“De Tanto Ver Triunfar as Nulidades: Quando Ainda se Diz ‘Esse é Meu Deputado’”
Por José Montalvão
Em muitas cidades do Brasil, inclusive em Jeremoabo, ainda se vê um fenômeno político que revela muito sobre a fragilidade da consciência cidadã: pessoas que se orgulham de afirmar “esse é meu deputado”, mesmo quando o parlamentar carrega sobre si denúncias, práticas questionáveis ou uma trajetória marcada pela improbidade administrativa.
Esse tipo de postura revela uma distorção profunda do verdadeiro papel da representação política. O deputado não pertence a um grupo, a uma família ou a um conjunto de aliados circunstanciais. Ele deveria pertencer ao povo, atuar em defesa do interesse coletivo, respeitar a lei e honrar o mandato que lhe foi confiado.
Quando alguém se gaba de “ter um deputado”, como se fosse propriedade pessoal ou instrumento de favores, evidencia-se o velho vício do clientelismo que tanto atrasou o desenvolvimento político do país. É a política reduzida ao compadrio, à troca de benefícios e à proteção de interesses particulares.
Essa situação lembra a célebre frase de Rui Barbosa, que, indignado com os rumos da vida pública, escreveu:
“De tanto ver triunfar as nulidades, de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça, de tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar da virtude.”
A reflexão continua extremamente atual. Quando a sociedade passa a normalizar ou até a celebrar políticos desonestos, abre-se espaço para que a mediocridade e a corrupção se tornem rotina na vida pública.
Jeremoabo, como qualquer município brasileiro, precisa superar essa mentalidade. O orgulho do cidadão não deveria ser
, mas sim ter representantes honestos, competentes e comprometidos com o bem comum. A política só se fortalece quando o eleitor deixa de agir como torcedor de político e passa a agir como fiscal da democracia.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025).