Fundo virou pó, documentos sumiram e informações falsas: o que a PF apurou sobre fraudes do Master
Inquérito diz que crise do banco foi ‘consequência previsível e pré-concebida de gestão voltada à transferência fraudulenta de capital’; defesa não se manifestou
Por Aguirre Talento/Estadão
12/03/2026 às 17:30
Atualizado em 12/03/2026 às 18:09
Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil/Arquivo
Banco Master
O inquérito da Polícia Federal sobre os crimes financeiros do Banco Master, sob apuração na segunda fase da Operação Compliance Zero, já identificou o caminho das fraudes financeiras com o objetivo de desviar recursos para o patrimônio pessoal de Daniel Vorcaro e constatou que a crise de liquidez do banco foi uma “consequência previsível e pré-concebida de uma gestão voltada à transferência fraudulenta de capital”.
Essa é uma das linhas de investigação da PF sobre o Master. Também já há dois inquéritos em curso envolvendo irregularidades na relação da instituição com o Banco Regional de Brasília (BRB) e uma linha de apuração sobre a contratação de influenciadores para atacar autoridades.
Vorcaro foi preso na semana passada por decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF)André Mendonça, relator dos casos. Procurada, a defesa do banqueiro não se manifestou.
A estratégia financeira fraudulenta identificada pela PF envolveu a captação de recursos por meio da emissão de Certificados de Depósitos Bancários (CDBs) com remuneração acima da média do mercado e a alocação desses recursos em fundos de investimentos ou empresas supervalorizados artificialmente. Ao fim de camadas de diversas transferências, os valores chegavam a empresas ou fundos ligados a Vorcaro, aliados e familiares.
“O exame dos FIDCs (Fundo de investimento em direitos creditórios) revelou um padrão alarmante, qual seja, empresas cedentes de direitos creditórios com capital social ínfimo (muitas vezes inferior a R$ 100 mil) emitiam dívidas que somavam centenas de milhões de reais, as quais eram integralmente adquiridas pelos fundos do Banco Master”, apontou a investigação da PF.
Prejuízo de 99%: fundos que viraram pó
Entre as fraudes apontadas pela investigação, cujos detalhes foram obtidos pelo jornal O Estado de São Paulo, está o lançamento de um Fundo de Investimento em Direitos Creditórios que teve prejuízo de 99% e “virou pó”, com desvio dos recursos captados para o Master, e a ausência de documentos de movimentações financeiras de um outro fundo, que impediram a realização de um relatório de auditoria independente.
Um dos casos sob suspeita envolveu o MN I Fundo de Investimento em Direitos Creditórios. De acordo com a PF, as empresas que cederam os créditos ao fundo têm capital social inferior a R$ 100 mil e vínculos societários a uma empresa da família de Vorcaro.
Chamou a atenção dos investigadores que o relatório de auditores independentes sobre a demonstração financeira desse fundo registrou que um montante de R$ 275 milhões de aplicações feitas pelo fundo - correspondente a 63,72% do seu patrimônio líquido - não tinha documentação para comprovar os repasses.
“A abstenção de opinião emitida pelo auditor independente sobre as demonstrações contábeis do fundo constitui um indicativo de gravidade excepcional, pois revela que não foi possível obter evidências suficientes e apropriadas para sustentar qualquer conclusão acerca da fidedignidade das informações apresentadas”, afirmou a investigação.
Um outro caso, do FIDC Alvarinho, também foi considerado grave pela investigação. Segundo a PF, o principal cotista era o Banco Master, enquanto os créditos do fundo foram cedidos por uma empresa do sobrinho de um dos sócios do banco.
Para a PF, tratava-se de uma operação para a “possível transferência de recursos do banco via estrutura de fundos de investimentos aos diretores principais do banco, relevante indício de gestão fraudulenta”.
O fundo publicou uma notícia relevante, em agosto de 2025, na qual informou que seu patrimônio líquido teve perda de 99,45% - ou seja, os recursos aplicados na empresa do sobrinho do dono do Master foram praticamente consumidos em sua totalidade.
“Em outras palavras, a empresa cedente, com laços societários com o Banco Master, recebeu recursos pela cessão de créditos possivelmente sem capacidade de recuperação, enquanto o fundo - lastreado em recursos captados do mercado via emissão de CDBs - foi integralmente consumido, transformando-se no jargão do mercado financeiro em um fundo que ‘virou pó’”, diz a PF.
Informações incorretas ao BC
A PF também descobriu que o banco de Vorcaro entregou informações falsas ao BC não apenas envolvendo suas transações com o BRB - que é objeto da primeira fase da Compliance Zero.
O Master, além disso, também é acusado de fornecer dados incorretos para fraudar seu Índice de Basileia - indicador que mede a saúde financeira da instituição.
“O Master entregou informações incorretas ao Banco Central no seu Demonstrativo de Limites Operacionais de dezembro de 2023, ao atribuir um fator de exposição de risco de 0% para ativos com problemas.
“Essa irregularidade permitiu à instituição realizar um volume significativo de operações sem a devida alocação de capital, com o fim de mascarar a situação de não enquadramento nos limites regulamentares de capital, pois o índice de Basileia cairia de 11,52% para 9,12%, abaixo do mínimo exigido de 10,50%”, diz a PF.
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