O pré-candidato disse com orgulho que Bolsonaro era conhecido como “Trump dos trópicos”, comparou a facada à tentativa de assassinato de Trump e afirmou que sua condenação pelo atentado ao Estado Democrático de Direito era “similar à que foi feita contra Donald Trump por insurreição”.
Se tentava se demonstrar moderado, naquele discurso Flávio demonstrou aplaudir todos os temas caros à extrema direita americana abraçados pelo pai. Disse que Jair está preso “por defender nossos valores conservadores sem medo e por se opor ao sistema”, por lutar “contra a tirania da Covid”, contra cartéis de drogas, “contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias e, acima de tudo, ele lutou pela liberdade.”
Em contraste, se eleito, Flávio diz que “nós teremos, mais uma vez, um presidente que luta contra os interesses da elite global, contra a agenda ambiental radical, contra a agenda woke que destrói famílias, contra os cartéis de drogas e, acima de tudo, luta pela liberdade e pelos valores tradicionais. Um presidente que proclama sem medo que Jesus Cristo é o nosso Senhor.”
Assim, disse, “estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental."
Veja aí de novo a palavra Liberdade entrando no lugar da palavra “democracia”.
Há duas narrativas importantes de se depreender do discurso, que estão sendo forjadas a partir da direita norte-americana e que com certeza serão como motes de campanha pelas redes de desinformação.
Joe Biden teria “interferido” na eleição de 2022 através de financiamentos da Usaid (nunca houve comprovação de que esses financiamentos tiveram qualquer influência no resultado eleitoral).
Lula “defende” narco-terroristas do PCC e CV e o governo atual teria “impedido” sua designação como terroristas.
Eis o que disse Flávio: “De acordo com um artigo publicado ontem pelo New York Times, o presidente do meu país faz lobby nos Estados Unidos para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo, lavam dinheiro e exportam drogas e armas para os Estados Unidos e para o mundo”.
Mas o que Flávio quis com este discurso? Primeiro, entendo que o discurso, que apela fortemente a um nacionalismo da ultra-direita americana e até seus delírios conspiratórios, é possivelmente produto de consultores americanos, que entendem perfeitamente o público do CPAC. Bem escrito, sucinto, feito para se encaixar perfeitamente nos 15 minutos dedicados, ele foi decorado e treinado por Flávio Bolsonaro, que não é fluente em inglês, como demonstra este vídeo publicado pelo Congresso em Foco, no qual Eduardo traduz uma pergunta feita em inglês a Flávio.
Ou seja: houve treinamento e preparação, e foram feitos por profissionais.
Segundo, por mais que Flávio tenha dirigido o apelo a autoridades americanas, pedindo para fazerem “pressão diplomática”, a ladainha, que recorre ao conspiracionismo MAGA e leva em conta a completa falta de conhecimento deste público sobre o Brasil, foi bem elaborada para mobilizar os atendentes do CPAC. Se não fosse algo proibido pela Legislação Eleitoral, eu poderia até comparar o discurso com um “pitch” de investimento, em busca de atrair financiamento para um projeto de longo prazo – afinal, políticos, empresários, e financiadores de campanhas republicanas estavam na plateia.
Estamos ainda em março de 2026, mas esta já é a terceira viagem de Flávio aos EUA. O senador passou o réveillon em um evento organizado pelo pastor André Valadão em Orlando. Em janeiro, seguiu para o Texas e para Washington, onde tentou sem sucesso um encontro com o senador americano Marco Rubio, aliado de Donald Trump, além de ter se reunido com aliados de Eduardo, cujos nomes não foram revelados.
No dia 20 de janeiro de 2026, Flávio esteve em Israel em uma viagem com roteiro de acenos políticos e religiosos montado por Eduardo, buscando reforçar os laços com a direita internacional e adicionar um verniz religioso à sua pré-candidatura. Um dos episódios simbólicos dessa agenda foi uma videochamada feita do alto de uma colina próxima ao Mar da Galileia com parlamentares aliados, posteriormente publicada nas redes sociais. Já no dia 19 de fevereiro, o senador embarcou novamente para os Estados Unidos para cumprir compromissos com integrantes da equipe de Donald Trump, embora os nomes das autoridades com quem pretende se encontrar não tenham sido divulgados. Na sequência, Flávio seguiu para Nashville, no Tennessee, acompanhado de Eduardo Bolsonaro e do influenciador Paulo Figueiredo, onde participou de um evento promovido pela think tank conservadora PragerU e concedeu uma entrevista à CEO da organização, Marissa Streit.
Tudo isso indica uma coisa claramente: a campanha bolsonarista tem um forte QG nos EUA. O plano eleitoral de Flávio é apenas a continuação da campanha coordenada por Eduardo desde que se mudou para o país em março do ano passado.