
Foto Divulgação - Lauro de Freitas (Bahia Terra Turismo)
Lauro de Freitas, o Recôncavo Norte e a Independência da Bahia: memória, pertencimento e reparação histórica.
O reconhecimento da participação histórica de Lauro de Freitas nas lutas do 2 de Julho fortalece a identidade cultural do Recôncavo Norte e reafirma a importância da preservação do patrimônio, da pesquisa e da memória coletiva.
A história da Independência da Bahia está sendo reescrita de forma mais justa. Após quase dois séculos de invisibilidade, os municípios do Recôncavo Norte passaram a ocupar o lugar que lhes pertence nas celebrações do 2 de Julho, uma conquista construída pelo trabalho coletivo de pesquisadores, historiadores, agentes culturais e lideranças comprometidas com a preservação da memória baiana.
Desde 2023, Lauro de Freitas integra oficialmente o percurso do Fogo Simbólico, ao lado de Mata de São João, Dias d'Ávila e Camaçari. O trajeto segue até Simões Filho, onde se une ao roteiro tradicional, vindo de Cachoeira, Saubara, Santo Amaro, São Francisco do Conde e Candeias, rumo a Salvador.
A iniciativa, incorporada pela Fundação Gregório de Mattos (FGM), representa mais do que uma alteração de percurso. Trata-se do reconhecimento da participação efetiva desses municípios na consolidação da Independência da Bahia.
Lauro de Freitas, antiga Santo Amaro de Ipitanga, teve papel relevante nesse processo histórico, acolhendo combatentes e enviando soldados para as batalhas que garantiram a libertação do território baiano do domínio português.
Para o historiador, professor e membro da Academia de Letras e Artes de Lauro de Freitas (ALALF), Coriolano Oliveira Filho, esse momento simboliza a reparação de uma dívida histórica.
“É o reconhecimento de Santo Amaro de Ipitanga na luta pela Independência da Bahia. Levamos dois séculos para alcançar esse reconhecimento. Pelo quarto ano consecutivo, celebramos oficialmente esse momento tão importante para a história da Bahia e, sobretudo, para Lauro de Freitas.”
Esse resgate histórico ganhou força com as pesquisas desenvolvidas pelo historiador Diego Copque, natural de Camaçari, e o trabalho, realizado em parceria com pesquisadores de outras cidades, resultou na criação de um consórcio que reivindicou a retomada desse percurso histórico, obtendo o reconhecimento da Fundação Gregório de Mattos e do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).
Essa conquista demonstra que a preservação da memória exige compromisso permanente e investimento contínuo.
Como destaca Coriolano Oliveira Filho:
“Como cidadão, dei minha contribuição, assumindo custos e dedicando tempo a essa causa. Se dependêssemos exclusivamente dos recursos municipais, seria necessário aguardar editais. Falta escuta e consciência de que a cultura se constrói continuamente, com planejamento, transparência e investimento.”
Ao revisitar a história da Independência da Bahia, outros personagens fundamentais emergem desse processo. Entre eles está João Ladisláu de Figueiredo e Mello (1772–1856), figura histórica cuja trajetória atravessa importantes acontecimentos políticos da Bahia, como a Conjuração Baiana (1798), as agitações políticas durante o governo do Conde dos Arcos (1810–1818), a Revolução Constitucional (1821), o processo de Independência (1822–1823) e a Sabinada (1837–1838).
A Bahia do século XIX, período em que nasceu José Álvares do Amaral, vivia intensamente as transformações provocadas pelas lutas da Independência do Brasil. Embora D. Pedro I tenha proclamado a Independência em 7 de setembro de 1822, em São Paulo, a Bahia permaneceu sob domínio português, tornando-se um dos principais focos de resistência luso-portuguesa.
Foi nesse cenário que surgiram personagens fundamentais para a construção da identidade histórica de Lauro de Freitas, anteriormente denominada Santo Amaro de Ipitanga.
Entre eles, destaca-se José Álvares do Amaral, figura de grande relevância para a preservação da memória cívica baiana. Em 1860, ele avalizou a aquisição do imóvel onde foi instalado o Pavilhão Histórico da Lapinha, espaço que abriga, até os dias atuais, os carros cívicos que simbolizam a Independência da Bahia.
O tradicional carro do Caboclo, construído em 1828, permanece como um dos maiores símbolos desse patrimônio. Em sua estrutura estão registrados os nomes dos principais combates das guerras da Independência, enquanto suas rodas foram confeccionadas a partir das carretas utilizadas nas peças de artilharia tomadas dos inimigos.
A importância de José Álvares do Amaral também foi reconhecida pela historiadora Consuelo Pondé de Sena. Em artigo publicado no jornal A Tarde, em 20 de fevereiro de 1999, no Caderno 1, página 8, na coluna Opinião, a então presidente do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia escreveu o texto intitulado Sobre um autor antigo, no qual prestou uma homenagem ao ilustre e, ao mesmo tempo, ainda pouco conhecido conterrâneo.
Em tom saudosista, registrou:
“Nos momentos de trégua, quando se me aliviaram as tensões, retorno a velhos livros, desses que os novos nem sabem da existência. Hoje, quero lembrar o ‘Resumo Chronologico e Noticioso da Província da Bahia — desde seu descobrimento em 1500’, da autoria de J.A.A. (José Álvares do Amaral).”
Essa referência reforça a relevância intelectual e histórica de José Álvares do Amaral, cuja contribuição permanece como fonte indispensável para a compreensão da formação social, política e cultural da Bahia.
Se pretendemos desenvolver uma verdadeira consciência de educação patrimonial, torna-se necessária a criação de um memorial que homenageie José Álvares do Amaral, além da implantação de projetos que permitam à população conhecer melhor a própria história da cidade.
As legislações que respaldam essas iniciativas já existem nas esferas federal, estadual e municipal, mas, infelizmente, sua aplicação ainda parece distante da realidade local.
Atualmente, continuo desenvolvendo pesquisas sobre a vida e a obra de José Álvares do Amaral, movido pela relevância de sua trajetória e pela convicção de que esse campo de investigação ainda não se encontra esgotado.
Como rotariano e integrante do Rotary Club de Lauro de Freitas, compreendi ainda mais a importância desse personagem para a nossa memória coletiva, especialmente após a homenagem prestada à historiadora Consuelo Pondé de Sena, em sessão solene realizada no Dia do Escritor, em 25 de julho de 2007.
Nossa inquietação reside justamente na expressiva participação de Lauro de Freitas nas batalhas pela Independência da Bahia, na importância dos treze engenhos instalados na região, especialmente o Engenho Caji, que serviu de pouso para as tropas do general Pedro Labatut, e, sobretudo, no desconhecimento de grande parte da população acerca desses acontecimentos.
Precisamos falar sobre preservação, identidade, memória e patrimônio. Entretanto, fomentar esses sentimentos exige, antes de tudo, despertar o senso de pertencimento. Afinal, patrimônio para quem? Qual identidade a população de Lauro de Freitas reconhece como sua?
Da mesma forma, o reconhecimento público também alcança personalidades contemporâneas que têm dedicado suas trajetórias à promoção da cultura e ao fortalecimento da identidade local.
Nesse contexto, o deputado estadual Alan Sanches apresentou um projeto de resolução propondo a concessão da Comenda 2 de Julho ao empresário Coriolano Alberto Andrade de Oliveira Filho, em reconhecimento aos relevantes serviços prestados ao município de Lauro de Freitas.
Ao longo de sua trajetória, Coriolano consolidou-se como um importante empreendedor do setor do entretenimento e um dos fundadores do Conselho Municipal de Cultura, atuando ao lado de outros agentes culturais em iniciativas voltadas ao incentivo e ao fomento de ações sociais e culturais no município.
Entre suas realizações, destaca-se a Barraca da Gávea, em Vilas do Atlântico, espaço que, há mais de 30 anos, se tornou referência na promoção de atividades culturais e artísticas em Lauro de Freitas.
Segundo o parlamentar, o local abriga diversos eventos culturais e manifestações multiculturais, transformando-se em uma espécie de “Circo Voador” da cidade, democratizando o acesso à arte e contribuindo para a formação de novos talentos, especialmente entre jovens e mulheres.
Sua atuação também se estende ao empreendedorismo cultural, fortalecendo a economia criativa e contribuindo para a valorização da produção artística regional.
Reconhecer personagens como José Álvares do Amaral e Coriolano Alberto Andrade de Oliveira Filho é reconhecer a própria história de Lauro de Freitas. São trajetórias distintas, unidas por um mesmo propósito: preservar a memória, incentivar a cultura e construir uma identidade coletiva capaz de atravessar gerações.
A solução para os entraves históricos passa, necessariamente, pelo incentivo às pesquisas, pela formação de arquivos públicos, pela realização de exposições e pelo inventário dos bens culturais materiais e imateriais.
É indispensável promover um diálogo interdisciplinar que democratize o acesso à informação e torne os instrumentos culturais mais acessíveis à população.
O conhecimento é a principal ferramenta de transformação social. É preciso conhecer para pertencer; pertencer para cuidar; e cuidar para preservar.
Esse é, talvez, o maior desafio do nosso tempo: socializar a memória histórica e fazer com que seus símbolos deixem de ser apenas registros do passado para se tornarem instrumentos vivos de identidade, cidadania e pertencimento.
Uma cidade que desconhece o seu passado corre o risco de perder o rumo do seu futuro.
Coriolano Oliveira Filho
Professor, produtor cultural, sócio-fundador da Academia de Letras e Artes de Lauro de Freitas (ALALF), fundador e ex-presidente da Associação Comercial e Empresarial de Lauro de Freitas, membro do Rotary Club de Lauro de Freitas e sócio efetivo do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia (IGHB).
Lauro de Freitas, 22 de junho de 2026.
Texto e edição: Fábio Costa Pinto. Jornalista 33.166/RJ