segunda-feira, março 16, 2026

Há 50 anos, prisões de jornalistas mobilizaram a ABI contra a ditadura

 

Há 50 anos, prisões de jornalistas mobilizaram a ABI contra a ditadura


14/03/2026


Por Geraldo Cantarino

No início de 1976, há exatos 50 anos, o clima nas redações brasileiras era de intranquilidade e apreensão. Sucessivas prisões de jornalistas aumentavam a insegurança na categoria. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Prudente de Moraes, Neto, chegou a enviar um telegrama ao então ministro da Justiça, Armando Falcão, manifestando preocupação com a situação. E depois participou de várias audiências em Brasília com dirigentes do Congresso, do Judiciário, e com o próprio Falcão.

Apesar do discurso de abertura política do governo Ernesto Geisel, o contexto permanecia bastante tenso. Ainda era forte a repercussão do assassinato sob tortura do jornalista Vladimir Herzog, em 25 de outubro de 1975, pouco mais de quatro meses antes, no DOI-Codi, em São Paulo. Mais recente ainda era a morte sob tortura do operário metalúrgico Manoel Fiel Filho, em 17 de janeiro de 1976, episódio que levou à exoneração do general Ednardo D’Ávila Mello do comando do 2º Exército, em São Paulo.

 Maurício Azedo

 Luiz Paulo Machado

Em março de 1976, em meio à investida da repressão contra membros do Partido Comunista Brasileiro (PCB), duas prisões causaram grande preocupação nas redações e tiveram a ABI como alvo direto: a do fotógrafo de O Globo, Luiz Paulo Santana Machado, e a do redator da Editora Abril, Maurício Azêdo. Ambos eram associados da entidade e integravam a coordenação do Cineclube Macunaíma — que contava ainda com mais dois jornalistas, Fichel Davit Chargel e Ancelmo Gois. Além de conselheiro e membro da Comissão de Liberdade de Imprensa, Azêdo era também o principal editor do Boletim ABI e viria a ser presidente da entidade de 2004 a 2013.

 Ancelmo Góis

Luiz Paulo e Azêdo foram presos e torturados sob acusação de envolvimento em atividades subversivas do PCB no Rio de Janeiro. Alegava-se, inclusive, que seriam responsáveis pela criação de uma base do partido na própria ABI. As detenções foram noticiadas pela imprensa, em jornais como O GloboJornal do Brasil e O Estado de S. Paulo, além de ganhar destaque na coluna “Jornal dos Jornais”, do jornalista Alberto Dines, na Folha de S.Paulo.

Agentes do Departamento de Polícia Política e Social (DPPS) prenderam Luiz Paulo quando ele se dirigia para casa após o trabalho e revistaram sua residência, em Laranjeiras. A família do fotógrafo (que era casado com a jornalista Elane Maciel) contratou o advogado Humberto Jansen para acompanhar o caso. Na defesa de Azêdo atuaram os advogados Alcyone Pinto Barreto e Augusto Sussekind de Moraes Rego.

A denúncia que seguiu para a 1ª Auditoria do Exército também incluiu Ancelmo Gois e o jornalista e publicitário Anderson Campos (também associado da ABI), representados pelos advogados Antônio Modesto da Silveira e Evaristo de Moraes Filho, respectivamente. Durante todo o processo, desde o momento da prisão dos jornalistas, a ABI esteve empenhada em acompanhar o caso. O presidente da entidade, Prudente de Moraes, Neto, manteve contatos com o Comando do 1º Exército, divulgou informações da Secretaria de Segurança Pública (SSP), e emitiu notas manifestando preocupação com as detenções e reivindicou a observância dos preceitos legais de detenção e prisão, sobretudo quanto ao tratamento dispensado aos detidos ou presos. Os quatro jornalistas foram absolvidos pela Justiça Militar em 24 de maio de 1978, dois anos depois.

Para o presidente da ABI, Octávio Costa, relembrar as prisões de jornalistas em 1976 é uma oportunidade de resgatar a memória e a verdade. “É bom não esquecer que nosso país viveu esses momentos de repressão, autoritarismo e tortura praticada pelo Estado. Ditadura nunca mais!”

https://www.abi.org.br/ha-50-anos-prisoes-de-jornalistas-mobilizaram-a-abi-contra-a-ditadura/


Nota da Redação Deste Blog - Memória contra o Esquecimento: Os 50 Anos da Caça aos Jornalistas e a Herança Maldita do Autoritarismo


Por José Montalvão


A história não é apenas um registro do passado; é um tribunal que julga o presente. Ao completarmos, em 2026, exatamente 50 anos dos sombrios episódios de 1976, o Brasil se depara com um espelho incômodo. Relembrar o clima de terror que assolou as redações brasileiras meio século atrás não é apenas um exercício de saudosismo, mas um grito de alerta contra os "filhotes da ditadura" que, ainda hoje, tentam usar o poder e o cargo para amordaçar a imprensa e ocultar seus desmandos.

No início de 1976, o ar era irrespirável. Prisões sucessivas de jornalistas criaram um rastro de insegurança e medo. Naquela época, o presidente da Associação Brasileira de Imprensa (ABI), Prudente de Moraes Neto, precisou ir a Brasília, batendo às portas de ministros e tribunais para tentar garantir o básico: a integridade física de profissionais cujo único "crime" era informar.


A Tática da Mordaça: Ontem e Hoje

O abuso de poder tem um DNA que se repete. Na ditadura, usava-se o AI-5 e o porão; hoje, os métodos podem ser mais sofisticados — como o uso mesquinho de processos judiciais em massa e o cerceamento financeiro —, mas o objetivo é o mesmo: o silêncio.

  • 1976: Jornalistas eram presos para que as atrocidades do Estado permanecessem acobertadas pela impunidade.

  • 2026: Comunicadores independentes e blogueiros são perseguidos para que desvios administrativos e corrupção local não venham à tona.

Como bem afirmou o atual presidente da ABI, Octávio Costa, resgatar essa memória é uma oportunidade de restabelecer a verdade. O país viveu tempos de tortura praticada pelo Estado, e permitir que o espírito autoritário sobreviva em gabinetes modernos é um atentado de morte à democracia.


A Impunidade como Combustível do Desmando

Os "filhotes da ditadura" — aqueles que herdaram o desprezo pela liberdade alheia — acreditam que o cargo que ocupam é um escudo para cometer todo tipo de atrocidade. Eles se sentem confortáveis na sombra da impunidade, onde podem perseguir quem denuncia e perseguir quem ousa pensar diferente.

A mordaça imposta à imprensa é a primeira etapa do desmoronamento democrático. Quando um jornalista é calado, o cidadão comum perde a sua voz e a sua defesa. A história nos ensina que o silêncio da sociedade é o que permite que o monstro do autoritarismo cresça.


Ditadura Nunca Mais: O Dever da Indignação

Não podemos permitir que a capacidade de indignação do povo brasileiro seja anestesiada. O abuso do cargo para perseguir a imprensa é uma violação gravíssima que deve ser julgada com rigor. Relembrar 1976 é dizer aos atuais "pequenos ditadores" que a história os observa e que a justiça, embora por vezes lenta, não ignora os passos da tirania.

O Blog do Montalvão, como herdeiro dessa luta por uma comunicação livre e independente, reafirma seu compromisso: a mordaça não nos serve. Honramos a memória daqueles que foram presos e torturados para que hoje tivéssemos o direito de escrever.

A liberdade de expressão não é um presente do poder; é um direito conquistado com suor e sangue. E nós não abriremos mão dele.


Blog do Montalvão: Onde a memória é viva e a mordaça não tem vez.

José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025)

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