domingo, dezembro 23, 2007

Opinião: Os prefeitos e o projeto nacional

Patrus Ananias ministro do desenvolvimento social e combate à fome
O noticiário político nacional vem se alimentando de especulações em torno da sucessão do presidente Lula. Na minha análise, uma pauta fora de seu tempo, posta antes mesmo do final do primeiro ano do segundo mandato do presidente, eleito em 2006, junto aos 27 governadores. Aos que se preocupam com o futuro do país, não interessa discutir nem sucessão presidencial nem estadual. Tanto o presidente quanto os governadores estão no final do primeiro ano de um mandato. É tempo de trabalho, de colocar em prática os compromissos assumidos.
O calendário eleitoral anuncia uma outra pauta que considero muito mais pertinente e que se reveste de grande importância: as eleições municipais de 2008. No entanto, é um assunto que vem sendo escanteado na agenda política, abrindo pouco ou nenhum espaço sobre o significado da eleição e sobre possíveis impactos na condução de um projeto nacional. Não digo que o assunto esteja esquecido; mas nas vezes em que é tratado, resume-se mais a especulações em torno de nomes do que de projetos.
Na condição de ministro, tenho comprovado a importância das prefeituras na implementação das políticas públicas. No nosso ministério, são muitos os programas que dependem de articulação com prefeituras, como o Programa de Atenção Integral às Famílias (Paif), os Restaurantes Populares, Cozinhas Comunitárias e Bancos de Alimentos, as ações de geração de trabalho e renda. Na região do Semi-Árido brasileiro, temos o projeto de construção de cisternas.
Mesmo naqueles programas com transferência direta aos beneficiários, como o caso do Bolsa Família e do Benefício de Prestação Continuada (BPC), buscamos estabelecer parcerias com os municípios para aperfeiçoar os mecanismos de focalização, controle e de fiscalização. No Bolsa Família, destacamos, por exemplo, o esforço no sentido de promover a gestão descentralizada do programa, conferindo às prefeituras responsabilidades na atualização dos dados do cadastro, controle das condicionalidades de saúde e de freqüência escolar por parte das famílias beneficiárias. São também programas que têm impacto nas economias locais, porque geram mais recursos em circulação e, portanto, mais impostos para estimular o crescimento regional.
Quanto mais republicanas são as políticas públicas, quanto mais elas se tornam direitos, mais devem estar atentas às condições do pacto federativo. Isso vale para todas as áreas: educação, saúde, habitação, investimentos em infra-estrutura. Como entes da federação e responsabilidades jurídico-administrativas bem definidas pela Constituição Federal, os municípios se constituem em um espaço fundamental para implementação das políticas porque eles estão na ponta do processo, em contato direto com os usuários. Isso mostra como as eleições municipais interferem, de modo significativo, na condução do projeto nacional no país.
Os prefeitos que serão eleitos nas próximas eleições terão pela frente uma extensa pauta política e administrativa que traduz grandes desafios. Dentre eles, está a tarefa de conformar e consolidar os consórcios intermunicipais, prevista na lei dos Consórcios Públicos aprovada em 2005. A lei, além de oferecer um recurso para facilitar solução de problemas em regiões metropolitanas, também reforça o potencial de os prefeitos, em conjunto, mudarem as realidades locais.
Da mesma maneira, e pelo mesmo motivo, a mesma importância é conferida à escolha dos vereadores que vão compor as câmaras municipais para o próximo mandato. Representantes do povo no processo de legislar e fiscalizar o Executivo, eles podem dar contribuições valiosas aos processos municipais desde que se comprometam, nessa discussão, com o interesse público acima de qualquer outro.
Muito antes de discutirmos 2010, temos de nos debruçar sobre as eleições de 2008, temos de mobilizar as pessoas para discutir a importância das prefeituras e os projetos que estarão em jogo porque um bom prefeito faz a diferença e pode mudar a vida das pessoas, sobretudo dos mais pobres.
Fonte: JB online

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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