Entre o Palanque e o Leito: Onde termina a política e começa a empatia?
Existem situações na vida pública que desafiam a lógica política e entram no campo da análise comportamental. Como diz o ditado popular, "só Freud explica". O recente episódio envolvendo o Senador Flávio Bolsonaro trouxe à tona um questionamento profundo sobre prioridades, sentimentos e o exemplo que as lideranças deixam para a sociedade.
Enquanto o ex-presidente Jair Bolsonaro enfrentava uma internação em estado grave na UTI, o seu filho "01", o senador Flávio Bolsonaro, cumpria agenda política em Rondônia. O cenário não era de sobriedade ou recolhimento, mas de celebração.
A Festa no Palanque vs. A Luta na UTI
A participação do senador no evento do PL, que marcou o lançamento da pré-candidatura de Marcos Rogério ao governo estadual, chocou muitos observadores. Imagens do parlamentar celebrando com apoiadores e participando ativamente do clima festivo do encontro político contrastaram drasticamente com os boletins médicos que chegavam da unidade de terapia intensiva.
A política, por natureza, é uma atividade contínua, mas a humanidade deveria ser o seu freio de segurança. A pergunta que ecoa nas redes e nas ruas é: que sentimento é esse?
O Exemplo Público: Lideranças políticas são espelhos para seus seguidores. Quando um filho, diante da gravidade do estado de saúde do pai, prioriza o lançamento de uma candidatura e o "oba-oba" partidário, ele envia uma mensagem confusa sobre os valores familiares que tanto defende no discurso.
A Ética do Cuidado: Se para um filho a urgência do palanque supera a vigília no hospital, o que esperar da empatia dessas mesmas lideranças para com o cidadão comum, que não possui o mesmo laço sanguíneo?
A Política como Espetáculo Acima de Tudo
O episódio reflete uma face da política moderna onde o "show" não pode parar. A busca pela manutenção do poder e o fortalecimento de bases eleitorais parecem ter se tornado tão obsessivos que até momentos de fragilidade humana extrema são relegados ao segundo plano.
O ditado "roupa suja se lava em casa" foi citado em artigos anteriores deste blog, mas aqui o buraco é mais embaixo: trata-se da exposição de uma frieza que ignora o momento de dor em nome de um projeto político.
Conclusão: Um Belo Exemplo ao Contrário
Se o exemplo deve vir de cima, o que vimos em Rondônia foi um contra-exemplo. Aos olhos de quem observa de fora, fica a sensação de que, no jogo do poder, nem o leito de uma UTI é sagrado o suficiente para silenciar os fogos de artifício de um lançamento de candidatura.
Para o cidadão comum, que muitas vezes falta ao trabalho e atravessa cidades para estar ao lado de um parente enfermo, a conduta do senador soa estranha, distante e, acima de tudo, desprovida daquela sensibilidade que separa o homem público do calculista político.
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José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025)