolvimento, com 20 milhões de pessoas ascendendo das classes D e E para C nos últimos cinco anos. O Bolsa Família é louvado como um dos responsáveis pelos resultados alcançados pela política social do governo.
Mas os R$ bilhões que seriam destinados pelo PAC da Saúde até 2010 esbarraram na derrubada do CPMF. E, se o presidente ressalva o seu respeito de democrata à decisão do Congresso, manifesta a esperança de que "governo, Congresso e a sociedade encontrem uma solução para o problema". Pode ser. A postura conciliatória, depois dos desabafos e ásperas e recíprocas críticas, abriu veredas para o relacionamento com o Legislativo na metade do ano, antes que esquente a campanha eleitoral para prefeitos e vereadores, que esvaziará os plenários da Câmara e do Senado. Sem o amparo da base municipal, a reeleição de senadores e deputados federais e estaduais fica muito difícil.
A habilidade do trapezista e da sua trupe no show de fim do ano foi o mais competente retoque na imagem do presidente e do governo, embalado por excelentes resultados setoriais. Na arrancada da reta final, na hora da verdade do tudo ou nada, não será tão simples e fácil repetir o truque clássico da valorização dos acertos para esconder as falhas.
O governo acertou e errou muito. A campanha eleitoral baixa aos municípios, aos distritos, às ruas e vielas, aos grotões da miséria, onde quer que se esconda o voto. Portanto, nas metrópoles de milhões de habitantes, nas capitais e cidades de milhares de residentes, nas favelas dominadas pela violência e tráfico de drogas. No Brasil da pobreza, a gratidão pelo Bolsa Família esbarra na justa indignação pela omissão oficial nas áreas críticas dos hospitais e postos de saúde, nas estradas esburacadas que condenam os usuários às longas caminhadas pelas trilhas lamacentas.
Saúde, educação e segurança são os calos que atrapalham a marcha da caravana oficial.
Fonte: JB Online

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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