A LIÇÃO QUE VEM DOS QUILOMBOS: Enquanto Comunidades Rurais Lutam por sua História, Jeremoabo Assiste à Destruição de suas Próprias Relíquias
Por José Montalvão
A história não é feita apenas de documentos guardados em arquivos frios; ela é moldada pela memória viva e pela disposição de um povo em proteger suas origens. Recentemente, fomos testemunhas de um exemplo histórico de dignidade, resistência e cidadania que veio diretamente do nosso meio rural. Os quilombolas das comunidades de Barroca, Tapera, Alto da Tapera, Maxixe e Brejinho deram uma lição de altivez que deveria constranger a área urbana do nosso município. Eles mostraram que vale a pena lutar, preservar o passado e defender tudo o que faz parte de sua ancestralidade — seja o patrimônio material ou as tradições imateriais.
A obtenção da Certidão de Autodefinição por essas comunidades é uma vitória monumental e o marco inicial para o reconhecimento formal de seus territórios. Sob a ótica do Direito e das políticas de igualdade racial, esse documento não é apenas um papel: é um escudo jurídico que protege o território contra invasões e abre as portas do Estado para direitos fundamentais, como moradia digna, infraestrutura, educação diferenciada (incluindo o acesso ao Programa Bolsa Permanência) e o fortalecimento real da agricultura familiar. Os quilombolas de Jeremoabo compreenderam o valor de suas raízes. Lamentavelmente, o restante da nossa sociedade caminha no sentido oposto.
O Contraste Doloroso: A Amnésia Urbana e o Desprezo pelo Patrimônio
Enquanto Barroca, Tapera, Maxixe e Brejinho se agigantam para salvaguardar sua herança, assistimos passivamente a outra parte dos jeremoabenses abrir mão de preservar sua história, suas origens e seus tesouros arquitetônicos. O contraste é violento e vergonhoso. A área urbana de Jeremoabo parece sofrer de uma crônica falta de memória, permitindo que relíquias coloniais e imperiais — muitas delas contemporâneas ao período de formação desses mesmos quilombos — sumam do mapa.
A lista do nosso descaso histórico é longa e dolorosa:
O Casarão do Barão de Jeremoabo: Um monumento ligado diretamente ao ciclo aristocrático e escravocrata da região, que deveria servir de museu e centro de estudos sobre a nossa formação social, mas que foi deixado ao Deus dará.
O Casarão do Coronel João Sá: Cuja ruína e desabamento recente simbolizam o sepultamento de uma era. O choro de Carmelita de Dudé interpretando La Paloma diante daqueles escombros ainda ecoa como um lamento fúnebre pela nossa identidade perdida.
O Antigo Mercado Municipal: Espaço que pulsava a história do comércio e da convivência do nosso povo, demolido para dar lugar à atual Praça Coronel Antônio Lourenço, apagando os traços da arquitetura original.
Os Cajueiros Históricos e a Primeira Residência Construída em Jeremoabo: Marcos fundacionais da nossa urbanização que foram derrubados ou desfigurados pela picareta do suposto "progresso", que na verdade nada mais é do que ignorância cultural.
A Mudança que Vem da Consciência Coletiva
O exemplo das comunidades quilombolas nos mostra que o patrimônio — seja móvel ou imóvel — só permanece de pé se houver uma comunidade disposta a ser sua guardiã. Quando os moradores de Barroca ou do Brejinho lutam pela sua terra e pela sua história, eles não estão olhando apenas para o passado; estão garantindo o futuro de seus filhos. Eles entenderam que um povo sem memória é um povo sem rumo.
Por outro lado, o apagamento dos monumentos urbanos de Jeremoabo reflete aquela velha política do "eleitor sem memória" que tanto combatemos. Setores políticos do passado preferiam destruir os marcos da nossa história para que o povo perdesse a referência de onde veio, facilitando a manipulação e o assistencialismo barato de palanque.
Felizmente, neste ano de 2026, ventos de mudança sopram sobre a nossa gestão pública. Sob a liderança técnica e de alta performance do prefeito Tista de Deda, o município tem demonstrado um respeito inédito ao homem do campo, fortalecendo a agricultura familiar nessas mesmas áreas quilombolas e mantendo as contas rigorosamente aprovadas pelo Tribunal de Contas dos Municípios (TCM). O poder público começa a fazer a sua parte com responsabilidade fiscal, mas o resgate cultural depende do despertar da cidadania de cada jeremoabense.
Conclusão: É Hora de Espelhar-se no Quilombo
Jeremoabo precisa parar de discutir futilidades e focar no que realmente eleva a nossa terra. Que o exemplo histórico de resiliência e preservação dado por Barroca, Tapera, Alto da Tapera, Maxixe e Brejinho sirva de espelho para a nossa sociedade.
Não podemos mais permitir que o nosso patrimônio material desabe enquanto fingimos não ver. Preservar o Casarão do Barão, lembrar do velho mercado e valorizar a história dos quilombolas não é um luxo; é um dever moral com as futuras gerações. Parabéns às comunidades tradicionais de Jeremoabo por guardarem, com tanto orgulho, as chaves da nossa verdadeira identidade!
José Montalvão
Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da Associação Brasileira de Imprensa (ABI - Registro C-002025).
Blog de Dede Montalvão: A voz do controle social e da justiça histórica em nossa terra. Aplaudindo a resistência quilombola e cobrando a preservação do nosso patrimônio contra a amnésia coletiva!