Publicado em 13 de março de 2026 por Tribuna da Internet
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Campo político se reorganiza em torno de uma polarização
Pedro do Coutto
A nova pesquisa divulgada pelo instituto Quaest trouxe um elemento que muda o ritmo da disputa presidencial: um empate técnico entre o presidente Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro em um eventual segundo turno. O levantamento indica que ambos aparecem com cerca de 41% das intenções de voto nesse cenário, dentro da margem de erro de dois pontos percentuais.
O dado, embora ainda distante da eleição, sinaliza que a corrida presidencial caminha para uma disputa altamente competitiva. Pesquisas anteriores mostravam vantagem mais confortável para Lula, mas a diferença foi diminuindo ao longo dos últimos meses, consolidando Flávio como o principal nome da direita na disputa nacional.
CAMPANHAS ELEITORAIS – Mas pesquisas são fotografias de um momento — e não o filme completo da eleição. A história política brasileira mostra que campanhas eleitorais são capazes de alterar percepções públicas, consolidar lideranças ou produzir reviravoltas inesperadas. O empate técnico revelado pela Quaest, portanto, é menos um prognóstico definitivo e mais um sinal de que o campo político começa a se reorganizar em torno de uma polarização que, mais uma vez, opõe lulismo e bolsonarismo.
Para Lula, o desafio central será preservar o eleitorado que o levou de volta ao Planalto e ampliar pontes com o centro político. A estratégia tradicional do petismo costuma combinar duas frentes: a defesa de resultados econômicos e sociais do governo e a tentativa de apresentar o adversário como uma ameaça institucional. Em eleições anteriores, essa narrativa funcionou para mobilizar setores progressistas e parte do eleitorado moderado.
Flávio Bolsonaro, por sua vez, tenta trilhar um caminho mais complexo. Embora carregue o peso político do sobrenome e do legado do ex-presidente Jair Bolsonaro, sua campanha busca construir uma imagem menos confrontacional, capaz de dialogar com eleitores que rejeitam a radicalização política. A aposta de aliados é que ele represente uma versão mais moderada do bolsonarismo, mantendo a base conservadora mobilizada sem afastar o eleitor de centro.
MÍDIAS – No entanto, a eleição não será decidida apenas pelas identidades políticas dos candidatos. O terreno decisivo estará nas campanhas — especialmente na capacidade de cada lado de dominar três arenas fundamentais da política contemporânea: televisão, redes sociais e imprensa.
A televisão ainda mantém peso relevante na formação de opinião, sobretudo entre eleitores mais velhos e em regiões onde o acesso à internet é menos intenso. Já as redes sociais se tornaram o espaço privilegiado da disputa narrativa, onde militâncias organizadas, influenciadores e campanhas digitais tentam moldar percepções em tempo real. E os jornais — impressos e digitais — continuam desempenhando um papel importante na agenda pública, pautando debates e revelando fatos que podem influenciar o humor do eleitorado.
Outro fator determinante será a capacidade de cada candidatura de construir alianças políticas nos estados. O Brasil continua sendo um país de dimensões continentais, onde palanques regionais, governadores e lideranças locais desempenham papel decisivo na transferência de votos. Uma campanha nacional sólida exige articulação territorial — algo que historicamente tem peso nas eleições presidenciais.
CONTEXTO ECONÔMICO E SOCIAL – Também não se pode ignorar o impacto do contexto econômico e social. Inflação, emprego, renda e segurança pública costumam influenciar o humor do eleitorado de forma direta. Governos que conseguem transmitir sensação de estabilidade econômica tendem a chegar mais fortes à disputa, enquanto crises ou escândalos políticos podem alterar rapidamente o cenário eleitoral.
Nesse sentido, o empate técnico revelado pela Quaest não significa necessariamente equilíbrio definitivo. Significa, sobretudo, que a eleição entrou em uma fase de disputa aberta. Lula ainda possui a vantagem da incumbência e da visibilidade do cargo, enquanto Flávio Bolsonaro tenta capitalizar o desgaste natural de um governo em exercício e reorganizar a direita em torno de seu nome.
No fundo, a eleição presidencial que se desenha no horizonte parece repetir um padrão já conhecido da política brasileira contemporânea: uma disputa polarizada, intensa e marcada por narrativas fortes. Mas, como sempre acontece em democracias vibrantes, o resultado final dependerá menos das pesquisas de hoje e mais da capacidade de cada campanha de convencer o eleitor de amanhã.