terça-feira, outubro 28, 2008

Pela manhã, Wagner atacou Geddel

Tribuna da Bahia Notícias-----------------------
O governador Jaques Wagner (PT) não diz, mas também não é necessário dizer. Na noite do último domingo e pela madrugada de ontem, no Largo de Sant’Anna, histórico ponto de comemoração, ou velório, de campanhas petistas, chovia de mesa em mesa, de boca em boca: “Com Geddel, não dá... Ele está criando uma cobra em casa”. O que Jaques Wagner não diz em público, mas está no ar por toda a Bahia, é que seu governo caminha para o rompimento com o PMDB do ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima. Isso complica o jogo no plano nacional, a aliança com o PMDB que Lula ensaia para a sua sucessão? Complica, mas ainda que não diga, muito menos em público, esse é um fator que o governador Jaques Wagner não mais levará em conta. Nesses paradoxos que a política propicia, a derrota de Wagner o liberta. O ministro da Integração jogou centenas de milhões para tirar do chão da impopularidade um prefeito, João Henrique, que até então fazia uma administração pouco mais que medíocre. Em nome da governabilidade e dos compromissos maiores para 2010, Jaques Wagner viu-se enredado por um tempo excessivo. O seu estado de espírito agora pode ser detectado com clareza na frase de entrevista que se segue: - Geddel, pelo que tudo indica, está construindo 2010, o que é um direito dele. Só que, obviamente, ele não irá construir 2010 dentro do meu governo. O presidente Lula comemora hoje 63 anos. Hoje, estará em Salvador, e com Wagner. Viagem marcada já há muito para compromissos luso-brasileiros. É provável que o delicado assunto PMDB versus PT na Bahia e as conseqüências para 2010, ainda que no ar como uma assombração, não desçam à mesa das conversas do Palácio de Ondina. Terra Magazine - Governador, e aí, qual é o resumo da ópera? Jaques Wagner - Eles construíram uma aliança com o DEM que deu certo. Se você for ver a votação, foi a soma dele com ACM Neto. Prosperou a aliança PMDB-DEM, embasada numa lógica anti-petista. Terra Magazine - Foi uma aliança pró-prefeito João Henrique ou anti-petista? jw - Foi uma aliança contra o meu governo, contra o PT, e nisso o ACM (NR: o Neto) encaixou bem. Foi isso que aconteceu, e eu não tenho nada para reclamar. Só que eles agrediram ao meu governo e ao PT, desnecessariamente, e aí ficam sequelas que vamos analisar se são superáveis. Terra Magazine - Bem, o sujeito oculto disso tudo que o senhor está dizendo é Geddel... jw - Geddel, pelo que tudo indica, está construindo 2010, o que é um direito dele. Só que, obviamente, ele não irá construir 2010 dentro do meu governo. Terra Magazine - Para quem não sabe, foi um governo eleito com o PMDB de Geddel Vieira Lima, hoje ministro da Integração Nacional. jw - ...Se ele quer ser candidato, e repito que é um direito dele, não será construindo sua candidatura dentro do meu governo. (Por Bob Fernandes)
“Não quero mandar em nada”, diz ministro
A reeleição do prefeito João Henrique (PMDB), em Salvador, projeta uma sombra para a aliança PT-PMDB em 2010. Mas o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, padrinho político do candidato vitorioso, não vê danos imediatos para a parceria com o governador Jaques Wagner (PT). Nem vê dificuldade para o diálogo depois de uma campanha marcada por insultos contra o governo estadual. - 2010 é 2010 - define, em entrevista a Terra Magazine. “Essa questão de Wagner me procurar ou eu procurar Wagner... Eu não sou enamorado brigado com namorada. Esse tipo de coisa é quando a gente está namorando”, complementa o ministro, irritado.Geddel se apressa em desfazer a idéia de uma aliança automática com o DEM, aliado estratégico no segundo turno: - O DEM e ACM Neto escolheram, depois de procurados também pelo PT, o apoio à candidatura de João Henrique e do PMDB, em troca, exclusivamente, de o prefeito absorver quatro pontos do seu programa original. Foi um apoio circunstancial - enfatiza.Com 99% das urnas apuradas, João Henrique conquistou 58,44% dos votos; Walter Pinheiro, do PT, estacionou em 41,56%. Terra Magazine - Com a vitória de João Henrique, quem deve procurar primeiro o outro pra conversar, o senhor ou Jaques Wagner? Geddel Vieira Lima - Querido amigo, essa bobagem não é do tamanho da responsabilidade que nós temos pela frente. Não tenho dificuldade de procurar ninguém, nem deixar de ser procurado. Isso pra mim é uma coisa menor. O compromisso que o prefeito João Henrique vai capitanear nesse processo é com a cidade do Salvador. Essa questão de Wagner me procurar ou eu procurar Wagner... Eu não sou enamorado brigado com namorada. Esse tipo de coisa é quando a gente está namorando. Um homem público, um homem maduro, que tem responsabilidade, faz coisas sérias para o País e minha cidade. Terra Magazine - Como sai o PMDB das eleições, na Bahia? GVL - É evidente que o PMDB sai fortalecido. O PMDB sai com uma grande votação, tanto no interior quanto com a consolidação da vitória de João Henrique. Mas esse fortalecimento não é contra ninguém. É a favor da cidade do Salvador, a favor do Estado da Bahia. Terra Magazine - E sua aliança com ACM Neto e Paulo Souto? GVL - Que aliança? Não houve aliança com ACM Neto e Paulo Souto. A democracia, quando estabeleceu a eleição em dois turnos, ela sinalizou que o eleito deveria ter a maioria da votação do eleitorado. Isso significa dizer que aqueles que não passaram para o segundo turno têm que fazer uma escolha eleitoral. O DEM e ACM Neto escolheram, depois de procurados também pelo PT, o apoio à candidatura de João Henrique e do PMDB, em troca, exclusivamente, de o prefeito absorver quatro pontos do seu programa original. Foi um apoio circunstancial. Aliança nós fizemos com o PTB, que nos forneceu o vice, o professor Edvaldo Brito. E com o PP e o PDT no primeiro turno. Recebemos o apoio. Ponto. Nada pra 2010. Terra Magazine - Em 2010, o senhor e o PT... GVL - 2010 é 2010. Você me liga quando 2010 chegar. Terra Magazine - Como vê a crítica de que o senhor vai mandar mais que o prefeito João Henrique na prefeitura? GVL - Com naturalidade. As pessoas confundem às vezes a característica de humildade e de generosidade do prefeito João Henrique com falta de firmeza. Talvez esse tenha sido o grande defeito dos adversários. A humildade e a generosidade não podem ser confundidas com falta de firmeza. Pelo contrário. Nos debates, ao longo da campanha, ele demonstrou firmeza e capacidade decisória que o conduziu à vitória. Da minha parte, não quero mandar em absolutamente nada. Tenho no prefeito João Henrique um amigo, é da minha geração, conheço os pais... Tivemos divergências, encontros e desencontros... Mas nossa união é algo maior do que qualquer fofoca, qualquer intriga. Terra Magazine - O governador Jaques Wagner se queixou do tom da campanha do PMDB. Achou agressiva e desrespeitosa com o governo estadual. GVL - O governador Jaques Wagner tem direito a se queixar do tom da campanha. Nós nos queixamos do tom da campanha e, no momento em que o governador Jaques Wagner, o líder político do Estado, quiser conversar sobre esses temas todos, nós estaremos sempre abertos, com muita humildade, para sobre eles tratá-los. Até porque o meu compromisso e o do prefeito João Henrique é pra criar todas as facilidades para o presidente Lula levar adiante o projeto de Brasil que tem dado certo. Terra Magazine - Nacionalmente, como fica o PMDB após as eleições municipais? GVL - Houve um crescimento do PMDB nacional, mas o argumento é o mesmo: não pra se imaginar que vai ser utilizado contra quem quer que seja. O crescimento do PMDB, com seu histórico de contribuições à democracia do País, à luta por avanços econômicos e conquistas sociais, só pode ser visto como o crescimento de um partido que tem inegáveis contribuições a dar para o futuro do País.(Por Claudio Leal )
PT erra na análise e coloca em xeque aliança
Fazer política com o fígado, ensinam os antigos mestres, pode eventualmente produzir resultados, mas contraria o princípio básico da arte, que é a soma, a compatibilização de forças e interesses para facilitar aos protagonistas o exercício do poder e a definição de projetos futuros. A realidade, por si só, é conflituosa demais para que governantes e outros entes políticos ajam sob pura emoção ou excesso de autoconfiança. Um exemplo que vale ser citado, pela proximidade temporal e pela relação direta com o recém-findo pleito de Salvador, é o do ex-prefeito Antonio Imbassahy (PSDB). Candidato ao Senado em 2006, desejava ser o único anticarlista da disputa, e por isso não gostou quando se consolidou o nome de João Durval (PDT), pai do prefeito João Henrique, em aliança branca com Jaques Wagner para governador. Qualquer que fosse o resultado, jurou na época, concorreria à prefeitura da capital em 2008. Anúncio meramente hepático, uma ameaça longínqua à reeleição de João Henrique. Imbassahy foi terceiro colocado naquela eleição, perdendo até na cidade que dirigira por oito anos. Dois anos depois, cumpriu a promessa, mas nas mesmas condições anteriores – palanque fraco e carência de recursos – chegou em quarto lugar para prefeito. O tema decorre, ainda, da trapalhada promovida pelo PT na sucessão municipal. A observação da cena política, ao longo de muitos anos, dá a impressão de que o partido jamais foi aliado sincero do prefeito. Seria certo e legítimo que, ante divergências essenciais, tivessem algum dia rompido, mas a análise que se permite é a de que, desde o primeiro dia, os petistas de todas as correntes ingressaram na gestão municipal com hora certa para pular fora, ainda que fosse a última. (Por Luis Augusto Gomes)
Fome de poder fisgou partido
A política que o PT fez na eleição para prefeito não foi exatamente com o fígado, apesar da reserva e do espírito crítico com que muitos de seus próceres enxergavam o prefeito desde o tempo em que ele era deputado estadual. Mais correto dizer que foi feita com o estômago, o que ao menos deixa a questão no campo digestivo: no antegozo do poder integral sobre a máquina pública que o fascinava, o partido perdeu a visão global do processo e achou que poderia encarar ao mesmo tempo dois adversários poderosos. O projeto do governador Jaques Wagner era simples e adequado ao equilíbrio que imprimiu à sua vida pública, ressalvadas performances mais recentes: reconhecendo em João Henrique, diversas vezes, “o candidato natural” de sua base, propunha aos companheiros petistas uma aliança que, no final, tragaria também Imbassahy. Sobraria ACM Neto (DEM) para o enfrentamento. Uma fórmula que possibilitaria a todos pensar e agir com tranqüilidade em relação aos muitos pontos do futuro: a administração do Estado e da capital, a eleição para o governo e o Senado e a própria sucessão do presidente Lula. Tudo agora é história, é assunto para avaliação. A questão é saber que próximos passos serão dados pelos atores numa realidade política que tem três blocos principais. O governador Jaques Wagner ainda opera o papel central, e de uma conversa com o ministro Geddel – que já poderá ter ocorrido – sairiam rotas e ritos mais aceitáveis para o futuro, embora as declarações de ontem de Wagner, sobre Geddel e 2010, não sejam muito animadoras. O DEM e suas estrelas, pongados no bonde, aguardam o desfecho. A vitória em Salvador envaidece Geddel Vieira Lima, que, no entanto, sendo um político paciente, apesar do seu estilo ágil, está mais focado em fortalecer-se que em brigar à toa. Quer consolidar o poder municipal e ampliar a faixa de atuação a bordo de um ministério que é a cara da Bahia. E ver o que acontece. O problema é a ressaca do PT, que tende a potencializar as divergências. Nesse caso, restaria ao partido torcer – e colaborar – para que o governo Wagner chegue a bom termo, com capacidade para ser um interlocutor à altura do aliado. (Por Luis Augusto Gomes)
Geddel tem encontro reservado com Wagner
Menos de 24 horas após ter o seu candidato, o peemedebista João Henrique, reeleito prefeito de Salvador com quase 220 mil votos de frente sobre o petista Walter Pinheiro, apoiado pelo governador do Estado, o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, recebeu um telefonema no começo da tarde, do governador Jaques Wagner lhe propondo um encontro às 17h30 em Ondina. Geddel foi e pelo que durou a conversa eles tinham mesmo o que conversar. Geddel só saiu de Ondina às 21 horas e procurou destacar a cordialidade que marcou todo o diálogo com Wagner. Elegante, sequer registrou o fato de o governador não ter lhe ligado na véspera para parabenizá-lo pela vitória de João. Fez questão de, com seu gesto, mostrar que o calor da disputa pode ter elevado os ânimos entre os dois, mas isto está superado: - O governador é um homem maduro. A eleição terminou neste domingo e não vejo porque levarmos adiante qualquer tipo de divergência. Não vai haver desdobramentos agora e não há razão para mal-estar. Nosso compromisso é de ajudá-lo na Assembléia e devemos assim agir – disse Geddel com ar de estadista. Entre os peemedebistas, o encontro foi considerado oportuno, até porque, segundo eles, partiu todo tempo do governador e do seu grupo os gestos de desatenção e até mesmo de ataque ao prefeito João Henrique e ao grupo. Estão todos registrados numa espécie de cronograma que o presidente regional do partido, Lúcio Vieira Lima, carrega embaixo do braço. Começou com a decisão do PT de abandonar o governo municipal, após 40 meses de convivência e parceria, para lançar candidato próprio. E seguiu com estocadas dirigidas ao prefeito, as mais duras delas na entrevista que Wagner deu ao jornal Valor Econômico, quando o chamou de confuso e que ele não é de compromisso. Isso após a demissão, sem qualquer explicação ou razão lógica, de um diretor da Embasa indicado pelo deputado peemedebista Arthur Maia e os ataque dirigidos ao PDDU, projeto de efetivo interesse da cidade e aprovado quando o PT ainda integrava a base de João na Câmara. - Mas isso é passado. Vamos pensar no futuro, na continuidade dos nossos projetos. Com o passar dos anos, meu pavio em vez de encurtar mais, aumentou – desconversa Geddel, já com os olhos voltados para o amanhã ou para o encontro que terá hoje com o presidente Lula em Salvador, quando estará lado a lado com Wagner: - Temos e teremos identidade própria. A aliança PMDB-PT não se sustenta por cargos, mas sim por projetos. O que nos uniu (a mim e a Wagner) foi uma fraterna amizade e é o que nos sustenta – finalizou Geddel. (Por Paulo Roberto Sampaio-Diretor de Redação)
Fonte: Tribuna da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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