sexta-feira, julho 25, 2008

Procuradoria da República analisa atuação da PF

SÃO PAULO - A Procuradoria da República requereu ontem da Polícia Federal todas as informações sobre a Satiagraha e a logística que a corporação disponibilizou para que a operação fosse desencadeada. São 10 perguntas que a PF terá de responder abrangendo dados relativos ao início da investigação que levou para a prisão o banqueiro Daniel Dantas, o investidor Naji Nahas e o ex-prefeito Celso Pitta (1997-2000), supostamente envolvidos em esquema de corrupção, desvio de verbas públicas, evasão de divisas, lavagem de capitais e quadrilha.
O questionamento do Ministério Público Federal se baseia em representação formulada pelo delegado Protógenes Queiroz, que conduziu Satiagraha desde seu início, há quatro anos, até sexta-feira passada, quando ele se despediu do caso acuado por colegas que ocupam cargos de direção na PF.
Protógenes denunciou obstrução das investigações e atribuiu a superiores as dificuldades que alega ter encontrado na missão que culminou com a decretação de 24 suspeitos e uma varredura em 56 endereços comerciais e residenciais dos alvos de Satiagraha, deflagrada dia 8.
Em petição de 16 páginas, que protocolou há 8 dias no Ministério Público em São Paulo, o delegado queixou-se formalmente de falta de apoio da administração para avançar na apuração sobre o Grupo Opportunity. Ele informou ter sido afastado do inquérito e denunciou falta de recursos humanos e materiais para conduzir a superoperação.
Espionagem
Protógenes declarou, ainda, que um dia antes do cerco a Dantas recebeu telefonema do diretor da Divisão de Combate a Crimes Financeiros da PF, delegado Paulo de Tarso Teixeira, que dele teria exigido a relação completa dos alvos da Satiagraha. Teixeira, segundo Protógenes, ameaçou interromper a operação. O delegado afirma que por 7 vezes agentes de sua equipe teriam sido espionados, entre março e abril deste ano.
Protógenes anotou que um agente de sua confiança reconheceu duas pessoas que o vigiavam: eram homens da própria Polícia Federal. Um dia depois de levar sua denúncia ao Ministério Público - e em meio à crise institucional que envolveu até o presidente Luiz Inácio Lula da Silva -, Protógenes deixou o caso, oficialmente para fazer o Curso Superior de Polícia, em Brasília.
Sua conduta provocou a ira de delegados, especialmente os mais graduados, que o acusam de ter cometido "um erro muito grave" ao levar a procuradores um problema de âmbito interno. A representação do delegado foi examinada pelo procurador da República Roberto Antonio Dassié Diana, coordenador do grupo de controle externo do Ministério Público, unidade que tem atribuição para investigar questões afetas à polícia judiciária da União, a PF.
O procurador quer saber da PF quantos homens foram efetivamente deslocados para dar curso à investigação. No dia em que Satiagraha saiu às ruas, a direção-geral da PF divulgou que 300 agentes e delegados cumpriram as ordens de prisão e buscas. Mas a reclamação de Protógenes vai além: ele argumenta que no decorrer do inquérito não teria contado com equipamentos fundamentais para sua pesquisa, nem mesmo para interceptação telefônica.
Vazamento
O delegado Amaro Lucena, da Corregedoria-Geral da PF em Brasília, chegou ontem a São Paulo e abriu inquérito para investigar o vazamento de informações relativas à Satiagraha. A meta é identificar policiais que teriam liberado dados com o objetivo de alertar os suspeitos, entre eles Daniel Dantas e Naji Nahas.
Ainda ontem, o criminalista Alberto Zacharias Toron protestou contra ato de Protógenes, que indiciou o consultor Rodrigo Andrade no inquérito sobre o Opportunity Fund. O delegado afirma que Andrade era laranja do grupo de Dantas. "É de uma leviandade ímpar", disse Toron. "(Andrade)é um profissional da maior seriedade e competência. Só mesmo uma investigação míope e fora de foco poderia chegar a tal conclusão."
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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