terça-feira, fevereiro 27, 2024

Fala de Nikolas ao lado de Bolsonaro expõe direita acuada e mira mobilização

 Foto: Zeca Ribeiro/Arquivo/Agência Câmara

O deputado federal Nikolas Ferreira27 de fevereiro de 2024 | 06:43

Fala de Nikolas ao lado de Bolsonaro expõe direita acuada e mira mobilização

BRASIL

A fala do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) de que talvez as atuais gerações não vejam novamente um presidente da República de direita, feita ao lado do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) na avenida Paulista no domingo (25), foi além da admissão de que o segmento passa por dificuldades.

Para políticos e pesquisadores ouvidos pela Folha, a mensagem reforçou a ideia de perseguição e sufocamento do campo conservador com as investigações sob a guarda do STF (Supremo Tribunal Federal) e busca estimular a base bolsonarista a se manter mobilizada, apesar das incertezas.

Um dos poucos a discursarem na manifestação, Nikolas fez alusões à Bíblia, pregou perseverança e disse aos correligionários que a atual geração ficará marcada como a dos que “persistiram e não desistiram”.

“Moisés não chegou a ver e entrar na terra prometida, mas teve um jovem chamado Calebe que entrou. Se não fosse a força de Moisés, Calebe não teria entrado. Talvez nós não veremos o Brasil prometido, mas os nossos filhos, os filhos dos nossos filhos, verão um Brasil novamente verde e amarelo”, afirmou.

“Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas um dia nós veremos um presidente de direita retornar à Presidência da República do nosso país.”

O parlamentar reforçou os termos ao postar no X (antigo Twitter) que “falou com o coração” quando estava no caminhão de som. “O Brasil prometido depende de nós. Talvez não hoje, talvez não amanhã, mas venceremos”, escreveu, lembrando a todo tempo de um inimigo a ser combatido.

“Cada geração tem um propósito. A nossa tem o objetivo de fortalecer a próxima”, reiterou ele em entrevista à revista Oeste nas imediações do ato.

Outros representantes da direita negaram constrangimento, disseram concordar com a avaliação de Nikolas —apesar de verem algum exagero— e atribuem o cenário a uma ofensiva que estaria unindo o STF, sobretudo o ministro Alexandre de Moraes, e o governo Lula (PT) para sufocar o campo rival.

“Gostei muito da fala”, diz o deputado estadual Cristiano Caporezzo (PL-MG).

“Nós estamos lutando hoje e acreditamos que vamos ter a vitória. Não quer dizer que necessariamente irá demorar várias gerações, mas que, ainda que venha a demorar, não vamos arrefecer nem perder nossa força de vontade. Vou lutar para que aconteça na próxima [eleição], mas o tempo não depende de mim.”

Segundo o aliado de Nikolas, a má fase se deve a “forças muito grandes”, com “pessoas extremamente poderosas que estão utilizando o poder que têm para esmagar o Estado democrático de Direito e os direitos humanos e políticos [da direita]”. Questionado, o mineiro diz estar se referindo a Moraes.

O vereador Rubinho Nunes (União Brasil-SP) afirma ter a mesma preocupação de Nikolas, em virtude “dos excessos praticados, da leniência de setores que deveriam se impor e da sanha autoritária por parte dos poderosos, especialmente PT e Lula, que ameaçam a alternância de poder”.

Nunes, que vê a inelegibilidade de Bolsonaro como o principal exemplo da perseguição política aos conservadores e considera “uma falácia” a minuta do golpe, diz que o diagnóstico feito pelo deputado na Paulista soa como um alerta.

“É necessário que o nosso campo tenha perseverança e que comece a semear algo que talvez eu não veja [dar resultados], mas que vai aprontar esse retorno [à Presidência]”, afirma o vereador da capital paulista.

A ex-deputada estadual Janaina Paschoal diz não ser “tão fatalista” quanto Nikolas na leitura de que um novo presidente de direita pode demorar várias gerações. No entanto, a advogada, que no mandato (2019-2022) conciliou acenos aos conservadores e críticas pontuais ao então presidente, reconhece que a eleição de 2026 será difícil para a direita, “justamente pelos excessos de Bolsonaro e do bolsonarismo”.

O discurso do deputado também foi visto por alguns como uma espécie de anúncio antecipado de uma pré-candidatura dele ao Planalto —o que só poderia ocorrer a partir de 2031, já que ele não tem a idade mínima (35 anos) para concorrer ao mais alto cargo da República.

Seguidores o saudaram como “futuro presidente” em postagens com trechos da fala na Paulista. A reportagem não conseguiu contato com o parlamentar nesta segunda-feira (26).

Na esquerda, as palavras de Nikolas que pintam um futuro sombrio para a direita foram analisadas com cautela. O discurso nos bastidores é o de que o bolsonarismo, embora momentaneamente combalido, tem condições de dar demonstrações de fôlego nas eleições municipais de outubro.

O próprio Bolsonaro, ao se dirigir aos manifestantes, citou o pleito deste ano: “Vamos caprichar no voto, em especial, para vereadores e prefeitos também. E nos preparemos para 2026. O futuro a Deus pertence”. Inelegível, o ex-mandatário não indicou até o momento quem seria seu sucessor.

“No que depender do PSOL, nenhum projeto autoritário e antipopular voltará a governar o Brasil”, diz a presidente nacional do partido, Paula Coradi, ao ser instada a comentar a fala do parlamentar.

“O fato é que a direita e a ultradireita não têm projeto para o país. Seu poder político se baseia na tática do medo para mobilizar o eleitorado conservador com pautas de costumes baseadas em mentiras”, segue a dirigente do partido que tem Guilherme Boulos como pré-candidato a prefeito de São Paulo.

A socióloga Esther Solano, que é professora da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo) e estuda o bolsonarismo desde 2017, enxerga no discurso de Nikolas o reconhecimento de que “termina um período” em que a direita é liderada por Bolsonaro, enquanto se abre uma disputa por seu espólio político.

Para a pesquisadora, o ex-presidente “enfrenta problemas que são inegáveis até para a própria base dele” e está em curso um debate entre os simpatizantes sobre “o bolsonarismo sem Bolsonaro”.

Ela diz que, ao entrevistar cidadãos bolsonaristas, inclusive de perfil mais radical, sobre o futuro, ouve também analogias bíblicas e a previsão de que o grupo atravessará “um longo deserto”. Parte deles considera, inclusive, que Lula poderá ser reeleito ou fazer seu sucessor.

“Há uma estratégia [de Nikolas] para manter a base aquecida, o que se faz basicamente com simbologia. Vemos esse tom cristão, com moralização da política, guerra espiritual e ideia de bem contra o mal.”

Na ótica do cientista político Jorge Chaloub, professor das universidades federais do Rio de Janeiro e de Juiz de Fora, a mobilização dos apoiadores foi um dos eixos da manifestação. “Ele [Nikolas] está tentando acenar para ele mesmo. É um discurso interessado, de alguém que fala em líderes do futuro e ao mesmo tempo se apresenta como um candidato a ocupar esse posto”, diz.

Joelmir Tavares/Folhapress

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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