quarta-feira, outubro 29, 2008

Sem esquecer os futuros governadores

Por: Carlos Chagas

BRASÍLIA - Convém não esquecer que 2010 será ano de eleição dos novos governadores, não apenas do futuro presidente da República. Sem falar nos senadores e deputados, federais e estaduais.
Vamos ficar nos governadores, hoje com ênfase para São Paulo, Rio e Minas. José Serra foi o grande vitorioso, domingo, mas Gilberto Kassab é do DEM e já declarou que permanecerá os quatro próximos anos na prefeitura de São Paulo. Abre-se um problema para o governador: candidato à presidência da República, quem o PSDB indicará para o Palácio dos Bandeirantes? Por enquanto não tem ninguém, dada à resistência de Serra diante de Geraldo Alckmin, sem falar que o ex-governador vai-se acostumando a ser derrotado. Não há tucanos à vista no horizonte paulista.
No PT acontece coisa igual. Marta parece fora do páreo, menos pela derrota de três dias atrás, mais pela impressão de arrogância que continua despertando causa de sua rejeição. O ex-marido, Eduardo Suplicy, não conta com a boa vontade dos companheiros, e Aloísio Mercadante precisa que esqueçam suas performances recentes. É cedo demais para Luiz Marinho e outros prefeitos entrarem na relação. Paulo Maluf, esbanjando competência, competirá outra vez, com as mesmas possibilidades recentes.
Resultado: o partido do presidente da República, tanto quando seu maior adversário carecem de nomes palatáveis, ainda que em um ano a situação possa mudar.
No Rio, a possibilidade do PMDB seria tentar reeleger Sérgio Cabral, mas se ele for indicado como candidato a vice-presidente, na chapa do PT, não hesitará um minuto. Garotinho não tem chance, Rosinha dificilmente arriscaria trocar o certo, na prefeitura de Campos, pelo duvidoso, no palácio Guanabara. O entusiasmo dos que votaram em Gabeira faz supor nova tentativa do ex-guerrilheiro, agora mais ampla, mas ele não é homem de aventuras e terá se ressentido da falta de estruturas políticas para disputar cargos executivos.
Os tradicionais Marcelo Crivela e Jandira Feghali poderão tentar novamente. Na antiga capital, como em São Paulo, falta renovação. Os quadros são os mesmos. Em Minas, o prefeito Fernando Pimentel aspira à indicação pelo PT, mas ficará dois anos ao sol e ao sereno, período em que o governador Aécio Neves poderá fechar-lhe o guarda-chuva da estranha aliança celebrada em Belo Horizonte. Em especial porque o ministro Patrus Ananias conta com a simpatia de Brasília. No PMDB, Hélio Costa tentará outra vez. Nas Gerais, os tucanos não voam, pulam de galho em galho.
Em suma, numa visão preliminar e sujeita às retificações do tempo, faltam candidatos de peso a governador, nos estados mais populosos do País. Quem sabe o fenômeno acabará revelando seu lado positivo, em favor da renovação?
Não se emenda
No meio da confusão criada por certos resultados decididos à última hora nas prefeituras, domingo, quem perdeu excelente oportunidade de ficar calado foi Fernando Henrique Cardoso. Porque em vez de falar de eleição o ex-presidente optou pela crise financeira mundial, batendo firme no presidente Lula. Criticou a recente decisão da equipe econômica de ajudar bancos e empresas falidas com dinheiro público, através da compra de ações pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica.
Ora, quem inaugurou essa farra com dinheiro do povo brasileiro foi ele mesmo com o Proer. Livrou a cara de montes de especuladores, salvos pelo seu governo. Como admitir que esteja falando sério, a não ser sob os efeitos de um surto de esquecimento?
Mesmo assim...
Os institutos de pesquisa tomaram juízo e, na reta final do segundo turno, acomodaram seus números comas tendências do eleitorado, mesmo apresentando essa abominável "margem de erro", que já foi de quatro, mas agora ficou em dois pontos, "para cima ou para baixo".
Para não dizer que não erraram, porém, tome-se o que uma dessas empresas divulgou sábado em São Paulo, corrigindo depois na tal boca-de-urna, domingo: Kassab teria 56% da votação, Marta, 40%. Ora, o atual prefeito ganhou com 60,81%. A diferença ultrapassou de muito a margem de erro, como sempre não podendo ser debitada ao eleitorado, mas à empresa, mesmo...
Não engoliram
De quando em quando o ex-ministro José Dirceu sai da toca e de seu blog, avançando bissextas entrevistas. Dessa vez, indagado sobre as possibilidades de Dilma Rousseff como candidata, ele começou dizendo que a indicação caberá ao presidente Lula, de quem pouquíssimos companheiros divergem.
Mas acrescentou que a escolha precisará ser discutida, debatida, consolidada e depois decidida. Desde que, foram suas palavras, Dilma "aumente sua taxa de conhecimento". Para bom entendedor, o ex-chefe da Casa Civil não engoliu até agora a candidatura de sua sucessora no palácio do Planalto. O que Dilma precisaria conhecer mais? Os aliados do PT ou o próprio PT?
O ministro Tarso Genro é outro petista que se curva à possível decisão do presidente Lula, mas prefere enfatizar a transferência de popularidade e de votos para Dilma, evitando por enquanto ressaltar as qualidades da candidata. Para ele, o PT não admite o raciocínio de que José Serra é o favorito. Haverá que disputar voto a voto, na hora certa.
Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas