segunda-feira, outubro 27, 2008

Agora, vamos aos especuladores

Por: Carlos Chagas


BRASÍLIA - Enquanto os políticos tentarão adaptar-se aos resultados do segundo turno das eleições municipais, projetando-os de imediato na sucessão presidencial de 2010, existem temas bem mais prementes, mas não menos complicados. O novo mandamento que domina o planeta, sabe-se lá para durar quanto tempo, refere-se à intervenção do estado no mercado, ou seja, do poder público como fator preponderante na economia. Ditada pela necessidade, trata-se de uma inversão completa dos postulados neoliberais agora fluindo pelo ralo.
Há, no entanto, um problema, ou, se quiserem uma safadeza: o estado deve intervir em favor de quem? Não deveria ser dos especuladores, dos dirigentes de bancos e financeiras que arriscaram o patrimônio de seus correntistas e depositantes. Se a culpa pela crise é deles e de sua ambição desmedida, à hora seria de responsabilizá-los e puni-los, no mínimo promovendo seu afastamento da gestão das empresas levadas à falência. Até mesmo a obrigação de arcarem com seu patrimônio no ressarcimento dos prejuízos.
Na Inglaterra e em outros países da Europa a roda começou a girar e atinge os primeiros malandros. Nos Estados Unidos, apenas se anunciou essa disposição, até agora irrealizada. E no Brasil? No Brasil, nada além de desabafos bissextos do presidente Lula contra os especuladores que ele não nomeia nem bota medo.
Aqui, as medidas ditas estatizantes são promovidas de comum acordo com os especuladores, que continuam indo muito bem, obrigado. Porque são eles a mover os cordéis dos marionetes da equipe econômica, evitando-se o constrangimento de citações nominais. Os anunciados 50 bilhões de dólares que o Banco Central utilizará para tentar conter a alta do dólar favorecerão os apostadores do mercado futuro, aqueles que acabam de perder fortunas dos outros, não deles. Sem esquecer que essa olímpica importância sairá de nossas reservas depositadas lá fora, patrimônio público e não particular.
Já sofremos a injustiça de os Estados Unidos e outros países ricos mandarem a conta da crise para o Hemisfério Sul, como demonstra a fuga de dólares e a conseqüente elevação na sua cotação. Pois agora, percebe-se, a sabotagem também vem de dentro. Inexiste um único potentado financeiro que tenha perdido dinheiro. Ao contrário, muitos vão ganhar ainda mais.
No ministério ou na Unesco?
Calçando o salto alto que imaginou estar nos pés de Gilberto Kassab, dona Marta arruma as malas. Poderá voltar para Brasília, ocupando algum ministério, não obrigatoriamente o do Turismo. Corre na Esplanada dos Ministérios, porém, que o presidente Lula poderia compensá-la pelo sacrifício feito na disputa pela prefeitura paulistana nomeando-a para a chefia da representação do Brasil na Unesco, em Paris. No passado já se cogitou dessa hipótese.
Um obstáculo surge, porém, na figura do chanceler Celso Amorim. Desde que demitiu o então embaixador do Brasil em Portugal, Paes de Andrade, o ministro de Relações Exteriores obteve do presidente Lula o compromisso de ninguém fora da diplomacia ocupar embaixadas e postos correlatos, lá fora. A Unesco voltou a ser feudo do Itamaraty desde o retorno de Fernando Pedreira, nos tempos de Fernando Henrique. Designar Marta para aquela representação despertaria amuos na casa do Barão do Rio Branco.
O povo, para onde foi?
Na Espanha, depois de 42 anos de ditadura, o generalíssimo Francisco Franco encontrava-se às vésperas de ganhar o Paraíso. Seus auxiliares buscavam ampará-lo de todas as formas, nos momentos de lucidez. Um deles anunciou o ingresso no hospital de uma comissão de populares empenhada em homenagear o caudilho. Consultado sobre a presença da comissão, que vinha despedir-se, Franco teria indagado:
"O povo veio despedir-se? Para onde vai o povo?"
Guardadas as proporções, em algumas capitais onde se realizaram eleições pelo segundo turno alguns candidatos bem que poderiam perguntar coisa parecida: "O povo? Para onde foi o povo que deixou de me dar o seu voto?"
As próximas pesquisas
Aguarda-se com ansiedade os números das próximas pesquisas que os institutos promoverão, agora sobre a sucessão presidencial de 2010. Apesar de olhadas com desconfiança, dados os resultados mais recentes, as pesquisas ainda poderão indicar tendências.
Quais os percentuais de Dilma Rousseff? Manterá os anteriores 12%, embasada na popularidade do presidente Lula mas contrariado pela má performance no PT nos grandes centros? E quanto a José Serra, bafejado pela vitória de Gilberto Kassab, em São Paulo, mas nem tanto assim no restante do País?
Crescerão de novo Aécio Neves e Ciro Gomes?
Possivelmente não na próxima, mas numa não tão longínqua consulta popular, a pergunta que não quer calar acabará sendo feita: "E se o presidente Lula vier a ser candidato, votará nele?" Muitos companheiros continuam não pensando em outra coisa, agora cientes de que votos dificilmente se transferem.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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