sábado, junho 09, 2007

Os fura-poços

Miriam Leitão
Quem perdeu a compostura? O governo? Os políticos? Todos? A resposta explicará a desavergonhada disputa por cargos. É da natureza das coalizões que os ministérios e certos cargos formuladores sejam espaço para escolha de políticas públicas, de aplicação de programas partidários e, por isso, são distribuídos à base parlamentar. De outra e obscura natureza é a maneira como se distribuem cargos técnicos, agências reguladoras e postos pelos quais passam dinheiro público e privado.
Os jornais trouxeram ontem flagrantes desta distorção. O ex-governador de Goiás Maguito Vilela, do PMDB, pode assumir a vice-presidência de governo do Banco do Brasil, responsável pelo BB Previdência e pelo relacionamento comercial com todas as esferas públicas, informou O Globo. O Banco do Brasil, um banco comercial, capta poupança dos seus clientes para aposentadoria complementar através do BB Previdência. Por que a gestão de dinheiro dos poupadores entra no rateio político?
Maguito, de fato, foi previdente: quando defendeu ardorosamente o governo na época do mensalão, ou quando se filiou nas hostes de José Sarney-Renan Calheiros dentro do balaio de gatos que é o PMDB. Outra parte do poder desta vice-presidência é ser canal de pagamento de tributos. “Só de tributos federais recolhidos pelo banco, passarão pelo político R$120 bilhões”, informa a repórter Patrícia Duarte.
Das nove vice-presidências do Banco do Brasil, cinco serão entregues ao PT. Para acomodar tanta gente talentosa, o BB dividiu sua vice-presidência de governo, criando a área de agronegócios, para onde está sendo indicado o ex-ministro da agricultura.
O governo nada aprendeu com o uso recente do Banco do Brasil, do Visanet, dos contratos com Marcos Valério, das festas promovidas pelo banco para angariar dinheiro para o PT. A diferença agora é que ele dividiu o Banco do Brasil entre dois feudos: o dos petistas e o dos peemedebistas. O governo nada aprendeu com a destruição de um bom programa, como o Luz para Todos, ao fatiá-lo em todas as correntes dos partidos que o apóiam e, assim, abri-lo à sanha das gautamas.
Na Caixa Econômica, o PMDB já emplacou o ex-governador do Rio Moreira Franco em uma das 11 vice-presidências. “O banco ainda não informou onde ele vai atuar, mas especula-se que será na área de transferência de benefícios”, diz o texto. Pode-se imaginar que os benefícios pelos quais o poupador da Caixa paga acabarão mesmo transferidos. Há outros cinco políticos do PT que a Caixa terá que encarapitar na sua hierarquia, entregando a eles nacos de poder numa instituição cuja função é salvaguardar os recursos poupados pelos que nela acreditam.
Como o Banco do Brasil está se reestruturando para entrar no Novo Mercado, das duas uma: ou tudo isso é revogado, ou a Bovespa pode chamar sua criatura de Velho Mercado. Criado pela bolsa para abrigar as empresas com novas práticas, só podem entrar nele os que cumprem quesitos como boa governança, transparência, respeito ao acionista minoritário. Essa forma de encampação política dos cargos gerenciais do banco só pode ser avalizada com a desmoralização do conceito. Com a palavra, a Bovespa.
O ministro Walfrido dos Mares Guias está lá com cargos a mancheias para distribuir. A novidade é que tudo está dentro. Parece aqueles resorts all inclusive. A lista tem 12 páginas com 270 cargos DAS só para esta fase. O instituto de estatística do governo, IBGE, está lá no rachuncho. A comissão de valores mobiliários está lá. A CVM é órgão técnico que fiscaliza o mercado de capitais. Os negócios na bolsa multiplicaram por sete em quatro anos. Precisa ter regulação boa e fiscalização ágil e exemplar para continuar merecendo a confiança dos investidores, entre eles, a recém-chegada classe média. O que fará lá um político? Está na lista dos postos a serem ocupados, a Susep, que regula a área de seguros, o INPI, Inmetro, Fundação Oswaldo Cruz, Cnen, Casa Rui Barbosa. Assuntos das mais variadas áreas técnicas, sendo entregues aos políticos.
O pior caso recente foi o momento em que duas pessoas, dizendo-se representantes do senador Marcelo Crivella, entraram no Ipea pedindo a lista dos DAS porque, com a criação da Secretaria de Longo Prazo para Mangabeira Unger, o órgão passaria a ser do PRB. O Ipea é um centro de pensamento e estudos criado pelos militares para abrigar nele a inteligência brasileira; a maioria, na época, opositora explícita do regime. É forçoso reconhecer que nunca ocorreu à ditadura nomear um coronel para tomar conta do Ipea.
As reportagens dos últimos dias exibem políticos falando explicitamente em pressionar os ministros para que os cargos saiam logo e se queixando do que não foi posto no botim. Pela avidez com que brigam pelos cargos, todos serão em diretorias para furar poços... no bolso do contribuinte.
Com esta forma despudorada de formar uma coalizão, sem haver limites de cargos técnicos, sem critérios de políticas públicas a orientar o compartilhamento do poder, tudo o que o governo garante é que a temporada de escândalos vai continuar. Ao final dela, já se sabe o que nos espera: a confiança da população nas instituições vai definhar um pouco mais.
Fonte: Correio da Bahia

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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