quinta-feira, março 12, 2026

Criminosos de guerra nas praias brasileiras?

 

Há direito de não viver em guerra?


No artigo de março para o Intercept Brasil, mergulhei no contexto dos israelenses que, após cumprirem suas funções no genocídio em Gaza e na ocupação e limpeza étnica na Palestina, saem de férias, chegam no Brasil e ocupam praias e estabelecimentos com total certeza de impunidade.

O estado de Israel e suas lideranças estão na mira de acusações de crimes de guerra e contra a humanidade no Tribunal Penal Internacional, mas não há quase nenhum avanço na responsabilização.


O problema é que o direito internacional tem sido desrespeitado não somente pelos mandantes de guerra, como Netanyahu, Trump e Putin.


Países onde se enche a boca para falar de respeito à soberania, seja o Brasil ou a França, também riem na cara de suas obrigações frente ao direito internacional ao normalizar absurdos e resumir sua postura a palavras e declarações em redes sociais.


Mas não é normal que uma escola seja bombardeada, assassinando cerca de 150 crianças e adultos e ferindo outras 100. Não é normal que uma operação de guerra seja retratada por um presidente como se fosse uma mera jogada de videogame.


É nada normal que um estado emita avisos de evacuação para bairros inteiros de outro país, com pouca antecedência, e se espere que povos civis e inocentes simplesmente aceitem a perda de suas residências, pertences, e vidas inteiras. Nada disso é normal, mas está normalizado.

Enquanto o mundo assiste ao horror em Gaza, o Brasil abre as portas para que integrantes das forças que cometeram crimes de guerra circulem livremente pelas nossas praias.


O estado brasileiro é signatário do Estatuto de Roma, mas prefere a conveniência do silêncio à justiça internacional. A análise de Sabrina Fernandes é a nossa ferramenta de pressão e denúncia; é a trincheira que grita o que o governo tenta ignorar.


Sua doação é um ato de solidariedade internacional e de resistência política. Ao apoiar o Intercept, você garante que continuaremos sendo o canal que fura a bolha e exige responsabilidade histórica.


Junte-se a nós nesta luta contra a desinformação e o esquecimento.


Se guerras moldaram a história humana, deixando um legado sombrio do que impérios e colonizadores são capazes de fazer, hoje estamos diante de uma camada ainda maior de banalização dos efeitos de invasões, disputas imperiais e tomada de territórios e recursos. As vidas humanas simplesmente não contam nem mesmo para lamentar a perda de civis ou efeitos colaterais.


Apenas soldados patriotas de exércitos poderosos têm direito a honrarias, mas em regiões desprezadas por racismo e islamofobia, o valor da vida civil é tão baixo, que é comum encontrar cifras em que combatentes oficiais morrem bem menos que pessoas comuns.

No caso do genocídio em Gaza, até dados do exército israelense corroboram isso, onde 
83% dos mortos em Gaza são vítimas comuns. Além disso, há a destruição planejada de infraestrutura civil: residências, hospitais, universidades, museus, templos.


Em 02 de março, Israel e Estados Unidos bombardearam o Palácio Golestan, patrimônio da Unesco no Irã, embora a imprensa insista em noticiar na linguagem passiva, no estilo de “palácio sofre danos” ou “bombardeios atingem". As vítimas não têm direito aos seus nomes, à sua história e nem mesmo à sua cultura. 


Não é coincidência que os autores dos principais ataques militares recentes tenham interesses imobiliários nas regiões alvo. Matar a população civil, expulsar quem resta e o uso de bombardeio de saturação (carpet-bombing) cumprem juntos o papel de limpar o terreno para futura ocupação colonial.


Isso está tão normalizado que Trump foi explícito sobre seu “plano de reconstrução de Gaza” e as oportunidades apresentadas para o turismo de resorts e investimento na região.

O turismo pode ser um forte artefato colonial de normalização da tomada de territórios e da ocupação, principalmente o turismo extrativista. O termo é interessante, porque remete ao sistema de mineração que extrai valor enquanto possível e depois deixa os danos para a população local.


É sobre atrair capital, usar recursos e usufruir do espaço a partir de estruturas de poder que reforçam desigualdades e impunidade. 


Em um mundo em guerra constante – genocídios, guerras inter-imperiais, guerras civis, e o uso da violência estatal contra o próprio povo – o que é frequente se torna apenas mais um detalhe nas atualizações diárias de notícias de quem não está na mira do fogo.


Parece apenas um incômodo em planos de viagem, um obstáculo logístico em trâmites comerciais, ou uma preocupação passageira. O direito à paz é seletivo, assim como o direito à própria humanidade. 


Por isso, embora cansativo e desanimador, não podemos evitar o conhecimento sobre o que há de mau e terrível no mundo. Esse conhecimento pesa, mas enquanto pesar, será um impedimento à normalização completa de tanta morte de destruição.


É parte de nossa tarefa nos manter informados, aprender a interpretar essas informações e, com sorte, conseguir mobilizar a partir disso para que a paz não seja um desejo inocente e distante e sim objetivo estratégico de nossas ações.




Conectando os pontos entre conflitos ao redor do mundo



O Transnational Institute acaba de publicar (em inglês) um dossiê sobre o fascismo no mundo. Há artigos sobre a política anti-imigrante, sobre eco-fascismo, extrativismo autoritário, entre outros.


Gostaria de destacar o artigo de Ylkye, que trata de resistências e a necessidade de organizar para além das aparências, especialmente as digitais (p. 124):


Para ir além da performance, precisamos desaprender o primeiro mandamento do espetáculo: para ser importante, você precisa ser visto. A libertação começa nos lugares que o algoritmo não consegue encontrar. A política, se quiser voltar a ter algum significado, precisa ser reconstruída como infraestrutura. Precisamos reconstruir os circuitos silenciosos de cuidado que sustentam a vida quando os sistemas destinados a fazer isso entraram em colapso sob seu próprio narcisismo.”



Me parece uma boa newsletter para encerrar com Victor Jara e seu clássico, pois realmente parece que tudo que sonhamos depende dele, o direito de viver em paz.


Esta versão conta com vários artistas chilenos, como Mon Laferte e Moral Distraída.


Con genocidio y napalm

La luna es una explosión

Que funde todo el clamor

El derecho de vivir en paz


Nos vemos no mês que vem!Criminosos de guerra nas praias brasileiras?

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