No Brasil, a plateia majoritária que sustenta o bolsonarismo não reage quando Flávio Bolsonaro escancara o plano: fim do salário-mínimo, desmonte dos benefícios sociais, cortes nas aposentadorias e nova flexibilização trabalhista para entregar ainda mais poder a bancos, latifundiários e grandes empresários — figuras que, hoje, se fundem numa mesma casta.
Esse segmento aplaude, ou ao menos silencia, diante da fantasia de uma “invasão americana” incentivada pela família Bolsonaro. Acredita que desembarcará de mala e cuia no “sonho americano” vendido pela televisão: consumo desenfreado, felicidade comprada a prazo e um individualismo glorificado como valor supremo. Ignora que, na prática, essa receita liberal que mal compreende só aprofundaria sua própria miséria.
Já internalizou o negacionismo: a Covid-19 “não existiu”, as 700 mil mortes foram “fake news” e os escândalos bilionários do INSS e do Banco Master nada tiveram a ver com o desgoverno anterior. É o retrato cru de uma massa que celebra o próprio empobrecimento.
Enquanto isso, o país segue refém dessa ilusão coletiva. Resta torcer para que, um dia, esses mesmos brasileiros se vejam como cidadãos — e não como plateia — e transformem esta nação imensa num projeto coletivo de dignidade, e não de servidão voluntária.
Transformar essa ilusão coletiva em realidade — ou seja, romper o ciclo de servidão voluntária e construir um Brasil de cidadãos conscientes e unidos em torno da dignidade coletiva — não acontece por decreto ou por um evento isolado. É um processo lento, multifacetado e doloroso, que exige ação simultânea em várias frentes. Não há data marcada, mas há caminhos reais, já testados em contextos semelhantes e apontados por analistas, cientistas políticos e experiências recentes.
Primeiro, educação cívica e política massiva e contínua.
Segundo, despolarização ativa sem despolitização.
Terceiro, regulação inteligente das redes e combate ao negacionismo estrutural.
Quarto, protagonismo da juventude e da "maioria silenciosa" (Os 88 milhões que se sentem alheios ao debate ideológico).
O "quando" depende de nós. Pode começar amanhã, com uma conversa honesta na família, na escola, no trabalho — ou levar décadas se continuarmos torcendo contra nós mesmos. A nação digna surge quando a maioria para de ser plateia e passa a ser autora do próprio roteiro.
Por Jornalista Luis Celso