terça-feira, outubro 28, 2008

Para socióloga, PMDB sai 'mais caro' dessa eleição

Fabrícia PeixotoDa BBC Brasil em Brasília


Eleições consolidaram PMDB como maior partido do país
As eleições municipais consolidaram o PMDB como o principal partido do país, com vitória em 1.201 cidades.
Na avaliação da socióloga Maria Victoria Benevides, da Universidade de São Paulo (USP), uma das conseqüências políticas é que o partido “ficou mais caro”.
Segundo ela, até a eleição presidencial, em 2010, haverá uma disputa entre o PT e o PSDB para ver quem leva o PMDB.
Ao mesmo tempo, o partido está mais cacifado para ter seu próprio candidato, o que encarece seu apoio.
“O PMDB tem pouquíssima rejeição e sabe negociar”, diz Benevides à BBC Brasil.
Leia trechos da entrevista.
BBC Brasil - Qual a grande mensagem deixada por essas eleições?
Benevides - Em primeiro lugar, deve-se notar a grande diferença que existe entre as alianças que acontecem no plano municipal quando comparadas com o plano estadual e principalmente o federal.
Muitas vezes ficamos chocados de ver alianças aparentemente estapafúrdias, mas elas representam realidades locais, que podem ser bem diferentes dos acordos e das condições da famosa correlação de forças no nível mais alto, da União.
Isso explica, por exemplo, por que não houve a tão esperada osmose com o apoio do presidente, que acabou perdendo em capitais importantes, como Salvador, Porto Alegre e São Paulo.
BBC Brasil - E do ponto de vista do eleitor?
Benevides - Sob um ponto de vista, o eleitor revelou uma maior independência em relação aos seus gurus políticos, sejam eles de ligação ideológica ou por clientelismo. Esse tipo de voto mais tradicional tendeu a cair.
Outra coisa que merece atenção é o alto número de votos nulos e abstenções. Basta ver o caso do Rio de Janeiro (o número chegou a 20% do eleitorado).
É só fazer as contas para ver que o número é muito maior do que a diferença dos votos válidos entre Gabeira e Eduardo Paes, que disputaram o segundo turno. É algo para se pensar, pois afeta muito a legitimidade de um pleito e a representatividade dos eleitos.
BBC Brasil - Como a senhora avalia a diferença entre Marta e Kassab, em São Paulo?
Em São Paulo, tivemos uma prova eloqüente do que significa a reeleição, do que é estar no poder e ter toda a máquina, toda a visibilidade na televisão, no rádio e nos jornais, diariamente. Ou seja, é muito difícil um candidato de fora concorrer com o candidato à reeleição. Haja visto o que aconteceu em todo o país.
Por mais que se estabeleçam regras, do que pode e o que não pode, pela própria natureza do sistema é o Executivo quem contrata, que demite, que define prioridades. O Kassab é um exemplo importantíssimo, que largou como um ilustre desconhecido e passou a ter uma visibilidade imensa.
Tivemos a prova também do que o tempo representa para o eleitor. Do tempo e da memória. O tempo que se passou da gestão Marta para cá tornou muito difícil sua campanha, de lembrança de suas políticas sociais. O máximo que a Marta conseguia dizer durante sua campanha era “ele copiou”. Já devíamos ter aprendido que ouvir sempre o marqueteiro não é a melhor escolha. A campanha da Marta é a prova disso.
BBC Brasil - E como fica o papel do PMDB?
O PMDB se beneficia de uma tradição, que começou na oposição à ditadura. E que depois virou o maior partido-ônibus da história do Brasil. Entra de tudo.
Ao mesmo tempo, isso confere ao partido uma flexibilidade, uma capacidade de negociar que outros não têm. Existem algumas exceções dentro do partido, como Pedro Simon e Jarbas Vasconcelos, mas o resto é um ajuntamento que tem pouquíssimo a ver com um programa, com algum princípio ideológico, mas que conseguiu se enraizar de uma maneira muito poderosa. É o partido com a maior capilaridade que nós já tivemos, está encravado em todos os lugares do país.
Outra característica importante é sua baixa rejeição. O DEM, por exemplo, tem uma rejeição altíssima. Tucanos e petistas também, de certa forma. Já os peemedebistas, nem tanto. Nas cidades, é o partido tradicional, o partido do conhecido, “da família tal”.
BBC Brasil - Mas eles não conseguem ter um nome com projeção nacional...
Não, isso não tem. Mas veja: eles podem não ser donos de uma grande marca, mas são donos daquela rede de comércio local que todo município tem. Tipo Casas Pernambucanas. É isso, o PMDB é como as Casas Pernambucanas.
BBC Brasil - O partido, porém, já sonha com um candidato próprio à sucessão presidencial. Tem espaço?
Na minha opinião, tem sim. Tem gente de todo o tipo no partido e, como disse, com pouca rejeição.
BBC Brasil – E a oposição, como fica?
O PSDB tem como grande adversário o PT e ambos vão disputar o PMDB. É daí que vai surgir a grade disputa política nos próximos dois anos. O que conta agora é 2010. Mas é preciso lembrar que o PMDB sai mais caro dessa eleição.
BBC Brasil - E o que esperar do sistema político e eleitoral até lá?
Enquanto não fizermos uma reforma política, que envolva tanto o sistema eleitoral como o partidário, vamos continuar com esses problemas de baixa representatividade e de democracia capenga. Existem aspectos da separação dos poderes que estão sendo relegados.
Um dos grandes problemas é essa falta de divisão entre os poderes, que estamos observando. O Judiciário se metendo na esfera do Executivo, enquanto que o Executivo legisla muito mais do que o Legislativo... Temos de enfrentar essa questão real da não separação de poderes, para torná-la efetiva.
Fonte: BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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