segunda-feira, fevereiro 26, 2024

Quem cala consente?

 Por Coisas da Política

COISAS DA POLÍTICA

Quem cala consente?

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Publicado em 25/02/2024 às 07:28

Alterado em 25/02/2024 às 07:28

Bolsonaristas fazendo saudação nazista em ato pró-Bolsonaro em SC; haverá repetição da cena na Paulista neste domingo? Foto: Reprodução

Os acadêmicos Misha Klein, professora do Departamento de Antropologia da Universidade de Oklahoma (EUA), e Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da UFRJ, afirmam que Lula acionou um botão atômico ao (sem falar a palavra Holocausto) comparar a ação das tropas do governo Netanyahu, em Gaza, com a movimentação das tropas nazistas contra judeus, homossexuais, comunistas e minorias étnicas, como os ciganos na Europa, sobretudo no Gueto de Varsóvia, mais comparável a Gaza.

É evidente que o clima de excitação entre os bolsonaristas, que queriam engrossar o engajamento para a manifestação pró Bolsonaro neste domingo, 25 de fevereiro, na Avenida Paulista, acirrou os ânimos nas redes sociais de judeus e não judeus (bolsonaristas) para criticar Lula ao longo da semana.

Por desfaçatez, Bolsonaro e sua turma, alvos do inquérito dos atos de 8 de janeiro de 2023 contra o Estado Democrático de Direito, com a destruição das sedes dos três Poderes da República, batizaram o ato de hoje, oficialmente convocado pelo pastor Silas Malafaia, como em “Defesa do Estado Democrático de Direito”. Se o desfecho da arruaça fosse a decretação de uma GLO (Garantia da Lei e da Ordem), com convocação das Forças Armadas, estaria em vigor no país um “Estado Antidemocrático da Direita” e esta coluna, possivelmente, não poderia ser escrita e muito menos publicada.

A deputada Carla Zambelli (PL-SP), que pode ter o mandato cassado por falta de decoro (na véspera do 2º turno, investiu de revólver em punho contra um eleitor preto de Lula, numa rua de São Paulo, fato que alguns bolsonaristas apontam como uma das causas da derrota em 30 de outubro de 2022), logo criou abaixo-assinado pedindo “impeachment” do presidente da República pelas críticas a Israel e amealhou 139 assinaturas. A esdrúxula ação só seguirá se o presidente da Câmara, Arthur Lila (PP-AL), der prosseguimento à moção.

Mas parece evidente que a intenção de Zambelli não anulou o desgaste que foi o comparecimento, dia 22, perante as diversas delegacias da Polícia Federal em todo o Brasil, da alta cúpula militar do governo Bolsonaro. A comitiva de 23 indiciados foi liderada, em ordem de importância hierárquica, pelo ex-presidente Jair Messias Bolsonaro. Como não sabem o inteiro teor da delação premiada (ainda em diligências) do ex-ajudante de ordens da Presidência da República, tenente-coronel Mauro Cid Lorena, a maioria ficou calada.

A farsa das urnas eletrônicas

O faz-tudo de Bolsonaro tanto negociava joias recebidas de presente e que pertenciam ao acervo da Presidência, como falsificava cartões de vacina e cuidava da movimentação financeira da família presidencial. No expediente, traçava as tramas do golpe ensaiado pelo ex-presidente desde 2019, e cujos rastros ficaram em seus celulares e computadores, como a famosa reunião de 5 de julho de 2022, que escancarou a trama do golpe entre a alta cúpula do governo, que cogitou melar o jogo antes mesmo da eleição, que julgava perdida (a farsa contra as urnas eletrônicas visava só criar clima hostil).

Primeiro, por duas vezes, Bolsonaro e os demais asseclas tentaram fugir ao constrangimento de terem de gravar as digitais na PF. Alegavam que, como iriam invocar o direito ao silêncio para evitar de criar fatos contra si mesmos, poderiam ser dispensados da oitiva. Como não estavam como depoentes, mas como indiciados, o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, e o procurador geral da República, Paulo Gonet, negaram o feito.

Assim como Bolsonaro, ficaram calados – mas prestando uma atenção tremenda nas perguntas para pescar o que a PF já tinha levantado e queria confirmar nas inquirições – o general Walter Braga Neto, ex-ministro da Defesa e vice na chapa derrotada, o ex-ministro da Defesa, general Paulo Sérgio Nogueira, que tanto investiu contra as urnas eletrônicas, mas reconheceu, em 5 de julho, que o teatro era “uma farsa”, e o general Augusto Heleno. O ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional, que controlava a Abin, quase deu com a língua nos dentes na reunião de 5 de julho de 2022, quando começou a narrar os planos de infiltrar agentes da Abin nas campanhas eleitorais (Bolsonaro cortou a fala para discussões posteriores).

Se em julho estavam tão loquazes e falantes – a ponto de instigar, como fez Braga Neto – ataques a generais e altos comandantes das Forças Armadas que recusaram praticar o golpe, segundo suas postagens em redes sociais, agora, nada menos que 16 ficaram calados. Só sete responderam às perguntas, ajudando a PF a montar peças do quebra-cabeças. Diz um velho ditado que “quem cala consente”. O silêncio não evitou a produção de provas. Só mostrou que quem tinha coragem de chamar de “cagão” a quem seguiu pela legalidade, agora teve “cagaço” de produzir provas e se complicar ainda mais. 

Israel não é aqui

Os dois pesquisadores citados no início apontam que na noite de 3 de abril de 2017, quando o então pré-candidato, ex-capitão e deputado federal (PP-RJ), Jair Bolsonaro, fez discurso na sede da Hebraica, em Laranjeiras, no Rio de Janeiro, ele lançou a pedra fundamental da relação entre a extrema-direita e a comunidade judaica no país. Houve desproporção entre a representatividade da colônia judaica e do coletivo de seitas religiosas que emulam simpatia por Israel. Na fala, Bolsonaro antecipou o que seria sua política genocida contra os indígenas e foi racista, dizendo que visitara um quilombo onde negros, obesos pela ociosidade, podiam ser pesados em arrobas (medida de peso de gado).

E uma das primeiras ações em política externa do governo Bolsonaro, além de tentar indicar seu filho 03, o deputado Eduardo Bolsonaro (então do PSL-SP e presidente da Comissão de Relações Exteriores da Câmara) como embaixador do Brasil em Washington, com as credenciais de “falar inglês e saber fritar (sic) hamburguer”, foi anunciar, em Tel Aviv, após encontro com o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, a mudança da embaixada brasileira para Jerusalém”, cidade histórica e multi-religiosa de católicos, judeus e muçulmanos.

Um peso e duas medidas

Como ficou claro na reprimenda humilhante que o ministro das Relações Exteriores do governo Netanyahu, Israel Katz, submeteu esta semana ao governo Lula, na figura do embaixador Frederico Meyer, com visita pública ao Museu do Holocausto, em Tel Aviv, onde fez discurso virulento em hebraico, contrariando os cânones diplomáticos, cinco anos depois, as sedes da embaixada brasileira e a do governo de Israel continuam sendo em Tel Aviv.

O fato é que, com o apoio de seitas religiosas evangélicas brasileiras que usam a estrela de Davi como símbolo e recorrem a passagens do Antigo Testamento como fonte de doutrina, a aliança entre os bolsonaristas e a direita de Israel, encarnada por Netanyahu, transcendeu à dimensão da colônia judaica no país. Onde nem todos (assim como em Israel) apoiam o primeiro-ministro.

Netanyahu, acusado por falhas gravíssimas de seu governo, ao não prever os ataques terroristas do Hamas no sábado, 7 de outubro de 2023, usa o revide ao Hamas para unir o povo de Israel, sobretudo os colonos assentados em terras palestinas, e resiste às manobras pelo cessar fogo. É que um cessar fogo prolongado abre espaço para o julgamento, no Kenesset (o Parlamento de Israel), sobre a responsabilidade política do seu governo.

Quando Lula avançou na retórica contra a desproporção da ação militar de Israel e invocou as ações de Hitler contra os judeus e outras minorias na Segunda Guerra, Netanyahu disse que “Lula cruzou a linha vermelha”. Mas nada disse quando a Declaração dos Chanceleres do G-20, reunidos no Rio de Janeiro, proposta pelo ministro das Relações Exteriores do Brasil, Mauro Vieira, e com endosso do Secretário de Estado dos Estados Unidos, o judeu Antony Blinken, defendeu os esforços pela Paz.

Blinken ressalvou que a libertação dos reféns, ainda em poder do Hamas, é condição “sine qua non” para um cessar fogo, apoiado pela União Europeia. A posição antibélica do Brasil foi estendida em conversa de Lula com chanceler russo Serguei Lavrov, para tentar um cessar-fogo também na Ucrânia. Salvo a indústria bélica, todo mundo só tem a ganhar com a Paz.

'O Banco Central está derretendo'

Acostumado a exibir a altivez da Independência do Banco Central – muitas vezes confundida com arrogância e soberba na fase de transição do governo Bolsonaro para Lula, e escolhido por influência do então ministro da Economia, Paulo Guedes, grato ao avô, o ex-ministro Roberto de Oliveira Campos, a quem Guedes assessorou em mandatos no Congresso – Roberto Campos Neto produziu esta semana uma declaração no mínimo estranha para lamentar os efeitos da greve dos funcionários do Banco Central, que está atrasando a divulgação de dados, acompanhados atentamente pelos agentes econômicos.

Em conversa com a jornalista Miriam Leitão, presente à posse do ex-ministro da Justiça e Segurança Pública Flávio Dino, no Supremo Tribunal Federal, Campos Neto disse que “o Banco Central está derretendo”, com perda de sete funcionários por dia, atraídos pelo mercado financeiro, face à defasagem salarial. No edital para o concurso que o Banco Central realiza em maio com 100 vagas, o salário inicial na Autoridade Monetária é de R$ 21 mil. E o novo teto salarial da instituição (e de todo o funcionalismo), acompanhando o salário dos ministros do STF, é R$ 44 mil, desde fevereiro, fora bônus e outros adicionais que elevam a remuneração efetiva.

Mas não há termos de comparação entre uma carreira na Autoridade Monetária e no sistema financeiro privado. No Banco Central, como aliás, no BNDES, no Banco do Brasil, e ainda na Caixa Econômica Federal e no Banco do Nordeste, salvo diretores e presidentes e vice nomeados por motivações políticas, como na CEF, só se entra por concurso público. E a estabilidade do emprego é quase vitalícia, a menos que o funcionário(a) cometa falta gravíssima que dê justa causa. No sistema privado, os salários do topo são altos e as bonificações elevadas. Mas há sempre risco de demissão como no Bradesco, Santander e Itaú, para ficar só nos três maiores bancos privados.

A independência relativa do BC

Quando era presidente, em visita à Europa, pressionado por jornalistas (que não podiam se aproximar no Brasil), o general Ernesto Geisel disse que “a democracia era relativa”. O presidente Lula foi muito criticado no ano passado quando defendeu o reingresso da Venezuela na Celac (a comunidade dos países da América Latina e Caribe). Apesar das atitudes ditatoriais de Nicolás Maduro, Lula queria estimular a Venezuela a realizar eleições democráticas em 2024, mas afirmou que o “conceito de democracia era relativo”. Maduro não seguiu o conselho de Lula. E está usando a disputa pelas terras ricas em petróleo e minérios de Essequibo (território da Guiana) para angariar apoios e superar a oposição, já muito cerceada em seus movimentos.

Pela Lei Complementar nº 179, de 24 de fevereiro de 2021, o Banco Central do Brasil ganhou independência perante o Poder Executivo. Mas, apesar de a Constituição de 1988 ter exigido o corte do cordão umbilical que unia o Banco do Brasil ao Banco Central do Brasil (criado em 31.12.1964 e operando em meados do ano seguinte) e ao Tesouro Nacional – obra executada ao longo de 1988 por equipe chefiada pelo então Secretário do Tesouro, Pedro Parente -, o BC ainda tem dependência financeira do Tesouro Nacional.

O parágrafo único do art. 8º da Lei nº 4.595, de 1964, com a redação do Decreto-Lei nº 2.376, de 25 de novembro de 1987, previa que “os resultados obtidos pelo Banco Central, consideradas as receitas e despesas de todas as suas operações, serão, a partir de 1° de janeiro de 1988, apurados pelo regime de competência e transferidos para o Tesouro Nacional, após compensados eventuais prejuízos de exercícios anteriores”. O artigo 7º da Lei de Responsabilidade Fiscal definiu que “o resultado do BCB, apurado após a constituição ou reversão de reservas, constitui receita do Tesouro Nacional, e será transferido até o décimo dia útil subsequente à aprovação dos balanços semestrais. Já o resultado negativo constituirá obrigação do Tesouro para com o BCB e será consignado em dotação específica no orçamento”.

Com a promulgação da Lei nº 13.820, de 3 de maio de 2019 (governo Bolsonaro), a partir de 1º de julho de 2019, o resultado do BC, que considera todas as suas receitas e despesas, passou ter o seguinte tratamento: I - se positivo, será transferido ao Tesouro após a constituição de reserva pelo valor correspondente ao resultado das operações com reservas e derivativos cambiais, até o 10º dia útil posterior à aprovação do balanço; II - se negativo, será coberto pelo Tesouro, após uso das reservas e do patrimônio institucional, observado o limite mínimo para o patrimônio líquido de 1,5% do ativo total, até o 10° dia útil do exercício subsequente ao da aprovação do balanço.

Em 15 de janeiro deste ano, pelos prejuízos de 2022, o Tesouro Nacional teve de socorrer o Banco Central em R$ 36,5 bilhões. Até setembro do ano passado, o Banco Central apresentou resultado negativo de R$116,218 bilhões. O número de dezembro de 2023 deve ser apreciado no Congresso Nacional a partir de abril, conforme a Lei Complementar nº 179 e a Lei nº 13.820.

Vê-se, assim, que a independência do BC só funciona com o apoio do Congresso, sobretudo do Senado, que aprovou a Lei Complementar 179, e aprova as indicações dos novos diretores com mandatos de três anos. Por sinal, não se entende a lamentação de Campos Neto quanto à perda de quadros do BC. É só salário? (o que não pode ser rompido pelo teto, assim como o das metas de inflação). Ou o BC quer uma nova autonomia para pagar além do teto? A economia derretia em 2023 e empresários e trabalhadores pediam baixa dos juros, mas Campos era insensível e inflexível aos apelos.

Sucessão no BC em junho?

Na minha visão, há mais coisas por trás da suposta debandada. O café na presidência do Banco Central já deve estar sendo servido frio. Não só pela operação padrão-dos funcionários. Mas pela própria percepção de que ao entrar em seu último ano de mandato (que expira em 31 de dezembro de 2024), Roberto Campos Neto já tem menos poder que há um ano. Por sinal, já é um prenúncio de uma nova era no Banco Central.

Desde a indicação de Gabriel Galípolo (ex-secretário executivo da Fazenda) para a diretoria de Política Monetária do Banco Central, a mais poderosa da instituição, em junho de 2023, junto com Ailton Aquino, para a Fiscalização, a correlação de forças no Comitê de Política Monetária (Copom) do BC, começou a mudar. Galípolo forçou, em 2 de agosto de 2023, a aceleração de 0,25% para 0,50% na queda de juros pelo Copom (que poderia já ter vindo em junho). Em janeiro, com dois novos diretores indicados pelo ministro Fernando Haddad, a composição do Copom ficou ainda menos ortodoxa.

E, junto com Campos Neto, saem, em dezembro, dois diretores da ala conservadora (Otávio Damaso e Carolina de Assis Moura). Galípolo é o mais cotado a suceder Campos Neto, cujo sucessor (apontou esta semana o Itaú, em cenários para a área monetária-fiscal) já pode ser conhecido em junho, na reunião do Conselho Monetário Nacional, comandado por Haddad e do qual fazem parte Campos Neto e a ministra do Planejamento, Simone Tebet..

Com o 2º semestre dominado pelas eleições municipais, é bom tratar a sucessão do Banco Central (sujeita à aprovação do nome pelo Senado) com antecedência para o mercado e os agentes econômicos assimilarem o teor da mudança. Na mesma reunião do CMN será decidida a meta de inflação de 2027 (o prazo limite é 30 de junho). Até aqui, as metas de 2024 a 2026 são de 3,0% mais 1,50% de tolerância +4,50%. Ou seja, uma reunião muito importante para a economia e em especial para o mercado financeiro.

Desconfio que os funcionários mais ortodoxos prevendo a mudança do leme são os primeiros a costear o alambrado rumo à banca privada. Por isso, pede especial atenção o maior tempo de quarentena para a desincompatibilização de altos funcionários do governo e agências governamentais para atuarem na área privada. Gerentes do Banco Central acumulam segredos valiosos.

https://www.jb.com.br/colunistas/coisas-da-politica/2024/02/1048858-quem-cala-consente.html

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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