quinta-feira, outubro 30, 2008

O primeiro grande teste

Por: Carlos Chagas

BRASÍLIA - Assentada a poeira das eleições municipais, voltam-se as atenções para o primeiro grande teste a que se submete o governo Lula desde o longínquo janeiro de 2003. Porque, apesar de explosivos, viraram fumaça o mensalão, as quedas de José Dirceu e Antônio Palocci, até a plácida reeleição de 2006. Não sobrevieram, desde a primeira posse, crises econômicas mundiais capazes de nos atingir.
Agora é diferente. Fomos atingidos. Desenvolve-se grave crise econômica, em condições de consagrar ou de destruir o governo Lula e sua popularidade. O País, também. No comportamento do Palácio do Planalto e adjacências estará a chave para a sucessão presidencial de 2010. Fator até menos importante do que as conseqüências de uma débâcle da economia nacional.
Criatividade e coordenação tornam-se a maior necessidade, neste final de ano e nos dois anos seguintes. Haverá que enfrentar a crise com mecanismos próprios, brasileiros, sem perder de vista o que fazem outros países diante do mesmo desafio.
Adianta pouco o governo ficar alardeando não haver restrição no crédito, porque há. Os bancos, mal ou bem, defendem-se e são defendidos. Já impuseram seletividades férreas na concessão de empréstimos rigorosas e, a arriscar, preferem comprar títulos do governo. Ao mesmo tempo, credenciam-se para receber dinheiro fácil dos cofres públicos, apesar das afirmações do próprio presidente de não estar ajudando quantos especularam com o dólar futuro. Está, porque todos especularam, no sistema financeiro e nas grandes empresas privadas e públicas.
Em paralelo, é imprescindível o governo uniformizar o seu discurso. Presidente, ministro da Fazenda, Banco Central, BNDES e penduricalhos precisam unificar ações e afirmações. Chega de ficarem batendo cabeça.
Passou o prolongado período das vacas gordas, da multiplicação das exportações, do agronegócio, da expansão de empresas como a Vale e a Petrobras, da indústria automobilística e outras. Agora, o Luiz Inácio precisa ser rebatizado de José, aquele primeiro-ministro do faraó, referido na Bíblia. E se o nosso presidente não poupou como o outro, pior ainda.
Abrem-se dois cenários principais, na dependência do sucesso ou do malogro daquilo que o governo vier a fazer para enfrentar a crise. Dando certo, dificilmente deixará de crescer a importância de os atuais detentores do poder continuar onde estão, seja através de uma candidatura tipo Dilma ou por meio da tese do terceiro mandato, da prorrogação por dois anos ou coisa parecida. Não se muda a tripulação do barco em meio à tempestade.
No reverso da medalha, sobrevindo o empobrecimento nacional, a inflação, as falências, o desemprego e a desilusão, não haverá como evitar a vitória de um candidato de oposição, muito possivelmente José Serra. Em suma, está o governo numa encruzilhada.
Até que ele aceita
Admitiu o presidente Lula que não premiará nem punirá vencedores ou derrotados nas eleições passadas. Traduzindo: não abrirá mais espaço para o PMDB, dado o aumento dos votos e das representações do partido, assim como não reconvocará Marta para o ministério.
Atribui-se ao presidente outra diretriz: não exigiria do PMDB apoio irrestrito e fechado a uma candidatura do PT para a presidência do Senado, no caso, Tião Viana. Acomodar-se-ia à decisão do maior partido nacional de presidir as duas casas do Congresso, em especial em torno de Michel Temer e de José Sarney.
O diabo para Lula é como conter a reação entre os companheiros, mas já se sabe que seus deputados não declarariam guerra ao PMDB por conta dos reclamos de seus senadores. Os companheiros sabem quando ser radicais e quando botar na cabeça o chapéu da conciliação.
A aglutinação de senadores em torno de Sarney transcende a bancada de seu partido. Ontem mesmo, o presidente do PSDB, Sérgio Guerra, declarou a disposição de sua bancada no Senado apoiar o ex-presidente, da mesma forma como se oporá à candidatura de Tião Viana. O mesmo deve acontecer com o DEM, e a razão parece uma só: as oposições começam a namorar o PMDB, que se integra à aliança governista e apóia Lula, quem sabe não mude de postura até 2010, apoiando Serra? Tudo depende de negociar...
Lições de Milton Campos
Teria sido bem diferente a história do Brasil no caso da vitória de Milton Campos, da UDN, em 1960, candidato que era a vice-presidente na chapa liderada por Jânio Quadros, apoiado por diversos partidos. Naqueles idos, votava-se em separado para presidente e para vice. Era candidato pelo governo o marechal Teixeira Lott, com João Goulart, do PTB, para vice. Um terceiro candidato disputava o cargo, Fernando Ferrari, dissidente do PTB.
O resultado foi a vitória de Goulart, peça chave para o golpe intentado por Jânio Quadros em agosto de 1961, quando renunciou imaginando que o povo o reconduziria dois dias depois, como ditador. Renunciou por saber que os militares não admitiriam a posse de João Goulart. Assim, tivesse Milton Campos sido eleito, o presidente nem pensaria em renunciar.
Tempos depois, já no Senado, pediram ao dr. Milton explicações sobre por que havia perdido a eleição, não tendo o mesmo número de votos de Jânio Quadros. Esperavam que ele vibrasse tacape e borduna no lombo do renunciante, então cassado e no ostracismo, mas preferiu a resposta mais educada e verdadeira: "Porque o meu adversário teve mais votos do que eu...".
A história se conta para ajudar a fazer cessar as mil e uma explicações e protestos pelas derrotas de domingo passado. Gabeira, Marta, Maria do Rosário, Leonardo Quintão e outros perderam porque seus adversários tiveram mais votos. Ponto final.
Homenagem ao comandante
O presidente Lula estará em Cuba, neste fim de semana. Se Fidel Castro estiver bem de saúde, irá visitá-lo. Prevista há meses a viagem, não deixa de ser singular a coincidência com a proximidade da reunião de Lula com o presidente George W. Bush e outros potentados do mundo rico, em Washington. Não se adotará a imagem de estar uma vela sendo acesa para Deus e outra para o Diabo, até porque existem dúvidas sobre quem é quem, nessa peregrinação pelo Hemisfério Norte. Mas o Aerolula voltará ao Brasil com um certo cheiro de enxofre...
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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