sexta-feira, maio 08, 2026

Investigadores acusam Vorcaro de poupar aliados em delação esvaziada


Sobre Ciro Nogueira havia apenas informações genéricas

Malu Gaspar
Rafael Moraes Moura
O Globo

Os investigadores do caso Master já formaram sua opinião sobre a proposta de delação de Daniel Vorcaro. Além de considerarem que a lista de revelações que ele se propõe a fazer é ruim e insuficiente, eles avaliam que Vorcaro está “escolhendo alvos” para entregar enquanto protege algumas pessoas — como o senador Ciro Nogueira (PP-PI), que sofreu busca e apreensão da Polícia Federal por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro nesta quinta-feira (7).

Na interpretação da equipe que está mergulhada nos anexos de Vorcaro, as escolhas de quem poupar e quem entregar revelam que o banqueiro ainda tem esperança de que a rede de influência que ele formou comprando políticos e autoridades possa fornecer a ele alguma saída alternativa à delação.

OMISSÃO – Na proposta entregue no início da semana, Vorcaro omitiu as informações usadas pela PF na representação que baseou a decisão do ministro André Mendonça – como a mesada de até R$ 500 mil paga ao senador Ciro Nogueira em troca da aprovação de matérias de interesse do banqueiro no Congresso.

No capítulo a respeito do senador do PP, havia apenas informações genéricas que os investigadores interpretaram como positivas, e que por isso ganharam o apelido interno de “a beatificação de Ciro”. A ausência de informações e provas que a PF já tem a respeito de outras autoridades que tiveram envolvimento flagrante com o banco e seu esquema também chama a atenção no conteúdo dos dois pen drives entregues pelos defensores aos delegados e procuradores no início da semana.

SEM NOVOS ELEMENTOS – A proposta de Vorcaro não esclarece suas conexões no meio político e jurídico e não traz novos elementos sobre personagens-chave do caso. Nesse rol, além de Ciro Nogueira – que, segundo a PF, “instrumentalizou o exercício do mandato parlamentar em favor dos interesses privados” do dono do Master – estariam também os ministros Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), e Jhonatan de Jesus, do Tribunal de Contas da União (TCU), que chegou a ameaçar reverter a decisão do Banco Central que decretou a liquidação do Master.

Para os investigadores, a proposta de Vorcaro equivale a uma peça de defesa e não a uma colaboração, e para conseguir fechar um acordo ele vai ter que falar muito mais. No dia em que foi preso pela primeira vez pela Polícia Federal, em 17 de novembro do ano passado, Vorcaro trocou mensagens com Moraes

“Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?”, questionou o banqueiro a Moraes cinco horas antes de ser detido pela Polícia Federal no aeroporto internacional de Guarulhos, quando tentava embarcar para Dubai, com escala em Malta.

CONTRATO MILIONÁRIO – Vorcaro também fechou um contrato com a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, que previa o pagamento de R$ 3,6 milhões mensais ao longo de três anos para defender os interesses do Master perante uma série de órgãos, como a Receita Federal, o Banco Central, o Cade e a Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional – em todos eles, a atuação de Viviane é desconhecida.

O material apresentado por Vorcaro, no entanto, não traz novos elementos nem aprofunda sobre essas relações. “Sempre que alguém delata ministro do STF, as coisas desandam”, diz uma fonte que acompanha de perto os bastidores da negociação, em referência a delações como a do ex-governador do Rio Sérgio Cabral, que mencionava suposto pagamento de R$ 4 milhões a Dias Toffoli em troca de venda de sentenças judiciais.

O acordo acabou anulado em 2021 pelo próprio Supremo – com o voto do próprio Toffoli, que agora corre o risco de ser citado em outra delação, a de Vorcaro. Antes do início das tratativas, a defesa de Vorcaro havia indicado que o banqueiro faria uma delação séria e completa, sem poupar ninguém. Até aqui, ficou só na promessa mesmo.

“NINGUÉM SAI” – Em conversa com a sua então namorada, a influenciadora Martha Graeff, obtida pela Polícia Federal, Vorcaro escreveu: “Esse negócio de banco sempre falei que é igual máfia. Não dá pra sair. Ninguém sai. Bem não sai. Só sai mal”.

A mensagem, de 7 de abril de 2025, veio num momento em que Vorcaro tentava garantir a aprovação pelo Banco Central da compra do Master pelo BRB, que acabaria sendo vetada pela autoridade monetária em setembro. Pelo visto, o banqueiro ainda acredita que pode sair bem de toda essa história.

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