sábado, março 14, 2026

Delatar ou não delatar, eis a questão

 

Arte: Marcelo Chello

O STF formou maioria para manter o banqueiro das festinhas de Trancoso preso. Só que os detalhes que saíram hoje são de cinema. O Davizinho mandou um ofício para ele mesmo liberar R$ 379 milhões em emendas para o Amapá, onde o suplente dele saiu de banco ontem com R$ 350 mil em dinheiro vivo no bolso. O Gilmar com J de Jeitinho salvou o Lulinha de ter o sigilo quebrado, por ora. E Bolsonaro segue na UTI. Se segura, BRASEW.

“Infernizando o juiz”

A treta é a seguinte. O homem do Cine Trancoso, Daniel Vorcaro, está preso na Penitenciária Federal de Brasília e hoje o STF formou maioria para mantê-lo lá. O supremo terrivelmente evangélico André Mendonça foi o relator, votou pela manutenção da prisão, e Luiz Fux e Nunes Marques foram junto. O supremo Gilmar ainda não votou. O julgamento vai até a próxima sexta no plenário virtual.

Mas o que saiu hoje de novo sobre a primeira prisão do Vorcaro, em novembro do ano passado, é de tirar o fôlego do roteirista de Brasil. O Estadão teve acesso ao conteúdo do celular do banqueiro e o que está lá é, como dizem os técnicos, bastante comprometedor.

Antes da prisão, o então advogado Walfrido Warde ligou diretamente para o juiz do caso, Ricardo Leite, tentando segurar a situação. Não funcionou. Aí Warde mandou mensagem no zap do juiz junto com uma notícia sobre a venda do Banco Master, como quem diz “olha, tá tudo bem aqui, não precisa prender ninguém”. Também não funcionou. Às 18h08 daquele dia, Warde mandou para o Vorcaro prints da conversa com o juiz e escreveu: “Estamos infernizando o cara.”

(Juro que não inventei.)

Vorcaro foi preso no raio-x do aeroporto de Guarulhos quando tentava embarcar num jatinho para o exterior. Ficou 11 dias na cana, foi solto, ganhou tornozeleira e proibição de sair de São Paulo. Mas aí a PF foi fundo no celular dele e o que encontrou levou o supremo André Mendonça a decretar a segunda prisão, na semana passada.

Para os perdidos. A PF diz que Vorcaro soube com antecedência que seria preso porque recebia informações sigilosas de dentro do Banco Central. Ele chegou a anotar no celular o nome de todos os delegados da PF que participaram de uma reunião sobre o Master. Conseguiu ainda descobrir, via hackeamento, em qual vara tramitava o inquérito sigiloso. Tudo para tentar sumir antes que as algemas chegassem.

E não foi só isso. Nas mensagens do celular, Mendonça encontrou o Vorcaro conversando com seu braço armado particular, o tal Luiz Phillipe Mourão, que trabalhava com ele e atendia pelo apelido de Sicário. (Sim, atendia, pois ele mÓrreu, ou foi morrido, vai saber.) Sobre uma funcionária que o estaria ameaçando, Vorcaro escreveu ao Sicário: “É preciso moer essa vagabunda.” Sobre o jornalista Lauro Jardim, do Globo: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto.”

O que será que Sicário levou com ele? De que outro sicário o Sicário tinha medo?

Mendonça também revelou que existem oito celulares de Vorcaro para serem periciados pela PF. Só um foi analisado até agora. O que já saiu deste primeiro já deu nisso tudo. Imagina o tamanho da treta que tem nos outros sete?

E o novo advogado?

Com a decisão do STF de manter a prisão, o advogado Pierpaolo Bottini, que conduzia a defesa mais recente de Vorcaro, deixou o caso hoje, alegando motivos pessoais. Bottini já vinha avisando que não participaria de negociação de delação premiada, que é exatamente para onde o caso parece estar caminhando. Vamos combinar que, se rolar delação, o que vai ter de outros clientes dele no rolê não vai ser brinquedo.

Quem entra no lugar é o Juca, também conhecido como José Luis Oliveira Lima, um dos criminalistas mais respeitados do país, com um currículo que vale ser mencionado: defendeu Léo Pinheiro, empreiteiro da OAS, na Lava-Jato. Defendeu José Dirceu no mensalão. Representou o general Braga Netto no processo do golpe. E, detalhe não pequeno, já advogava para o Banco Master antes de a instituição ser liquidada pelo Banco Central em novembro.

Juca já avisou pra galera que não descarta uma delação e que “todas as possibilidades estão abertas.” O próprio Vorcaro já cogitava delatar antes mesmo de ser preso novamente e só aguardava o resultado do julgamento de hoje para decidir. O STF manteve a prisão. E agora, Vorca?

Mas atenção: para delatar, Vorcaro vai precisar apresentar provas concretas do que disser. Sem evidências, sem acordo. As negociações de colaboração são complexas, especialmente num caso do tamanho do Master.

Davizinho mandou ofício para… o Davizinho

Ontem a TixaNews contou que a PF flagrou Breno Chaves Pinto (segundo suplente de Davi Alcolumbre no Senado) saindo de uma agência bancária com R$ 350 mil em cash e entrando num carro registrado em nome de empresa de primos do Davizinho. Breno está sob investigação por suspeita de fraudes em licitações do Dnit.

Hoje, a notícia sobre nossa estrela-mor do Senado piorou.

Alcolumbre enviou um ofício de 15 páginas solicitando a liberação de R$ 379 milhões em emendas para obras no Amapá, seu reduto eleitoral. Até aqui, tudo bem. Afinal de contas senadores fazem isso.

O detalhe é o destinatário do ofício: o próprio Davi Alcolumbre, presidente do Senado.

Ele pediu respeitosamente a si mesmo que liberasse o dinheiro. “Certos de podermos contar com a sua valiosa colaboração”, escreveu ele... para ele mesmo. (Quem lembrou do Xandão expedindo pedido de prisão pra ele mesmo levanta a mão. Só que dessa vez não foi obra de hacker.)

Do total dos R$ 379 milhões, R$ 30,5 milhões foram para uma obra tocada pela construtora do tal Breno Chaves. O mesmo suplente do dinheiro vivo de ontem.

A justificativa do se Davi? Que mandou o ofício para si mesmo para “cumprir acordo feito com o STF” que exige identificar o autor de cada emenda. Só que especialistas em contas públicas discordam e dizem que a manobra é exatamente o contrário: uma forma de esconder quem indicou o quê, jogando tudo no colo da “bancada do Amapá” como se fosse uma decisão coletiva.

O ministro que intermediou a liberação dos recursos foi Waldez Góes, do Ministério da Integração, indicado ao cargo pelo próprio Alcolumbre. O governador do Amapá que assinou os contratos é aliado político de Alcolumbre. A empresa do suplente recebeu R$ 8 milhões, executou menos de 9% da obra e o contrato foi “rescindido” em julho, mas o último pagamento foi feito em setembro.

Gilmar dá uma aliviada para o Lulinha

O supremo Gilmar com J de Jeitinho pediu destaque hoje no julgamento sobre a quebra de sigilo do Lulinha. Com isso, o caso sai do plenário virtual e vai para o plenário físico, em data a definir.

Para os perdidos. A CPI do INSS aprovou a quebra de sigilo do Lulinha. O supremo Flávio Dino suspendeu essa e outras quebras aprovadas pela CPI, dizendo que precisavam ser analisadas uma a uma. A CPI recorreu. Hoje Dino votou para manter a decisão dele. Aí chegou o Gilmar e pediu o destaque.

O efeito prático: o julgamento recomeça do zero, no plenário físico, em data indefinida. O Lulinha respira aliviado, por enquanto.

Bolsonaro na UTI

Os médicos de Jair Bolsonaro confirmaram nesta sexta-feira que o nosso ex está internado com pneumonia aguda no hospital DF Star, em Brasília. Ele chegou com dificuldade de respirar, está estável, sem necessidade de entubação, mas segue na UTI sem previsão de alta.

Esta é, segundo os médicos, a pneumonia mais grave das três que ele enfrentou desde o ano passado e rolou por conta dos refluxos constantes que acabam levando líquidos aos pulmões.

Xandão proibiu, Lula proibiu, e ninguém foi visitar o Bolsonaro

Lembra do Darren Beattie, aquele assessor do Trump, que queria vir ao Brasil e para quem os advogados do ex-mito tentaram uma liberação pra visitar Bolsonaro lá na Papudinha? Pois é, Xandão tinha autorizado a visita. Na quinta-feira, voltou atrás, depois que o Itamaraty avisou que um funcionário do governo americano visitando um ex-presidente preso em ano eleitoral cheira a ingerência estrangeira nos assuntos internos do país.

Mas aí chegou o Lula com um recado extra.

“Ele foi proibido de visitar e eu o proíbo de vir ao Brasil enquanto não liberar os vistos do meu ministro da Saúde que tá bloqueado.” E daí o Itamaraty cancelou o visto do gringo, alegando que ele mentiu nesse rolê de visitar Bolsonaro.

Para os perdidos. Em agosto do ano passado, o governo do Trump cancelou os vistos da esposa e da filha do ministro Alexandre Padilha, na treta daquelas sanções americanas contra autoridades ligadas ao programa Mais Médicos. O visto pessoal de Padilha já estava vencido desde 2024 e simplesmente não foi renovado.

Trump, Putin e o petróleo de todo mundo

Donald J. Trump (J de João, juro) admitiu hoje que Putin pode estar ajudando o Irã “um pouco” no conflito no Oriente Médio, isso enquanto os EUA suspendem temporariamente as sanções ao petróleo russo para tentar segurar os preços do combustível. Zelensky, aquele da Ucrânia, disse que a medida pode injetar até 10 bi de doletas extras no esforço de guerra da Rússia. O Putin adorou e já pediu mais isenções.

A União Europeia reclamou que não foi consultada. Macron disse que as isenções são “temporárias e limitadas”. O secretário do Tesouro dos EUA disse primeiro que a medida não ia ajudar a Rússia “significativamente”, depois voltou atrás e disse que era “uma inevitabilidade” e “lamentável”.

Então tá, né?

É isso, BRASEW. Sexta pesada, fim de semana à vista. Vou ali comprar um pão salgado que enjoei do doce.

Em destaque

Cícero Dantas dá o Exemplo: O Respeito à Mulher como Pilar de Gestão e Humanidade

Vinícius celebra a força e a importância das mulheres de Cícero Dantas Júnior de Santinha 14 de março de 2026 Neste Mês da Mulher, o prefeit...

Mais visitadas