
Alcolumbre pediu a Lula blindagem contra delação de Vorcaro
Malu Gaspar
Rafael Moraes Moura
O Globo
Duas semanas antes da votação no Senado que rejeitou Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF), o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), se queixou a Lula de estar sendo perseguido pela Polícia Federal (PF), que toca diferentes inquéritos relacionados a ele e aliados, e pediu ao presidente que o ajudasse a se blindar do que chamou de “injustiças”. A maior delas, na visão de Alcolumbre, seria a delação do executivo Daniel Vorcaro, que entregou nesta quarta-feira (6) a sua proposta para análise dos investigadores.
Na conversa, que ocorreu nos bastidores da posse do novo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, responsável pela articulação política do governo, Alcolumbre disse que a delação de Vorcaro viria com “muitas mentiras e injustiças” sobre ele e apelou a Lula para que o ajudasse a ficar de fora.
ALEGAÇÃO – De acordo com o relato que fez a aliados, Lula respondeu que não tem como segurar o delegado da PF, o Ministério Público Federal (MPF) e muito menos o Supremo. E alegou que o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, tem agido com responsabilidade para evitar injustiças, repetindo o termo usado pelo presidente do Senado.
Dias depois, quando Alcolumbre comandou a articulação que levou à derrota histórica do governo na votação do nome de Messias no plenário, o círculo próximo do presidente no Palácio do Planalto atribuiu o movimento a um revide, uma vez que o presidente do Senado estaria monitorando de perto não só os bastidores da delação de Vorcaro mas também de outras investigações que podem chegar a ele, como a dos desvios do INSS e a dos investimentos de R$ 400 milhões do fundo de pensão do Amapá em letras financeiras do Master.
Interlocutores do senador, por sua vez, reconhecem que ele está muito preocupado com o andamento das investigações do INSS e do Master e se julga perseguido pelo governo, mas afirmam que a rejeição de Messias no plenário não tem relação direta com a pretensão de Alcolumbre em conseguir uma blindagem junto a Lula. O maior revés legislativo de Lula neste terceiro mandato seria decorrência do fato de Messias ser rejeitado por uma Casa que tinha um candidato próprio – o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), preterido por Lula.
COM MEDO – “Alcolumbre sabe o tamanho da bronca em que se meteu”, disse um interlocutor do presidente do Senado ouvido reservadamente. “Ele é tão vingativo quanto o Lula e não dá pra saber onde isso vai parar. Mas o fato é que o Davi está com medo.”
Alcolumbre afirmou por meio de sua assessoria de imprensa que “jamais tratou do Banco Master” com o presidente Lula e “muito menos fez qualquer queixa ou alegação nesse sentido”. Em nota, a assessoria disse que “embora tentem, de forma recorrente, associá-lo ao assunto, Davi Alcolumbre não possui qualquer relação com o Banco Master e não é investigado, citado ou arrolado, sob nenhuma forma, em qualquer apuração relacionada ao caso”.
AUTODEFESA – Não faltam movimentos que expõem o temor de Alcolumbre com o avanço dos casos Master e INSS. No ano passado, sua gestão decretou sigilo de 100 anos sobre registros de entrada e saída do lobista conhecido como Careca do INSS, acusado pela Polícia Federal de comandar o esquema bilionário de descontos indevidos das aposentadorias. O Senado também se recusou a informar os registros de entrada de Vorcaro na Casa, em resposta a um pedido formulado pelo blog via Lei de Acesso à Informação.
Em outras duas manobras de autodefesa, Alcolumbre se recusou a prorrogar a CPI do INSS – e ainda decidiu arquivar o requerimento de instalação da CPI do Banco Master, impedindo a abertura de uma nova frente de investigação em pleno ano eleitoral.
As duas investigações, que apavoram não só ele mas toda a cúpula do Congresso, estão no STF sob a relatoria do ministro André Mendonça, um dos principais cabos eleitorais da fracassada campanha de Messias ao STF.
AVANÇO DOS INQUÉRITOS – O entorno de Alcolumbre também está em pânico com o avanço dos inquéritos. Um dos maiores aliados de Alcolumbre na Casa é o senador Weverton Rocha (PDT-MA), relator da indicação de Messias, que já entrou na mira da PF. Em dezembro do ano passado, Weverton foi alvo de uma operação de busca e apreensão em uma fase da Operação Sem Desconto, que investiga o esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS.
Na véspera da votação de Messias, Weverton garantiu a integrantes do governo Lula que o chefe da AGU teria, pelo menos, 45 votos necessários para ser aprovado, quatro a mais do que o mínimo exigido pela Constituição – 41 votos. Messias acabou tendo apenas 34 votos “sim”.
ÍNTEGRA DA NOTA ENCAMINHADA PELA ASSESSORIA DE ALCOLUMBRE:
“Não é verdade. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, jamais tratou do Banco Master com o presidente Lula e muito menos fez qualquer queixa ou alegação nesse sentido.
O presidente está cansado de conversas de “ouvir dizer”, baseadas em ilações e relatos sem qualquer comprovação. Embora tentem, de forma recorrente, associá-lo ao assunto, Davi Alcolumbre não possui qualquer relação com o Banco Master e não é investigado, citado ou arrolado, sob nenhuma forma, em qualquer apuração relacionada ao caso.
É irresponsável transformar interpretações subjetivas e rumores de bastidores em fatos jornalísticos sem qualquer elemento concreto que sustente essa narrativa.
Assessoria de Imprensa da Presidência do Senado”