Acordava por volta das 7h da matina com duas batidas na porta do quarto seguidas da voz apressada da minha mãe anunciando: “tô indo”. Não a via sair, muito menos chegar. Ela passava o dia inteiro no trabalho, voltava exausta, com dores no corpo acentuadas por problemas de saúde e, às 21h, dormia para aguentar a labuta do amanhã. Eu fazia cursinho pré-vestibular à noite e permaneci com aulas noturnas ao ingressar na universidade. Quando retornava, normalmente as luzes do quarto de dona Merian já estavam apagadas. Um período em que moramos juntos e, ao mesmo tempo, sozinhos.
Quando abordo a escala 6x1, a primeira lembrança à mente não é da rotina cansativa, mas dos domingos deixados para trás. Vai além de questões religiosas que transformaram o dia num momento sagrado. Afinal, reforçam os cristãos, se até Jesus descansou, você também merece (em teoria, pelo menos).
O café da manhã era em conjunto, o almoço preparado a quatro mãos, as conversas nem tão prolongadas, mas na convivência habitava um tom singular. Numa pequena cozinha ficávamos três ou quatro horas tentando compensar o que a semana inteira nos tirou. Silêncio, diálogos, debates sobre o futuro: tudo concentrado numa mesa com quatro cadeiras e dois personagens comuns: mãe e filho usufruindo e compartilhando a luz do dia que cruzava as janelas.
Entristece - embora não assuste - acompanhar a dificuldade do Congresso Nacional em cravar consenso para reduzir um, apenas um dia na jornada de trabalho. Não só confronta a ciência e a história humana, que há tempos revelam os efeitos positivos de uma vida com qualidade; mas, sobretudo, mostra como nem de longe o parlamento reflete o dia a dia comum. Do contrário, a empatia predominaria.
Em duas apurações de mais de dois meses, revelamos na Agência Pública que os 513 parlamentares somaram 13.813 ausências a sessões no plenário desde 2023. E não trato aqui de sessões diárias de segunda à sábado; são eventos ocorridos majoritariamente às terças e quartas, dois dias na semana.
Em meio ao vai e vem de líderes discutindo muito ameaças de demissões e prejuízos ao mercado - nunca a ideia de diminuição de lucros estrondosos -, deputados federais que protocolaram atestado médico vão, no período de licença, a jogos no Maracanã, palestras, eventos religiosos e até coquetéis de inauguração sem sequer justificarem a incoerência dos fatos.
Sem chefes e ponto eletrônico. Assim decidem o clima de domingo de parte das famílias brasileiras. No topo do cálculo em prancheta aparece de tudo: queda em produção, caos econômico, desemprego, ostracismo, balbúrdia. Só depois soma-se um dia a mais de afago em família nesse tempo efêmero.
Cinco dias após o Dia das Mães, a minha mãe celebrará 61 anos. Fisicamente estaremos distantes, mas provavelmente dedicaremos um bom tempo ao telefone conversando de tudo um pouco - da política brasileira ao cachorro do vizinho viciado em latir antes da madrugada desaparecer. Hoje, esse tempo é privilégio. Mas não deveria ter demorado tanto. A juventude não retorna e o passado faz jus ao nome. O parlamento agora tem a força de conceder lembranças mais amplas e amorosas a quem ainda tem o dia em família como a grande exceção da semana.
Para que esse cenário mude, o primeiro passo é expor as engrenagens que o sustentam. Na Agência Pública, seguimos dedicando meses de investigação para confrontar as contradições e estratégias de poderosos. Não temos grandes grupos econômicos por trás de nós; nossa independência é financiada por quem, como você, acredita que o tempo não pode ser um artigo de luxo. Apoie o nosso jornalismo e nos ajude a continuar fiscalizando o poder para que o amanhã seja menos sobre lucro e mais sobre vida.
| Um abraço,
Dyepeson Martins Repórter da Agência Pública |
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