Armas econômicas contra a Venezuela
As sanções contra o país latino-americano fazem parte de uma estratégia mais ampla de ordenamento global, sobretudo na contestação do modo como os países do Sul Global gerenciam seus recursos, de acordo com o historiador Greg Grandin. O apoio ao golpe contra Hugo Chávez, em 2002, as sanções seletivas durante os governos de Barack Obama e o cerco diplomático permanente desde o primeiro governo Trump fazem parte dessa trajetória.
No entanto, é inegável que há uma radicalização neste segundo mandato de Trump. Ele impôs sanções econômicas máximas, ameaçou abertamente uma intervenção militar (ao dizer que “todas as opções estão sobre a mesa”), sequestrou o então presidente do país, Nicolás Maduro, com base em leis domésticas, e normalizou a ideia de que os Estados Unidos poderiam “administrar” a Venezuela.
Se administrações anteriores relativizavam a soberania sob o pretexto de intervenção humanitária, o segundo mandato de Trump marca a inflexão definitiva: a soberania alheia passa a ser explicitamente negada em favor de uma gestão abertamente colonial.
O exemplo mais eloquente dessa nova etapa foi a apreensão de ativos venezuelanos no exterior, incluindo petróleo e ouro. O caso do ouro venezuelano retido desde 2020 no Banco da Inglaterra – avaliado à época em cerca de 1,4 bilhão de libras – é particularmente revelador e ajuda a contextualizar uma ironia recente.
Em Davos, Mark Carney – ex-governador do Banco da Inglaterra e atual primeiro-ministro do Canadá – afirmou que a disputa em torno da Groenlândia (da qual Trump faz parte) simboliza o fim da ordem internacional liberal. Ele tem razão. Mas é impossível ignorar que foi sob sua liderança que o Banco da Inglaterra, em 2020, participou ativamente da expropriação do ouro venezuelano, contribuindo diretamente para corroer os próprios princípios de soberania e igualdade jurídica que hoje lamenta ver desaparecer.
Ponto de inflexão: Irã é atacado mesmo após concordar com redução dos estoques de urânio enriquecido
A ofensiva contra o Irã, iniciada em 28 de fevereiro, é outro ponto de inflexão na conduta do presidente norte-americano em seu segundo mandato. O ataque deixa claro que, sob Trump, a diplomacia não é um meio para evitar o conflito, mas um simulacro para facilitar a agressão.
Apenas um dia antes do início das hostilidades, o ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Al Busaidi, anunciou um avanço histórico: o Irã havia concordado, em negociações mediadas por Mascate, em reduzir seus estoques de urânio enriquecido ao nível zero e aceitar verificação total da Agência Internacional de Energia Atômica. O acordo garantia que o Irã nunca possuiria material para uma bomba.
Contudo, o governo Trump e Israel já haviam selado o plano de ataque uma semana antes, segundo reportagem do site Axios; a diplomacia final serviu apenas como um estratagema para baixar as defesas iranianas. Essa agressividade não deve ser lida como uma exclusividade da era Trump.
Imperialismo fóssil e a fragmentação da América Latina
Há ainda um elemento particularmente grave – e muitas vezes subestimado – nesse cenário: a fragmentação da América Latina e da capacidade de resposta coletiva diante da escalada coercitiva dos Estados Unidos. E isso não é apenas um efeito colateral da política de Trump, mas sim um ativo estratégico para Washington.
A resposta brasileira tem sido cautelosa e marcada por um bilateralismo defensivo, orientado sobretudo à tentativa de resolver disputas comerciais e diplomáticas diretamente com os Estados Unidos. Essa postura, embora compreensível do ponto de vista tático imediato, opera exatamente nos termos preferidos por Trump. Ao negociar bilateralmente com uma potência que rejeita soluções multilaterais, o Brasil abdica de instrumentos coletivos de barganha e reforça a assimetria estrutural da relação.
Ao concentrar esforços na proteção de seus próprios interesses imediatos, o Brasil contribui, ainda que involuntariamente, para o isolamento da Venezuela e para a ausência de uma resposta regional coordenada frente às sanções, ameaças e violações de soberania.
Esse processo corrói a ideia de soberania regional compartilhada. A defesa da autonomia deixa de ser um projeto coletivo e passa a ser tratada como um problema individual de cada país — exatamente o cenário ideal para uma potência que opera segundo a lógica da divisão, da pressão seletiva e da punição exemplar.
O resultado é a normalização de uma hierarquia informal, na qual países são disciplinados um a um. Nesse sentido, a escolha pelo ataque armado ao Irã, em detrimento do avanço diplomático que estava sendo construído, serve de alerta à região.
A combinação de sanções máximas e ameaças abertas contra a Venezuela, agora validadas pelo precedente do ataque unilateral ao Irã, cria um ambiente propício à militarização das fronteiras e à instabilidade. O Brasil não é um observador neutro; a possibilidade de ser arrastado para uma dinâmica de instabilidade regional – seja por pressões diplomáticas ou crises fabricadas externamente – é real.
Narcotráfico e terrorismo: O novo pretexto para intervenção militar
No começo de março, os Estados Unidos e o Equador realizaram uma operação militar conjunta contra “organizações designadas terroristas” no país latino-americano. No X, um órgão militar americano afirmou que as operações “são um exemplo poderoso do compromisso de parceiros na América Latina e no Caribe para combater o flagelo do narcoterrorismo”.
Semanas depois, uma investigação do New York Times revelou que o alvo da operação – um suposto campo de treinamento de uma organização de tráfico de drogas – era, na verdade, uma fazenda de laticínios, cujos moradores foram brutalizados por soldados equatorianos agindo com base em inteligência do exército americano. Tal medida abre um precedente em que forças americanas participam de operação terrestre na América Latina sob falsos pretextos, e representa uma escalada em relação aos ataques aéreos contra barcos civis no Pacífico Oriental e no Caribe.
A intenção de Trump de classificar o PCC e o Comando Vermelho como organizações terroristas, em manifestações ocorridas em meados de março deste ano, deve ser vista nesse contexto.
A consolidação de um regime de exceção permanente sobre a Venezuela estabelece um precedente. Uma vez naturalizada a suspensão da soberania de um país em nome de interesses estratégicos externos, outros se tornam vulneráveis ao mesmo tipo de pressão.
Em meados de março, foi revelado que procuradores especializados em tráfico internacional de narcóticos, além de agentes da Drug Enforcement Administration e da Homeland Security Investigations estariam investigando o presidente colombiano Gustavo Petro. Além disso, a lógica do imperialismo fóssil transforma a região em uma potencial zona de sacrifício, pressionando a abertura de terras indígenas, a flexibilização ambiental e a intensificação de conflitos socioambientais.
O Brasil não deve adotar o confronto aberto ou a submissão silenciosa, mas a reconstrução de uma autonomia inteligente, ancorada na recomposição da cooperação regional, na diversificação de parcerias e no fortalecimento de instrumentos coletivos de defesa diplomática e jurídica.
Sem isso, o custo da fragmentação e submissão será pago não apenas em termos geopolíticos, mas também sociais, ambientais e democráticos. Qualquer tipo de ilusão liberal ruiu frente ao segundo mandato de Trump.