sexta-feira, novembro 24, 2023

Não chores, Argentina!




O problema econômico do nosso vizinho vai requerer um bom caldeirão de feijão e uma panela generosa de arroz. Voltar ao básico

Por Felipe Salto* (foto)

Os vícios e as virtudes do peronismo não explicam plenamente a crise econômica da Argentina. Não custa lembrar que o ex-presidente Maurício Macri, um não peronista, fracassou no desafio de restabelecer as bases econômico-fiscais e as condições de solvência no balanço das contas externas. O problema está nos pecados originais dos anos 1990 e 2000. Milei precisará dar um cavalo de pau nas suas convicções se quiser ter sucesso.

O corralito, espécie de sequestro das contas correntes e das poupanças, similar ao que se fez no Plano Collor, por aqui, e a Lei da Conversibilidade não foram acompanhados de uma política fiscal sólida. No Plano Real, fizemos o dever de casa completo, mesmo demorando a adotar as metas de resultado primário. Assim, escapamos da sina de erodir a confiança na moeda.

No caso do Brasil, as poucas reservas internacionais detidas pelo Banco Central foram usadas adequadamente, até que se conseguiu estabelecer um regime fiscal, aos trancos e barrancos; e ele vingou. A Lei de Responsabilidade Fiscal (Lei Complementar n.º 101/2000) coroou esse processo.

Na Argentina, não se trata de abandonar a legítima preocupação com o desenvolvimento, a igualdade social e a elaboração de políticas públicas em geral. A renda per capita dos hermanos é maior do que a brasileira, vale dizer.

Uma olhada no World Economic Outlook, do Fundo Monetário Internacional (FMI), mostra que a renda per capita, por lá, representa uma vez e meia a dos brasileiros. Em paridade do poder de compra (métrica para comparar países), os argentinos têm um PIB per capita de US$ 22,4 mil, enquanto nós apresentamos US$ 16 mil em 2022.

Arrumando bem o balanço externo e o fiscal, há boas chances de uma retomada na Argentina. Economia é um sistema de vasos comunicantes, em que o equilíbrio nas transações com o resto do mundo está diretamente associado à saúde das contas públicas.

Quando faltam dólares, o preço dessa moeda de reserva internacional sobe e, mais grave, aposta-se ainda mais na subida, reduzindo a pó a moeda nacional e turbinando a inflação. Se o governo tem déficit e precisa financiá-lo, mas não consegue captar o suficiente com títulos públicos, internamente (já que todos preferem o dólar), acaba demandando dólares.

Dessa forma, para baixar o nível de todos os vasos, ao mesmo tempo, é preciso um choque exógeno, como se diz no economês. Um programa de equilíbrio fiscal poderia associar-se a um novo empréstimo no FMI com a finalidade de criar esse ambiente de normalidade.

O presidente eleito no domingo passado defende teses ditas “libertárias”: passar a chave no Banco Central da República Argentina e atirá-la pela janela; dolarizar a economia; fechar ministérios e por aí vai. O problema econômico do nosso vizinho vai requerer um bom caldeirão de feijão e uma panela generosa de arroz. Voltar ao básico.

As maluquices propostas por Javier Milei na campanha levariam a um quadro ainda mais grave que o atual. Renunciar à própria moeda sem ter dólares para guarnecer o consumo e o investimento? E, depois, como cuidar do próprio quintal sem manejar o custo da moeda, o juro? Depender de um emissor estrangeiro?

O corralito e a Lei da Conversibilidade não foram acompanhados de um programa fiscal sólido. Pior, alimentaram a ideia-força de que o peso argentino jamais faria frente ao dólar. Essa ideia explica a taxa de câmbio de quase quatro vezes a cotação oficial. Não há reservas internacionais e o balanço de pagamentos vai mal. Por outro lado, o desajuste fiscal está longe de ser insolúvel; daí poderia vir um sinal concreto.

A eleição de Javier Milei para presidir a Argentina, parceiro econômico sulino central para o Brasil, é preocupante, porque não se vê, até o momento, um plano econômico à altura desses desafios. Se não abandonar, rapidamente, as sandices que defendeu no palanque, vai torrar o precioso tempo de que dispõe. Será preciso, sim, endereçar um novo acordo com o

FMI e estabelecer as bases de um programa de ajuste fiscal digno desse nome. Uma regra fiscal clara combinada com medidas de ajuste exequíveis.

A bolada do FMI poderá representar apenas um paracetamol para diminuir a febre ou o início de um programa de recuperação da credibilidade. Isso é fundamental para o país voltar a exibir a atratividade necessária para o investimento estrangeiro, restaurando as funções básicas de qualquer moeda: meio de troca, reserva de valor e unidade de conta.

O descontrole inflacionário e a consequente carestia não são condições imutáveis. A solução para a crise econômica daquele país passará, novamente, pela busca de dólares combinada com um esforço fiscal efetivo, menos brutal do que pareceria necessário à primeira vista. O importante é dar um sinal concreto em termos de medidas de controle do gasto público e aumento da arrecadação tributária.

É torcer para um rompante de lucidez. Afinal, um país que produziu Jorge Bergoglio, o melhor papa já eleito pelo conclave, com espírito público e sensibilidade social elevados, não pode perder a esperança e a fé.

*Economista-chefe e sócio da Warren Investimentos, foi secretário da Fazenda e Planejamento de São Paulo

O Estado de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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