segunda-feira, fevereiro 26, 2024

Não era fácil trabalhar com Assange. Mas nunca duvidei que era jornalismo

 

Não era fácil trabalhar com Assange. Mas nunca duvidei que era jornalismo


Faz mais de vinte anos que eu entrei, uma certa manhã, na secretaria de graduação da PUC-SP para pegar meu diploma. Não esperava, mas ali, no momento da entrega, foi-me apresentado um textinho impresso, cujas palavras exatas se perderam, mas o sentido nunca: era o meu juramento. 

Tentei reencontrá-lo nas caixas e gavetas por onde os vestígios da minha história estão espalhados, sem sucesso. Mas encontrei na internet algo parecido, o modelo usado por alunos de jornalismo da PUC de Minas Gerais: 

“Prometo, no exercício da profissão de jornalista, orientar minha conduta de acordo com os princípios da Ética e da dignidade humana, procurando levar ao leitor, ouvinte ou espectador o relato fiel dos acontecimentos”. 

Aquele juramento me emocionou, em meio ao cenário burocrático e monótono – uma mesa de fórmica, alguma cadeira modesta já amarelada pelo tempo. 

Senti que tinha escolhido um ofício realmente importante.  

Quando entregas, edições, revisões e detalhes infinitamente irritantes da publicação online – UX, SEO – ditam o trabalho ao qual nós, jornalistas, nos dedicamos no dia a dia, sobra pouco tempo para relembrar o juramento que fizemos, ainda crus, ainda focas, e porque o fizemos, e se estamos sendo fiéis a ele. Mas eu me lembrei desse juramento quando li o artigo da professora Ligia Maura Costa, da FGV, na Folha de S Paulo do último sábado, que servia como contraponto ao meu artigo refutando a extradição de Julian Assange. 

O jornal propôs a nós duas expormos dois lados da questão: o australiano deve ser extraditado para os EUA? 

Não vou gastar a minha newsletter fazendo uma tréplica à professora, até porque seria injusto: eu tenho uma newsletter semanal, ela não. Mas um aspecto da sua defesa me fez refletir sobre o que afinal eu faço nessa terra. E merece maior ponderação. 

Ela argumentou que um dos “crimes” do WikiLeaks seria “não ter dado tratamento jornalístico” aos documentos secretos do governo americano.   

Que tratamento jornalístico seria esse, eu não sei dizer. Sei dizer, porque estava lá, que houve muito trabalho editorial idêntico ao que fazemos em redações pelo mundo. Primeiro, um exaustivo trabalho de verificação sobre a autenticidade dos documentos; depois, uma análise cuidadosa sobre sua relevância; depois, priorização; formação e coordenação de parcerias com veículos jornalísticos; discussão sobre temas a serem abordados e documentos a serem usados; discussão editorial sobre como abordar cada tema; escrita, revisão e publicação. 

No caso do Cablegate, o projeto que tratava dos cabos diplomáticos, uma dezena de jornalistas independentes como eu publicavam reportagens no próprio site do WikiLeaks, propondo e discutindo-os antes com Assange ou sua equipe editorial, Sarah Harrison e Joseph Farell.  Aqui no Brasil, quando O Globo e a Folha publicavam uma reportagem, exatamente ao mesmo tempo o site do WikiLeaks publicava um texto meu sobre os mesmos documentos; discutíamos tudo conjuntamente. 

Que diabos será esse tratamento jornalístico que faltaria ao WikiLeaks ou a Assange, como se ele tivesse um defeito moral, um pecado original que o afastaria de todos nós que pertencemos à casta dos jornalistas? 

E aí eu volto ao meu juramento: “procurando levar ao leitor, ouvinte ou espectador o relato fiel dos acontecimentos”. 

Publicar a verdade.

 

Em toda essa poluída e enviesada discussão sobre o WikiLeaks, perdeu-se talvez o valor mais fundamental do que é o trabalho jornalístico: buscar publicar a verdade.
   

Não há nenhum, absolutamente nenhum registro de que o WikiLeaks tenha publicado algum documento falso, adulterado, mentiroso – o que sabemos que muitos veículos de imprensa já fizeram, erroneamente (não preciso aqui lembrar da ficha criminal falsa de Dilma publicada pela Folha de S Paulo). 

Publicar documentos verdadeiros e fiéis aos acontecimentos dá trabalho. Muito trabalho. Trabalho jornalístico. 

O que talvez falte a Assange não é uma lealdade absoluta aos fatos, portanto. Talvez, pelo contrário, seja a ausência de lealdade aos cânones do jornalismo tal como ele chega, decadente, ao século 21.  
 
O jornalismo é uma profissão eivada de questionamentos éticos profundos, muitos deles não resolvidos, sobre os quais passa-se horas e horas em congressos mundo afora a se discutir. 

Mas diferentemente de muitos jornalistas que eu conheci, Assange nunca se satisfez com respostas simples. Questionava tudo. Sempre me provocou a refletir sobre o que estávamos fazendo. Me tirou do eixo. Me fez ser uma jornalista melhor. 

Julian nunca duvidou da relevância dos documentos do governo americano, que revelaram abuso de poder, assassinatos de civis não contabilizados no Iraque, erros militares no Afeganistão e conchavos com governos corruptos no mundo todo. Mas ele sempre foi uma pessoa difícil de trabalhar, absolutamente alheio a considerações do tipo: “isso vai dar problema”, “não é essa a prática”, ou “O Guardian e o New York Times vão ficar putos”, conselhos que eu ouvi dezenas de vezes de sua equipe. 

Aferrado à sua visão lógica do mundo – Julian é portador da síndrome de Asperger – debater questões éticas, “senãos” e “poréns” com ele era um inferno.  

Lembro-me da tarde em que discutimos sobre os trechos dos telegramas que haviam sido censurados pela equipe do Guardian. 

(Para o leitor entender a mecânica de publicação: todos os jornais parceiros tinham acesso ao site de publicação do WikiLeaks, e era responsabilidade deles ler cada um dos documentos e tarjar apenas os nomes cuja publicação pudesse expô-los a riscos de segurança. O Guardian acabou censurando mais do que isso: em muitos documentos, pessoas poderosas ou nomes de organizações foram tarjados. Assange estava furioso.)

Eu tentava explicar que ser excessivamente cauteloso era também uma ponderação necessária ao jornalismo, pois não gostamos de prejudicar ninguém.
Ele argumentava que isso era proteger interesses de poderosos. Dizia ainda que o objetivo de postar os documentos era que o público pudesse fazer sua checagem coletivamente, desvendando ainda mais histórias; censurá-los ia contra o espírito do WikiLeaks. 

Eu disse algo sobre a publicação desenfreada de documentos, que talvez fosse desleixada e não cautelosa. Ele me olhou fixamente nos olhos: 

– Então o bom jornalismo se define não pelo que publica, mas pelo que deixa de publicar?  

Em outro momento, foi Assange quem me ajudou a resolver um dilema ético que só poderia se apresentar no século 21.  

Em março de 2012, o WikiLeaks convidou a Agência Pública a fazer uma parceria, analisando um conjunto de documentos da empresa de inteligência Startfor, que vende boletins para forças militares globalmente. Eram emails internos da empresa, e haviam sido hackeados. 

Aquilo me deu enorme angústia. Tínhamos o direito de ler documentos privados, ainda mais frutos de hackeamento?

Foram dias de hesitação e um gosto amargo na boca, até que nossa equipe de repórteres encontrou a chave. Os documentos revelavam que havia uma analista bonitinha que era enviada como “isca” para vender os serviços da empresa junto a militares babões de diferentes países. Como os do Brasil. A femme fatale Reva Bhalla e suas visitas ao GSI durante o comecinho do governo de Dilma Rousseff foram o objeto da nossa reportagem

Um retrato fiel aos fatos. 

Anos depois, lembrei muito de Assange quando entramos na parceria com o Intercept para analisar os diálogos dos procuradores da Operação Lava Jato. Ali havia diálogos sensíveis, pessoais, marcantes, mas também um quebra-cabeças que precisava de (muitos) jornalistas para ser montado. Daquela vez não hesitei: se há um fato de interesse público a ser revelado, é isso que devemos fazer. 

Está no nosso juramento.

Aqui na Pública, com a inestimável repórter Alice Maciel, publicamos mais de dez reportagens, aliando-nos aos jornalistas de diversas outras redações convidados pelo Intercept para analisar os documentos. Não é exagero dizer que se não fosse esse vazamento, o Brasil hoje seria outro.  
Publicar informação de interesse público, me ensinou Assange, nunca foi uma opção; é nossa obrigação.


    


Natalia Viana
natalia@apublica.org
Diretora Executiva da Agência Pública

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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