domingo, dezembro 23, 2007

PSDB não dará trégua a Lula

Karla Correia BRASÍLIA
O senador Sérgio Guerra (PSDB-PE) encarou um batismo de fogo na sua chegada ao comando do PSDB. Menos de um mês depois de eleito presidente do maior partido da oposição ao governo, teve que equacionar o embate entre senadores e governadores da legenda, que assumiram lados opostos no debate em torno da votação da CPMF. Passada a batalha, Guerra se esforça para transformar em louros a vitória obtida e evitar que as fissuras no relacionamento entre as estrelas do alto tucanato prejudiquem o ganho político obtido com a queda do imposto do cheque. Afirma categoricamente que o PSDB está unido, às vésperas do ano de eleições municipais e a despeito da queda de braço entre dos nomes de peso da sigla - José Serra e Geraldo Alckmin - para definir a candidatura à prefeitura de São Paulo. E promete endurecer ainda mais o discurso contra o governo, caso o presidente Lula descumpra a promessa de não elevar alíquotas de impostos para cobrir o buraco na arrecadação causado pelo fim da CPMF. A seguir, os principais trechos da entrevista concedida por Sérgio Guerra.
O PSDB acabou tendo uma participação decisiva na queda da CPMF. Quais são os frutos políticos mais imediatos dessa vitória sobre o governo?
Para nós, o mais importante é que essa vitória produza o reconhecimento, pelo governo, de que a política do toma lá-dá-cá, aquela que se faz com os parlamentares, não com os partidos, que produziu ao longo dos últimos anos sucessivas crises, não dá certo. E que se a relação se desse entre partidos na discussão de interesses coletivos para concordar ou não concordar, mas para valorizar o Congresso e a democracia.
O senhor acredita que o episódio ajude a melhorar a relação entre Senado e o Planalto?
Depende do governo. Se o governo não se achar, e acabar com aquela atitude, que não deu certo, de cooptar parlamentares, de desfazer partidos, ele tem chance de estabelecer uma relação sem crise. Isso é fundamental para o Congresso e para a sociedade. Os últimos cinco anos foram recheados de confrontos dessa natureza. O mensalão é só o exemplo mais agudo e o mais representativo de uma política que não deu certo em votação de matérias importantes para o governo. Espero que a lição tenha sido compreendida.
E o senhor acha que foi?
Ainda está cedo demais para avaliar, mas reconheço que existem chances de dar certo. Se não der, pior para o governo. Pior para o país.
O resultado fortaleceu os partidos oposicionistas?
Mais do que isso, deixou claro que o governo não é absoluto. E que a oposição pode impor derrotas, inclusive em matérias importantes. Acredito que o Planalto tenha perdido um pouco da sensação de invulnerabilidade que o cercava.
A oposição estava precisando disso?
E como! Mas eu digo mais, a democracia estava precisando disso. A oposição retomou o ânimo, deu uma demonstração de força.
Essa retomada pode influenciar as eleições de 2008?
O que eu falei antes tem a ver com isso. O governo vai propor cortes no início de um ano com características diferenciadas, com eleições nos municípios. Vamos estudar qual a natureza desses cortes. Se houver uma proposta de corte nas despesas inúteis, nas obras inúteis, nos investimentos eleitoreiros, nas despesas eleitoreiras, no aparelhamento do Estado, estaremos em um rumo acertado.
O senhor falou em cooptação de partidos. O governo foi muito agressivo na atração de políticos?
Não fosse a interferência da Justiça Eleitoral, com o julgamento sobre a questão da fidelidade partidária, teríamos um projeto acabado e bem-sucedido do governo sobre a desestruturação dos partidos da oposição. Essa variável influenciou muito os ânimos na votação da CPMF, não só naqueles casos em que as legendas pressionaram seus dissidentes a votar, mas também na disposição interna dos partidos.
Como foi isso?
O governo simplesmente não negociou. Na Câmara, o que aconteceu foi a política da cooptação pura e simples, até mesmo nas ditas legendas aliadas. Furnas entrou nesse negócio, a nomeação do Luiz Paulo Conde para a presidência da estatal é um exemplo claro do que eu digo. No Senado, o governo entrou no jogo achando que ia ganhar, mesmo ciente das dissidências em sua base. De novo, não negociou com os partidos de oposição, com o PSDB em particular. Quando viu que não ia ganhar, o presidente Lula, enfim, trabalhou pela negociação. Mas aí já não havia tempo material para possibilitar nenhum avanço no diálogo.
E até quando esse diálogo seria possível?
As propostas que eles adotaram no final, como a prorrogação da CPMF apenas por um ano e fazer a reforma tributária, foram apresentadas no começo por nós. Quando eles achavam que iriam ganhar sequer cogitaram discutir essas idéias. Voltaram a elas três dias antes da votação, aí já não era mais tão fácil para o partido voltar atrás. As pessoas já tinham se posicionado de uma forma praticamente irreversível, os discursos já haviam avançado e, por último, não havia base legal para garantir o acordo. Qualquer medida verdadeiramente garantidora implicava voltar com a CPMF para a Câmara. E não havia mais tempo. Projetos a posteriori não seriam aceitos como garantia.
O partido chegou a firmar um acordo com o governo e depois recuar?
Não... é preciso entender que o nosso partido não tem dono. E faz tudo à luz do dia. Mas, do primeiro ao último dia, eu afirmei que a bancada daria seus 13 votos e que votaria unida. Nós nunca cogitamos nos dividir, e demos os 13 votos contra sem nenhum constrangimento. Era essencial votar unido, era um sinal muito importante para nós.
A bancada estava unida, mas o partido não...
Os governadores estavam do lado do financiamento da saúde, da solução definitiva para o setor. Era um ponto de vista, mas que não foi totalmente adotado pela bancada.
Nesse ano o Judiciário acabou assumindo um papel que seria do Congresso, ao impor as regras de fidelidade partidária. Onde está a discussão da reforma política, que sempre foi uma bandeira do partido?
A primeira grande oportunidade de se fazer a reforma política foi perdida no primeiro governo do presidente Lula. Ao invés de fazer a reforma e moralizar as relações entre partidos, ele preferiu cunhar uma solução própria e fez o mensalão. Achou que não precisava de uma reforma política formal para governar, para mudar a forma de se relacionar com os partidos. E dá a impressão, agora, de que pensa o mesmo da reforma tributária.
Mas o governo não tem afirmado com freqüência sua intenção de fazer a reforma tributária?
Essa expressão tem sido usada como uma bandeira, não existe até agora uma expressão concreta de vontade política do governo. Na primeira tentativa, ele fatiou a reforma, votou o que lhe interessava e depois parou. O governo só admitiu a reforma tributária, só voltou a falar no assunto quando viu que não tinha voto para aprovar a CPMF. Agora, voltando ao outro tema, eu acho que uma mudança da democracia do Brasil, para melhorá-la, passa pela reforma política, necessariamente.
É bom lembrar que o partido enfrentou também um problema relacionado com a questão do financiamento de campanha, no caso do chamado mensalão mineiro, com o senador Eduardo Azeredo (PSDB-MG)...
Sim. Existe uma denúncia que está sendo analisada no lugar adequado. Na Justiça, e não com um julgamento político. Eu tenho completa confiança de que o senador não tem culpa.
O PSDB também?
O PSDB acredita no político Eduardo Azeredo, eu também e o povo de Minas também. O Senado inteiro também. Ele é uma pessoa honesta, pronto! Isso é muita coisa.
Por que, então, o Fernando Henrique Cardoso economizou tanto nas palavras, na defesa do senador Eduardo Azeredo durante a convenção do partido?
Nós todos combinamos de afirmar o mesmo conteúdo em relação ao Azeredo. O Fernando Henrique também. Uns foram mais incisivos, outros menos. É mais questão do jeito de se falar, de estilo pessoal.
Isso não mostra uma divisão de opiniões sobre o caso dentro do partido?
Não, de forma nenhuma.
Então hoje não há rachaduras que preocupem o PSDB?
Existem, mas muito menos do que houve no passado. A disputa mais notória hoje é entre os governadores de Minas e de São Paulo. Estou há um mês na presidência do partido e falo com franqueza que ainda não senti reflexo nenhum dessa disputa. Não percebi essa disputa. Pelo contrário. Na CPMF, por exemplo, o posicionamento deles foi coincidente.
E a queda de braço entre o governador José Serra e Geraldo Alckmin para definir a candidatura do partido à prefeitura de São Paulo?
É uma disputa, não uma rachadura. Isso o diretório local vai resolver. Isso é democracia interna do PSDB. Não existe racha no partido. É uma coisa muito engraçada que acontece com o PSDB. Tem uma disputa pela liderança do partido na Câmara e todos já falam em racha. Por que? Ora, em todos os partidos acontece isso
Por que o senhor acha que o PSDB tem essa imagem de legenda sempre às voltas com guerras internas?
Porque é um partido aberto, onde todos podem falar e que tem muitos nomes influentes. E é da nossa natureza expor esses pontos de vista. Ficamos vulneráveis a essa interpretação de racha, mas é o nosso método.
O senhor acredita na promessa feita pelo governo de não elevar as alíquotas dos impostos?
Eu acho que até fevereiro o presidente Lula não mexe com imposto. Depois, ninguém sabe o que vai acontecer. Se o governo tiver uma atitude diferente da de sempre, uma posição responsável no cumprimento de compromissos, vai amadurecer o diálogo com a oposição. O ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que a reforma tributária está pronta. Eu acredito no ministro. Ele disse, durante as negociações pela CPMF, que era uma questão de dias o envio da reforma ao Congresso. Até fevereiro, é um montão de dias. Mas nós demos o nosso voto de confiança.
E se, no final, houver aumento nos impostos...
A situação política nos próximos três anos vai ficar muito ruim.
Fonte: JB Online

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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