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Eleitorado feminino disputa a atenção de candidatos
Caio Sartori
O Globo
Atualizada no final de julho pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a composição do eleitorado para a disputa de 2026 adicionou uma dose extra de relevância ao debate sobre voto feminino, que registrou padrão diferente do masculino nas últimas duas eleições.
Crescente a cada ano, a distância entre o número de mulheres e homens aptos a votar chegou a 9,1 milhões de pessoas. A maioria feminina favorece, em tese, o presidente Lula (PT), que apresenta bons números no segmento, e desafia candidatos como Flávio Bolsonaro, que vem acenando ao segmento.
SÉRIE HISTÓRICA – O aumento percentual das mulheres no eleitorado, fruto das mudanças demográficas do país, é chamativo sobretudo quando se analisa a série histórica do TSE. Em 2010, eram 5,1 milhões a mais na comparação com os homens. De lá para cá, portanto, a diferença quase dobrou. As eleitoras representam hoje 52,8% do total.
Até a ascensão de Jair Bolsonaro, em 2018, havia uma diferenciação menor entre os votos dos diferentes sexos nas eleições presidenciais. Como mostra o cientista político Jairo Nicolau no recém-lançado “O país dividido” (Zahar), o PT teve amplo domínio nos dois gêneros entre 2002 e 2014.
A reconfiguração foi nítida há oito anos. Entre o eleitorado feminino, o resultado registrou praticamente empate, com pequena vantagem para o presidente eleito. Já quando se consideram os votos masculinos, a vitória se deu de forma bem expressiva, com dois em cada três optando por Bolsonaro.
VITÓRIA DE LULA – Quatro anos depois, Bolsonaro despencou nos dois sexos, mas, como carregava uma vantagem superlativa entre os homens, continuou à frente no segmento. As mulheres, contudo, fizeram com que Lula vencesse a disputa
Mas, afinal, o que motiva a discrepância? Segundo Andressa Rovani, pesquisadora do Centro de Estudos de Opinião Pública (Cesop) e doutoranda da Unicamp, a candidatura de Bolsonaro em 2018 trouxe ao debate político temas de cunho moral que antes não protagonizavam as eleições.
— O discurso do Bolsonaro provoca uma reação muito clara no eleitorado feminino. Antes disso, existia uma diferença menor entre os votos de homens e mulheres — aponta. — Isso se dá muito via rejeição ao Bolsonaro. Em 2022, se dependesse só das mulheres, Lula teria sido eleito no primeiro turno.
RELEVÂNCIA – Dados compilados pela pesquisadora mostram que a entrada de Bolsonaro no jogo político brasileiro fez as curvas de homens e mulheres se afastarem. Entre 2002 e 2010, o PT era até mais votado proporcionalmente por eles do que por elas, com maioria significativa em ambos. Depois de empate técnico em 2014, as mulheres passaram a ser mais relevantes para os sufrágios do partido nas últimas duas disputas, contra Bolsonaro.
Os números são do Estudo Eleitoral Brasileiro (Eseb), pesquisa vinculada ao Cesop feita após as eleições e que é referência para esse tipo de análise. Em 2018 e 2022, Fernando Haddad e Lula, respectivamente, tiveram cerca de dez pontos percentuais a mais no eleitorado feminino do que no masculino no segundo turno, a despeito de um ter perdido a eleição e o outro ter vencido.
Jairo Nicolau observa no livro que pesquisas qualitativas feitas em 2018 mostraram que o perfil de Bolsonaro de “liderança corajosa” foi central para que homens jovens abraçassem o capitão do Exército. Contribuiu para isso o histórico político do então deputado, muito calcado em pautas de segurança pública e das Forças Armadas.
APROVAÇÃO – Segundo a última sondagem Genial/Quaest, deste mês, 50% das mulheres aprovam o governo Lula, e 44% desaprovam. Entre os homens, ocorre o inverso: 50% rechaçam a gestão, e 46% a consideram positiva.
No levantamento do Datafolha de junho, o petista marca 44% contra 26% de Flávio Bolsonaro na simulação de segundo turno, quando são consideradas apenas as eleitoras. Já os homens registram empate, com 37% para cada.
CRISE – Flávio enfrentou a crise com a madrasta, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, que fez um vídeo de desabafo sobre a relação difícil com o enteado. Depois, um dos aliados do clã, Paulo Figueiredo, alegou que as mulheres “votam mal” e intensificou os problemas da campanha.
Um dos antídotos do presidenciável do PL para tentar correr atrás do prejuízo passa pelo próprio núcleo duro familiar. Ele passou a envolver mais a esposa, Fernanda, na estratégia de campanha, além de se vangloriar de ser “pai de menina”.
Na última quinta-feira, Flávio também fez um pedido de desculpas à madrasta. Em vídeo, “renovou o convite” para que caminhassem juntos na eleição.