Entre a Empatia e a Hipocrisia: a Doença de Bolsonaro e a Lição da Lei do Retorno na Política Brasileira
Por José Montalvão
O ex-presidente Jair Bolsonaro encontra-se internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital DF Star, em Brasília, diagnosticado com broncopneumonia bacteriana bilateral, de provável origem aspirativa. Trata-se de um quadro clínico que exige cuidados intensivos e acompanhamento médico rigoroso. Em situações como essa, o mais natural e humano é que familiares demonstrem preocupação e busquem as melhores condições possíveis para a recuperação de quem está doente.
Foi nesse contexto que o senador Flávio Bolsonaro voltou a defender a possibilidade de prisão domiciliar para o pai. O comentário, no entanto, gerou forte repercussão no debate público, especialmente após análise feita pelo jornalista Reinaldo Azevedo, que chamou atenção para aquilo que considera uma contradição recorrente na política brasileira: a tendência de alguns atores políticos em “hiper-humanizar” os seus, enquanto desumanizam completamente os adversários.
A reflexão proposta por Azevedo não se limita a um episódio isolado. Ela toca em uma ferida mais profunda da política nacional: o uso seletivo da empatia. Em muitos momentos do debate político recente, especialmente nas redes sociais, vimos manifestações duras, desrespeitosas e até cruéis dirigidas a adversários políticos e seus familiares.
É impossível esquecer, por exemplo, as manifestações de ódio que circularam quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrentou momentos pessoais dolorosos, como a morte de familiares próximos, incluindo sua esposa Marisa Letícia Lula da Silva. Em diversas ocasiões, a tragédia pessoal foi tratada por alguns setores com desprezo, ironia ou indiferença — atitudes que ferem qualquer princípio básico de humanidade.
A política, quando perde o limite ético e moral, acaba contaminada por uma lógica perigosa: a de que o sofrimento do outro pode ser relativizado se ele estiver do “lado oposto”. Esse tipo de comportamento não engrandece o debate democrático; ao contrário, empobrece a convivência social e aprofunda divisões.
Por isso, muitos recorrem a uma ideia antiga, presente tanto na sabedoria popular quanto em diversas tradições morais: a chamada “lei do retorno”. Em termos simples, trata-se do princípio de que aquilo que semeamos — em palavras, atitudes e comportamentos — tende, cedo ou tarde, a voltar para nós.
Não se trata de desejar sofrimento a ninguém. Pelo contrário. A verdadeira lição é justamente o oposto: nunca devemos desejar ao próximo aquilo que não queremos que aconteça conosco. A dor, a doença e o luto fazem parte da condição humana e atingem pessoas de todas as posições políticas, ideológicas ou sociais.
Em momentos de enfermidade, como o que vive agora Jair Bolsonaro, o que se espera de uma sociedade civilizada não é a reprodução do ódio que já marcou tantos episódios do debate público. O que se espera é humanidade.
Talvez essa seja a maior lição que a política brasileira ainda precisa aprender: a empatia não pode ser seletiva. Ela deve existir para todos — aliados e adversários — porque, no fim das contas, antes de sermos militantes, eleitores ou líderes políticos, somos todos seres humanos.
José Montalvão Funcionário Federal Aposentado, Graduado e Pós-Graduado em Gestão Pública, Pós-Graduado em Jornalismo. Membro da ABI (C-002025).