Flávio Costa
O aquecimento global gera conseqüências devastadoras para fauna e flora. Ondas de calor confundem os animais migratórios, que passam a fazer viagens em direções e momentos inadequados. A elevação do nível dos oceanos por causa do derretimento das calotas polares altera o crescimento dos peixes. Em florestas como a mata atlântica, lagoas temporárias secam na época de reprodução dos anfíbios, feita em águas paradas. Agentes polinizadores, espécies como abelhas e morcegos, têm ritmos de vida modificados pelo aumento de temperatura e não conseguem dispersar várias espécies de plantas.
O vice-chefe da Convenção de Espécies Migratórias das Nações Unidas (ONU), Lahcen el Kabiri, afirmou às agências internacionais, mês passado, que pássaros, baleias e outros animais migratórios sofrem com o aquecimento, já que a elevação das temperaturas faz com que estas espécies sigam em direções erradas no momento inadequado. “Eles são os sinais de alerta mais visíveis, indicadores que sinalizam mudanças dramáticas em nossos ecossistemas causadas em parte pelas alterações no clima”, afirmou o pesquisador, que participava de uma conferência sobre a questão na cidade alemã de Bonn.
“Espécies migratórias como morcegos, golfinhos, antílopes e tartarugas ficam com seu relógio biológico desregulado e se tornam vulneráveis a ondas de calor e estiagem”, acrescentou. Vale lembrar que espécies de baleias, a exemplo das jubartes, costumam freqüentar mares da Baía de Todos Santos em época de reprodução.
Elas começam a procurar os lugares errados, já que a alimentação que procuram (plânctons e pequenos peixes) está cada vez mais próxima dos pólos, por causa do aumento da temperatura dos oceanos. Por sua vez, pesquisadores britânicos descobriram que o aquecimento acelera o crescimento dos peixes que vivem perto da superfície, mas reduz o daqueles que estão em águas mais profundas.
Estiagem - Outra conseqüência grave provocada pelo aquecimento global é a estiagem em lagoas temporárias, que acabam por secar em épocas que coincidem com a época de reprodução dos anfíbios (sapos, rãs, pererecas), que se reproduzem em águas paradas. “Provocada no tempo inadequado, a estiagem causa uma mudança que primeiro impede a fecundação destas espécies e desequilibra toda uma cadeia alimentar”, afirma o professor de biologia, da Universidade de Salvador (Unifacs) e do Centro Universitário Baiano (FIB), Nilton Tosta.
O superintendente regional do Ibama, Célio Costa Pinto, é cauteloso ao falar dos efeitos do aquecimento global sobre a fauna e flora do estado. “Sabemos pelos estudos que as conseqüências não são uniformes, mas não dispomos ainda de dados específicos sobre estudos específicos”. Costa Pinto afirma que a Bahia é um estado atípico, pois concentra em seu território três biomas de características completamente diferentes: o cerrado, a caatinga e a mata atlântica. Destes, a caatinga é o que mais sofre devido à fragilidade do solo. O aquecimento global acelera o processo de desertificação desta vegetação de clima semi-árido.
De maneira genérica, o superintendente do Ibama aponta para a elevação do nível do mar e o risco de extinção de diversas espécies da mata atlântica e do cerrado como conseqüências do aquecimento global já detectadas por estudos desenvolvidos desde 2004. “O Ministério do Meio Ambiente passa por reestruturação e terá um grupo específico para realizar estudos de clima em todos os estados do país. O que é realmente necessário”, finaliza.
***Trinta por cento de biomas ameaçados
Em seminário realizado sobre a mata atlântica na Secretaria Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh), em fins de maio, o presidente do Grupo de Assessoria Internacional (IAG), do Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais do Brasil (PPG), Carlos Nobre, afirmou que “um possível aumento de 2ºC na temperatura vai ameaçar 30% de todas as espécies de biomas brasileiros”.
Nobre coordena o grupo de cientistas brasileiros que compõe o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). O relatório apresentado por ele no evento confirma a tendência de um planeta cada vez mais aquecido. Ele defende o fortalecimento das estratégias de conservação da mata atlântica, que, em termos de biodiversidade, é mais rica do que a Floresta Amazônica.
A mata atlântica está reduzida a menos de 7% de sua extensão original. De mais de 1.360.000 km2 do território nacional, hoje restam menos de 100.000 km2. Originalmente, a mata atlântica ocupava cerca de 36% do território da Bahia. O diretor de Biodiversidade da Semarh, Milson Batista, afirma que os efeitos do aquecimento global já podem ser sentidos na Bahia.
“Nós já podemos notar corredores de calor em grandes cidades da Bahia, em especial, Salvador”, afirma Batista, que é ex-professor da Universidade Federal da Bahia. Ele declara que grandes áreas verdes como as existentes na capital da baiana, a exemplo dos parques Metropolitano de Pituaçu e São Bartolomeu, precisam ser preservados. “As áreas verdes são capazes de absorver os efeitos destes corredores de calor de uma grande cidade como Salvador. Mas não é preciso apenas conservar, e sim, expandi-las”. Fora da capital, ele cita o Parque Estadual da Serra do Conduru, que registra respectivamente em apenas um hectare de floresta 443 espécies de fauna e 458 de flora, um recorde em termos de biodiversidade.
Fonte: Correio da Bahia
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