Por José Montalvão
Muitas vezes lemos O Príncipe, de Nicolau Maquiavel, como uma obra de ficção ou um relato de um passado distante. Mas, ao observar a movimentação política em Brasília, a conclusão é amarga: a obra nunca foi tão atual. O problema é que preferimos enganar a nós mesmos a respeito da natureza dos nossos políticos, ignorando a máxima da "farinha pouca, meu pirão primeiro" que domina os corredores do poder.
O Teatro das Traições e a Realidade das Manchetes
Na semana passada, o Brasil parecia assistir ao fim de uma aliança. As manchetes estampavam o que muitos chamaram de "traição" de Davi Alcolumbre, que teria articulado a derrota da indicação de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF). O clima era de guerra: aliados do governo falavam "cobras e lagartos", e a promessa era de que o Presidente Lula cancelaria todas as nomeações indicadas pelo senador.
Para quem acredita em fidelidade partidária ou em ideais, o cenário era de ruptura. Mas, para quem observa o jogo sob a lente maquiavélica, era apenas o início de uma nova negociação.
A Decepção da "Trégua" e o Preço do Apoio
Hoje, quem esperava firmeza do Governo Federal acordou diante de um balde de água fria. A manchete do portal UOL não deixa dúvidas: "Alcolumbre emplaca diretor da Codevasf em meio a trégua com governo".
Após ser apontado como o algoz de uma das principais indicações do presidente, o senador foi "presenteado" com o controle de uma das principais diretorias da Codevasf, estatal estratégica ligada ao Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional. O que era traição, virou "reaproximação". O que era retaliação, virou "gesto de boa vontade".
Que País é Este?
Fica a sensação de um pesadelo após uma noite mal dormida. Enquanto o eleitor aqui na ponta briga, defende bandeiras e se desgasta, o topo da pirâmide política brilha no exterior e, internamente, divide o "pirão" conforme a conveniência do momento.
A política do toma lá, dá cá mostra que, no Brasil, o conceito de moralidade eleitoral é frequentemente relativizado em nome da governabilidade — ou da simples sobrevivência política. Se o presidente parece mais interessado em brilhar lá fora do que em apaziguar os ânimos de quem realmente vota, as consequências ficam para o povo, que se pergunta: em que país, afinal, estamos vivendo?
A lição que fica é dura: na política das cúpulas, não existem traições permanentes, apenas interesses que ainda não foram precificados.
Blog de Dede Montalvão: Analisando o jogo do poder com os pés no chão e os olhos na verdade.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025