Jaime, em primeiro lugar, meus parabéns. Seu argumento é poderoso. Cola com a direita, é claro, mas também é sedutor para pessoas de esquerda. É uma ideia apetitosa, que foi vocalizada por lideranças destacadas de diferentes espectros ideológicos nos últimos tempos.
Eu preciso confessar: eu mesmo já flertei com essa ideia. Hoje, entendo como ela desinforma e é perigosa. Mas ter simpatizado com essa visão em algum momento da vida universitária me fez escrever a você.
Eu acho sua opinião perigosa por várias razões, Jaime, e vou tentar expor algumas aqui. Mas há um motivo que, de longe, é o mais grave: essa ideia aceita como verdade a mentira central da Ditadura Militar — a de que a violência praticada pelos militares foi restrita, localizada, dirigida apenas a um grupo específico de “subversivos”.
Mas não, Jaime, não foi. A Ditadura não atingiu apenas universitários, como Alexandre Vannucchi Leme, torturado até a morte em 1973; jornalistas, como Vladimir Herzog, assassinado em 1975; ou políticos, como Rubens Paiva, detido em 1971 e cujo corpo nunca apareceu.
O que temos reportado no Intercept Brasil nos últimos anos é que os militares construíram um sistema de repressão que foi muito além disso. Foi um sistema que atravessou o país, que perdura até hoje e que escolheu alvos que não deixariam memória organizada.
É preciso que você saiba, Jaime, que a Ditadura não é algo encerrado. E não estou nem falando do 8 de Janeiro ou dos militares planejando matar um presidente eleito em pleno século 21. O regime deixou um legado que continua sendo letal. E essa letalidade tem como seu principal alvo a população negra e pobre.
Em 2024, por exemplo, nós mostramos como as forças especiais criadas na Ditadura — entre elas, os chamados “kids pretos” — estão na origem de estruturas das polícias militares como o Bope ou a Rota. Você sabe: o público-alvo dessa violência não é a classe média branca.
E você pode chamar essas informações de lacração. Mas é o trabalho sério e persistente de jornalistas experientes, com trajetórias respeitadas nos principais veículos do país: Sérgio Barbo, Gilberto Nascimento, Carlos Tautz, Tatiana Dias, André Uzêda e muitos outros.
E há também contribuições muito valiosas de não jornalistas. Em 2025, foi o historiador Lucas Pedretti quem publicou a reportagem “Fotografias inéditas mostram a face racista do regime”.
É uma matéria que revelou fichas produzidas pela repressão que enquadravam pessoas negras sob acusações como “vadiagem” — um instrumento clássico de controle social. Não eram militantes políticos organizados. Eram jovens pobres, negros, transformados em alvo pelo simples fato de existirem fora do padrão desejado pela Ditadura.
Também no ano passado, a mesma série de reportagens assinada por Pedretti veiculou o texto “Polícia jogou documentos de agentes da ditadura em sacos de lixo. Nós os abrimos”. As fichas encontradas não mostram apenas burocracia policial — elas ajudam a reconstruir quem eram os alvos reais da máquina repressiva.
E, de novo, Jaime, não são apenas os nomes que aparecem nos livros didáticos. Como você poderia descobrir visitando o Memorial da Resistência, em São Paulo, a Ditadura reprimiu fortemente o movimento operário: sindicatos sofreram intervenção estatal, lideranças foram presas e torturadas, a imprensa operária e sindical foi proibida.
Você também diz que camponeses e pobres “dificilmente tiveram qualquer coisa a ver”. Mas, segundo levantamento publicado em reportagem da Agência Pública, houve no mínimo 1,6 mil trabalhadores rurais mortos ou desaparecidos durante o regime. E, na realidade, o número deve ser bem superior a esse.
A sua afirmação de que a repressão na ditadura "é coisa de classe média estabelecida" também ignora que um dos principais grupos sociais perseguidos pelos militares foram os povos indígenas, que chegaram a ser presos e enviados a campos de concentração, como os Krenak.