terça-feira, outubro 28, 2008

Alta abstenção põe em xeque processo político

SÃO PAULO - O elevado índice de abstenção no segundo turno das eleições municipais pode ser visto como uma rejeição ao processo político, avalia Marco Antônio Carvalho Teixeira, cientista político e pesquisador da Pontifícia Universidade Católica (PUC) e da Fundação Getúlio Vargas (FGV). Um dos fatores que explicam essa rejeição, no seu entender, é o próprio descrédito que vem contaminando o mundo político, em razão dos sucessivos escândalos.
Segundo o pesquisador, outros fatores também contribuem para este cenário, como a obrigatoriedade do voto, ainda mais quando o eleitor não se identifica ou não vê qualidades em nenhum dos candidatos que se colocam na disputa. "Talvez, na magnitude que se coloca, seja um problema de qualidade dos políticos", aponta.
Entretanto, os partidos não saem ilesos, já que, de acordo com Teixeira, muitas vezes as legendas não selecionam os políticos como deveriam. Segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o nível de abstenção dos eleitores em São Paulo foi de 17,54%.
Rio de Janeiro
No Brasil, esse índice chegou a 18,09%, o que representa uma ampliação do nível de abstenção no primeiro turno, que foi de 14,54%. "Um número dessa magnitude é muito alto, porque 18% pode mudar o resultado de uma eleição", destaca.
Para o cientista político, outro fator que pode explicar essa rejeição de boa parte do eleitorado ao processo político é a "confusão" na formação das alianças. Teixeira destaca que um caso emblemático é o do Rio de Janeiro, onde a abstenção chegou a 20,25%.
"Talvez haja uma certa confusão quando o eleitor vê o Gabeira (Fernando Gabeira, do PV), com uma trajetória de esquerda, sendo apoiado por um expoente da direita (o atual prefeito Cesar Maia, do DEM), e o Eduardo Paes (PMDB), que já havia chamado o Lula de hipócrita e de membro do mensalão, agora de mãos dadas com o presidente da República", afirma.
PT
Para o pesquisador, o desempenho do PT na eleição de domingo não foi muito além da média histórica do partido em São Paulo. Ele lembra que o único momento que o PT saiu vitorioso no segundo turno na Capital foi em 2000, quando Marta Suplicy enfrentou Paulo Maluf (PP) no auge da CPI da Máfia das Propinas. "Ali, o PT teve a capacidade de galvanizar para si tudo o que representava o sentimento antimalufista", assinala.
Marco Antônio Carvalho Teixeira ressalta que a apuração das urnas mostrou que o eleitorado de Marta Suplicy encolheu em 287 mil votos, se compararmos o resultado de domingo com o do segundo turno das eleições de 2004. Em termos percentuais, a petista caiu de 45% dos votos em 2004 para 39% nesta eleição.
2010
Com relação ao prefeito reeleito, Gilberto Kassab (DEM), o cientista destaca que ele traduziu o sentimento antipetista ou até mesmo "anti-martista" presentes na cidade. Mas, para ele, a vitória de Kassab também representa a aprovação do eleitorado ao projeto de levar o padrinho político do democrata, o governador de São Paulo, José Serra (PSDB), à Presidência em 2010.
"Kassab é parte do projeto Serra", disse Teixeira, ressaltando que o democrata é "estratégico" neste plano. Neste contexto, o grande vencedor indireto das eleições municipais foi Serra, destaca o cientista político. "Essa eleição tem importância para as configurações partidárias com vistas a 2010", explica.
Segundo ele, o tucano pode ser visto como vitorioso mesmo em âmbito nacional, já que os potenciais adversários do PSDB para 2010 não apresentaram resultados tão expressivos como o governador paulista. É o caso do governador de Minas Gerais, Aécio Neves (PSDB).
Seu candidato à prefeitura de Belo Horizonte, Marcio Lacerda (PSB), venceu a eleição no segundo turno, mas com maior dificuldade do que Kassab em São Paulo. Além disso, Teixeira ressalta que as capitais conquistadas pelo PSDB ficaram restritas a locais de pouca projeção política nacional, como São Luis, no Maranhão; Teresina, no Piauí, e Cuiabá, no Mato Grosso.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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