terça-feira, maio 05, 2026

Crédito fácil, dívida difícil: o custo invisível da inclusão financeira precoce

Publicado em 5 de maio de 2026 por Tribuna da Internet

Charge do Cazo (Blog do AFTM)

Pedro do Coutto

O Brasil atravessa um momento em que a ampliação do acesso ao sistema financeiro convive com um aumento preocupante da inadimplência, especialmente entre os mais jovens.

Nos últimos anos, abrir uma conta bancária deixou de ser um processo burocrático para se tornar uma experiência rápida, digital e, muitas vezes, estimulada por interfaces amigáveis e campanhas publicitárias direcionadas.

ALERTA – Reportagem de O Globo mostra que o acesso ao crédito entre jovens praticamente dobrou, acendendo um alerta sobre o crescimento do endividamento precoce. Esse fenômeno ajuda a explicar, em parte, por que o país acumula milhões de consumidores com dívidas em atraso, muitos deles iniciando sua vida financeira já em situação de vulnerabilidade.

A facilidade de obtenção de cartões de crédito, limites pré-aprovados e acesso ao cheque especial cria a impressão de que o crédito é uma extensão natural da renda, quando, na verdade, representa uma antecipação que cobra seu preço no futuro. O problema não está apenas no instrumento, mas na forma como ele é ofertado e consumido.

Bancos e fintechs intensificaram estratégias de captação de clientes jovens, utilizando linguagem acessível, benefícios imediatos e promessas de autonomia financeira. No entanto, esse movimento não foi acompanhado, na mesma proporção, por políticas consistentes de educação financeira.

DESCOMPASSO – Jovens que ainda não possuem renda estável ou experiência com planejamento financeiro passam a assumir compromissos que exigem disciplina e previsibilidade — exatamente o que ainda estão construindo. Esse descompasso entre acesso e preparo cria um ambiente propício ao endividamento.

O uso recorrente do crédito rotativo, os parcelamentos sucessivos e o recurso frequente ao cheque especial acabam formando uma bola de neve difícil de controlar. A publicidade, nesse contexto, desempenha um papel relevante ao reforçar o consumo imediato como forma de satisfação, sem destacar com igual intensidade os custos envolvidos. O resultado é uma geração que aprende a consumir antes de aprender a gerir, invertendo uma lógica que deveria ser básica em qualquer sistema financeiro saudável.

MECANISMOS DE PROTEÇÃO – É importante reconhecer que o crédito é um instrumento essencial para a economia e para a inclusão social. Ele permite acesso a bens, serviços e oportunidades que, de outra forma, estariam fora do alcance de grande parte da população. O problema surge quando a expansão do crédito ocorre sem mecanismos adequados de proteção e orientação.

A inclusão financeira, quando mal calibrada, pode se transformar em inclusão no endividamento. E esse é um risco que se materializa de forma mais intensa entre os jovens, justamente por estarem em fase de construção de hábitos e de estabilidade econômica.

Diante desse cenário, o debate precisa ir além da dicotomia entre liberar ou restringir crédito. O ponto central está em como esse crédito é oferecido. Transparência nas condições, limites mais responsáveis para novos usuários e, sobretudo, investimento em educação financeira são medidas fundamentais para equilibrar o sistema.

INADIMPLÊNCIA – Sem isso, o país continuará ampliando o acesso ao crédito ao mesmo tempo em que amplia o contingente de inadimplentes, criando um ciclo que fragiliza tanto as famílias quanto a própria economia.

O desafio não é impedir que os jovens tenham acesso ao sistema financeiro, mas garantir que esse acesso não se transforme em um atalho para a dívida. O crédito pode ser uma ferramenta de emancipação econômica, mas, sem preparo e responsabilidade, torna-se um dos caminhos mais rápidos para a perda dessa autonomia.

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