Nesta terça-feira (11/08/2026), levantamento de Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia, revela que a corrente política originada pela liderança de Antônio Carlos Magalhães (ACM) acumulou aproximadamente 36 anos e seis meses no comando da Prefeitura de Salvador, distribuídos por quatro ciclos contínuos, 11 gestões municipais e oito prefeitos, desde a posse de ACM, em 1967, até o segundo mandato de Bruno Reis, em curso. A trajetória reúne administrações exercidas durante o regime militar — quando os prefeitos das capitais eram escolhidos indiretamente — e governos legitimados pelo voto popular, como os de Antônio Imbassahy, ACM Neto e Bruno Reis. O atual ciclo, iniciado por ACM Neto em 2013 e mantido por Reis, já soma 13 anos e sete meses e poderá alcançar 16 anos consecutivos em dezembro de 2028, elevando para cerca de 38 anos e dez meses o tempo total de permanência do grupo no poder municipal.
Levantamento distingue ciclos, gestões e prefeitos
A contabilização utiliza três conceitos: o número de prefeitos, a quantidade de administrações ou mandatos e os ciclos contínuos de permanência no poder.
Oito políticos exerceram o cargo em períodos vinculados à corrente formada por ACM: Antônio Carlos Magalhães, Clériston Andrade, Mário Kertész, Renan Baleeiro, Manoel Castro, Antônio Imbassahy, ACM Neto e Bruno Reis.
Como Imbassahy, Neto e Reis foram reeleitos, os oito prefeitos respondem por 11 gestões. Já a concentração dessas administrações em períodos consecutivos, interrompidos pela eleição ou nomeação de adversários, forma quatro ciclos políticos:
- 1967 a 1975: ACM e Clériston Andrade;
- 1979 a 1985: Mário Kertész, Renan Baleeiro e Manoel Castro;
- 1997 a 2004: dois mandatos de Antônio Imbassahy;
- 2013 a 2026: dois mandatos de ACM Neto e duas gestões de Bruno Reis, sendo a última ainda em curso.
A classificação considera vínculos partidários, indicações, alianças eleitorais, sucessões planejadas e declarações públicas de continuidade. Isso não significa atribuir juridicamente a ACM as decisões administrativas tomadas por seus aliados e sucessores. Cada prefeito exerceu competências próprias e respondeu institucionalmente pelo respectivo governo.
Primeiro ciclo começa com ACM e prossegue com Clériston Andrade
Antônio Carlos Magalhães assumiu a Prefeitura de Salvador em 10 de fevereiro de 1967, durante o regime militar, após ser escolhido por via indireta. Permaneceu no Executivo municipal até 6 de abril de 1970, quando deixou o cargo no contexto da articulação política que o levaria ao Governo da Bahia.
Esse foi o único período em que o próprio ACM administrou diretamente Salvador. Sua gestão durou aproximadamente três anos e dois meses e ocorreu em uma conjuntura na qual os prefeitos das capitais brasileiras não eram escolhidos diretamente pela população.
A administração foi sucedida por Clériston Andrade, que havia exercido a função de procurador-geral do Município e integrava o núcleo político do antecessor. Clériston assumiu em abril de 1970 e permaneceu no cargo até março de 1975.
Como prefeito, deu continuidade ao programa administrativo iniciado por ACM. Quando Antônio Carlos Magalhães assumiu o Governo da Bahia, em 1971, a articulação entre o Estado e o Município permitiu a execução de intervenções urbanas na capital, incluindo obras viárias associadas à expansão de Salvador.
Clériston tornou-se uma das principais lideranças do grupo e chegou a ser apoiado por ACM para disputar o Governo do Estado. Somadas, as administrações de Antônio Carlos Magalhães e Clériston Andrade formaram o primeiro ciclo, com aproximadamente oito anos de duração.
Segundo ciclo reúne três prefeitos entre 1979 e 1985
Depois de um intervalo de aproximadamente quatro anos, o grupo de ACM retomou o comando da Prefeitura em março de 1979. O escolhido foi Mário Kertész, que havia integrado a equipe de Antônio Carlos Magalhães e exercido funções estratégicas no Governo da Bahia.
Kertész permaneceu no cargo até novembro de 1981. Seu primeiro governo integra o levantamento porque ele foi indicado durante o segundo mandato de ACM como governador e, naquele momento, fazia parte do núcleo administrativo e político carlista.
Após deixar a Prefeitura, entretanto, Mário Kertész rompeu com Antônio Carlos Magalhães, filiou-se ao PMDB e passou para o campo da oposição. Por essa razão, seu segundo governo, iniciado em janeiro de 1986 após uma vitória eleitoral direta, não integra a contagem.
Com a saída de Kertész, Renan Baleeiro foi convidado pelo então governador ACM para assumir a Prefeitura. Ex-secretário estadual da Agricultura, Baleeiro permaneceu no cargo entre novembro de 1981 e fevereiro de 1983. A relação entre sua escolha e o governador está registrada na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé.
Em fevereiro de 1983, a administração passou para Manoel Castro, que havia exercido a vice-prefeitura e ocupado cargos no Governo da Bahia. Integrante do carlismo, Castro permaneceu à frente do Município até 31 de dezembro de 1985, segundo registro da Câmara Municipal de Salvador.
O segundo ciclo, formado pelas administrações de Mário Kertész, Renan Baleeiro e Manoel Castro, durou aproximadamente seis anos e dez meses, entre março de 1979 e dezembro de 1985.
Eleições diretas interrompem permanência do grupo
A eleição municipal realizada em 1985 marcou a restauração do voto direto para a Prefeitura de Salvador. Mário Kertész venceu a disputa, mas já se apresentava como adversário de ACM.
Depois de Kertész, Salvador foi administrada por Fernando José, entre 1989 e 1992, e por Lídice da Mata, de 1993 a 1996. Esses governos não são contabilizados como integrantes do grupo político de Antônio Carlos Magalhães.
O período entre janeiro de 1986 e dezembro de 1996 representou uma interrupção de 11 anos no controle da Prefeitura pela corrente carlista.
A sequência foi encerrada com a eleição de Antônio Imbassahy, em outubro de 1996. Ligado politicamente a ACM, Imbassahy venceu no primeiro turno e tomou posse em janeiro de 1997.
Imbassahy estabelece terceiro ciclo de oito anos
A eleição de Antônio Imbassahy representou a primeira vitória do grupo de ACM para a Prefeitura de Salvador após a volta das eleições diretas. Desde 1985, os candidatos apoiados pelo carlismo não haviam conseguido conquistar o Executivo da capital.
Imbassahy exerceu o primeiro mandato entre 1º de janeiro de 1997 e 31 de dezembro de 2000. Reeleito, iniciou uma nova gestão em janeiro de 2001 e permaneceu no cargo até dezembro de 2004.
Embora conduzidos pelo mesmo prefeito, os dois mandatos são contabilizados individualmente. Dessa forma, Imbassahy responde pela sexta e pela sétima gestões relacionadas ao grupo de ACM.
Na eleição de 2000, o prefeito declarou que Antônio Carlos Magalhães havia sido o principal responsável pelo seu desempenho eleitoral e afirmou que manteria a orientação política da administração. A declaração foi registrada pela Folha de S.Paulo.
Os dois mandatos formaram o terceiro ciclo, com oito anos consecutivos de duração.
Em 2004, o candidato apoiado pelo grupo, César Borges, foi derrotado por João Henrique Carneiro. O resultado produziu uma nova interrupção. João Henrique permaneceu no cargo durante dois mandatos, de janeiro de 2005 a dezembro de 2012, inicialmente eleito como adversário do carlismo.
ACM Neto inicia quarto ciclo em 2013
A corrente política retornou ao comando municipal com a eleição de ACM Neto, em 2012. O então deputado federal derrotou Nelson Pelegrino, candidato do PT, no segundo turno e tomou posse em 1º de janeiro de 2013.
A vitória ocorreu cinco anos depois da morte de Antônio Carlos Magalhães, em julho de 2007. Neto era herdeiro familiar e político do antigo senador, mas procurou apresentar sua liderança como uma reorganização mais ampla da oposição baiana.
Após a eleição, ACM Neto afirmou que não seria adequado falar em uma simples retomada do carlismo. Segundo ele, a composição construída em 2012 havia ultrapassado os limites tradicionais do grupo ao reunir partidos anteriormente situados em outros campos políticos. A declaração está registrada em reportagem do Jornal Grande Bahia.
Sob o ponto de vista da sucessão política, entretanto, a administração iniciada em 2013 representou o retorno ao poder municipal da corrente originada na liderança de ACM. Neto foi reeleito em 2016, no primeiro turno, e permaneceu na Prefeitura até 31 de dezembro de 2020.
Os dois mandatos acrescentaram oito anos à permanência acumulada do grupo em Salvador.
Bruno Reis mantém continuidade e amplia ciclo até 2028
O sucessor de ACM Neto foi Bruno Reis, que havia exercido os cargos de vice-prefeito e secretário municipal. Integrante do mesmo grupo partidário, venceu a eleição de 2020 no primeiro turno, com 64,20% dos votos válidos.
Ao tomar posse, em janeiro de 2021, Reis declarou que daria continuidade à administração do antecessor e destacou o aprendizado adquirido durante os anos em que integrou o governo municipal. A manifestação consta no registro oficial da Câmara Municipal de Salvador.
Em outubro de 2024, Bruno Reis foi reeleito no primeiro turno com 78,67% dos votos válidos. O resultado manteve a Prefeitura sob o comando do mesmo grupo político e garantiu a continuidade administrativa até dezembro de 2028.
O primeiro governo de Reis, entre 2021 e 2024, corresponde à décima gestão do levantamento. O segundo mandato, iniciado em janeiro de 2025, representa a 11ª administração e permanece em curso.
A sequência formada por ACM Neto e Bruno Reis havia alcançado 13 anos e sete meses em agosto de 2026. Caso o atual prefeito conclua o mandato, o quarto ciclo terá 16 anos consecutivos, de janeiro de 2013 a dezembro de 2028.
Contabilização individual aponta 11 gestões
Quando cada administração ou mandato é contabilizado separadamente, o levantamento apresenta o seguinte resultado:
- Antônio Carlos Magalhães
- Período contabilizado: 10/02/1967 a 06/04/1970
- Duração aproximada: 3 anos e 2 meses
- Clériston Andrade
- Período contabilizado: 06/04/1970 a março de 1975
- Duração aproximada: 4 anos e 11 meses
- Mário Kertész
- Período contabilizado: março de 1979 a novembro de 1981
- Duração aproximada: 2 anos e 8 meses
- Renan Baleeiro
- Período contabilizado: novembro de 1981 a fevereiro de 1983
- Duração aproximada: 1 ano e 3 meses
- Manoel Castro
- Período contabilizado: fevereiro de 1983 a 31/12/1985
- Duração aproximada: 2 anos e 10 meses
- Antônio Imbassahy — primeiro mandato
- Período contabilizado: 01/01/1997 a 31/12/2000
- Duração: 4 anos
- Antônio Imbassahy — segundo mandato
- Período contabilizado: 01/01/2001 a 31/12/2004
- Duração: 4 anos
- ACM Neto — primeiro mandato
- Período contabilizado: 01/01/2013 a 31/12/2016
- Duração: 4 anos
- ACM Neto — segundo mandato
- Período contabilizado: 01/01/2017 a 31/12/2020
- Duração: 4 anos
- Bruno Reis — primeiro mandato
- Período contabilizado: 01/01/2021 a 31/12/2024
- Duração: 4 anos
- Bruno Reis — segundo mandato
- Período contabilizado: 01/01/2025 a 10/08/2026
- Duração aproximada: 1 ano e 7 meses transcorridos
Até 10 de agosto de 2026, a soma individual das 11 gestões alcançava aproximadamente 36 anos e seis meses.
Caso Bruno Reis permaneça no cargo até 31 de dezembro de 2028, seu segundo mandato será contabilizado integralmente como quatro anos. Nesse cenário, o tempo acumulado pelo grupo chegará a aproximadamente 38 anos e dez meses.
Quatro ciclos concentram presença do grupo no poder
As 11 administrações podem ser reunidas em quatro ciclos contínuos, separados por períodos nos quais a Prefeitura esteve sob o comando de outros grupos políticos:
- Ciclo 1 — 1967 a 1975
- Prefeitos: Antônio Carlos Magalhães e Clériston Andrade
- Duração aproximada: 8 anos
- Ciclo 2 — 1979 a 1985
- Prefeitos: Mário Kertész, Renan Baleeiro e Manoel Castro
- Duração aproximada: 6 anos e 10 meses
- Ciclo 3 — 1997 a 2004
- Prefeito: Antônio Imbassahy
- Duração: 8 anos
- Ciclo 4 — 2013 a 2026
- Prefeitos: ACM Neto e Bruno Reis
- Duração aproximada: 13 anos e 7 meses transcorridos até 10/08/2026
A reunião por ciclos evita que sucessões internas ou reeleições sejam interpretadas como interrupções políticas. Ao mesmo tempo, a contagem individual permite identificar a responsabilidade administrativa de cada prefeito e de cada mandato.
Em uma delimitação restrita à liderança pessoal de Antônio Carlos Magalhães, sem incluir ACM Neto e Bruno Reis, foram sete gestões, exercidas por seis prefeitos, ao longo de aproximadamente 22 anos e dez meses.
Com a inclusão dos dois mandatos de ACM Neto e das duas gestões de Bruno Reis, o levantamento ampliado chega a 11 administrações, quatro ciclos e cerca de 36 anos e meio no poder até agosto de 2026.
Linha do tempo do grupo de ACM na Prefeitura de Salvador
- 10/02/1967: Antônio Carlos Magalhães assume a Prefeitura;
- 06/04/1970: ACM deixa o cargo e Clériston Andrade assume;
- Março de 1975: encerra-se o primeiro ciclo;
- Março de 1979: Mário Kertész assume por indicação política de ACM;
- Novembro de 1981: Renan Baleeiro sucede Kertész;
- Fevereiro de 1983: Manoel Castro assume a administração;
- 31/12/1985: termina o segundo ciclo;
- 01/01/1986: Mário Kertész retorna pelo voto direto, já como adversário de ACM;
- 01/01/1997: Antônio Imbassahy inicia o primeiro mandato;
- 01/01/2001: Imbassahy começa o segundo mandato;
- 31/12/2004: termina o terceiro ciclo;
- 01/01/2013: ACM Neto assume a Prefeitura;
- 01/01/2017: Neto inicia o segundo mandato;
- 01/01/2021: Bruno Reis sucede ACM Neto;
- 01/01/2025: Bruno Reis inicia o segundo mandato;
- 31/12/2028: término previsto do atual ciclo administrativo.
O levantamento evidencia a extensão da influência exercida pela corrente política originada por Antônio Carlos Magalhães sobre Salvador, mas as diferenças históricas entre as administrações precisam ser preservadas. Os governos anteriores a 1986 decorreram de escolhas indiretas ou nomeações realizadas durante o regime militar. Imbassahy, ACM Neto e Bruno Reis, por sua vez, conquistaram seus mandatos em eleições diretas, inclusive com reeleições expressivas.
A corrente política administrou Salvador durante aproximadamente 36 anos e meio até agosto de 2026 e poderá alcançar quase 39 anos ao final de 2028. Essa permanência transforma o grupo em um dos principais responsáveis pela formação urbana, fiscal, social e administrativa da capital nas últimas seis décadas.
*Carlos Augusto, jornalista, cientista social e editor do Jornal Grande Bahia.
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