sexta-feira, julho 25, 2008

A inflação, o cavalo e a bola

Por: Carlos Chagas
BRASÍLIA - Tem coisas impossíveis de entender pelo leigo que não é banqueiro ou especulador. Nem presidente do Banco Central. Porque aumentar os juros para impedir a inflação parece algo parecido com a história do cidadão que estava ensinando seu cavalo a não comer, por economia. Quando estava quase conseguindo, o cavalo morreu. De fome.
O aumento desta semana para 13% nos juros destina-se a restringir o crédito, ou seja, reduzir o volume de negócios e limitar o consumo. Ora, consumindo menos, o trabalhador produzirá mais? Negociando menos, o empresário criará novos empregos? A iniciativa do dr. Meirelles provocará demissões, de um lado, e recessão, de outro.
Seria cômico se não fosse trágico verificar o que disse o presidente Lula, na mesma hora em que o Copom aumentava os juros: "Tomarei todas as medidas necessárias para a inflação não voltar. Podem tirar o cavalo da chuva. Não vou diminuir o consumo neste País!"
O presidente dá a impressão de comandar um time que entra em campo com chuteiras e camisas novas, cumprimenta a torcida e lança-se em dribles e passes monumentais, cabeçadas fulminantes, chutes precisos e defesas maravilhosas, mas, de repente, assiste as arquibancadas esvaziarem. Só então percebe que faltava a bola...
Os preços vinham subindo por conta do aumento dos combustíveis, dos remédios, dos aluguéis, dos alimentos e tudo o mais, menos dos salários, sem que o governo reagisse. Agora subirão pela elevação dos juros. Como no caso do cavalo, o da chuva ou o outro, a inflação encontra-se a um passo de ser contida...
Curiosa promoção
Publicou o Diário Oficial decreto do presidente da República transformando o ministro-chefe da Secretaria Especial de Ações de Longo Prazo em ministro de Estado de Assuntos Estratégicos, por conta de lei aprovada no Congresso.
O inefável Mangabeira Unger poderá apresentar-se com mais importância e galhardia em seu país de origem, os Estados Unidos, onde a mudança certamente eletrizou a população e paralisou as especulações sobre a próxima sucessão.
Procurador do grupo Opportunity, de Daniel Dantas, até sua designação para o ministério, tendo recebido dois milhões de dólares de proventos, conforme relatório do delegado Protógenes Queiroz, Mangabeira atropela as funções do general Jorge Félix sem ter demonstrado até agora que ações de longo prazo propôs ao Palácio do Planalto. Só se foi o projeto do terceiro mandato.
A gente fica pensando se vivemos, governo e sociedade, em dois mundos diferentes. Em dimensões que não se toca, a não ser quando algum ET consegue transpô-las. Aliás, corre em Brasília a história de que quando um deles apareceu em recente reunião do ministério, ao deparar-se com Mangabeira, teria exclamado: "Papai!..."
Pensão à italiana
Publicam os jornais haver o Senado, na Itália, aprovado projeto de lei que inferniza a vida dos imigrantes, estabelecendo até quatro anos de prisão para os que forem flagrados sem visto de permanência.
Com todo respeito ao dr. Berlusconi, trata-se de uma burrice. Porque o africano, asiático ou sul-americano preso em Roma varrendo a rua, ou em Milão lavando pratos, agradecerá penhorado à Justiça italiana. Terá garantidas por quatro anos casa, comida e roupa lavada, sem precisar trabalhar, situação certamente muito melhor do que em sua aldeia de origem, favela ou similar.
Foram recebidos de braços abertos, no começo do século passado, montes de famílias de camponeses italianos, para trabalhar no que se chamava lavoura, naquela época. Mais tarde, quando tomaram conta das bancas e da distribuição de jornais no Rio, São Paulo e outras capitais, eram saudados até como incentivadores de nossa cultura. Para não falar nos condes e altos industriais que lideravam o society. O mundo mudou, o Palestra Itália virou Palmeiras e os brasileiros que buscarem sobreviver na antiga Roma poderão escolher a pensão onde ficarão abrigados por quatro anos...
Cautela necessária
A poucos dias do início das Olimpíadas, a China é toda uma festa, mas, também, muita cautela. Porque a competição parece ser a que mais sucesso fará no planeta, desde a Grécia Antiga. O governo chinês não poupa recursos nem esforços para o país brilhar em todos os aspectos, até na conquista de medalhas. Nenhuma oportunidade parece melhor para divulgar as excelências do regime vigente por lá, que apesar das profundas transformações continua sendo comunista.
A experiência recente demonstra que o sucesso da China incomoda meio mundo. Não faz muito uma crise artificial no Tibete ofuscou os preparativos olímpicos, sem esquecer ácidas críticas ao imperialismo de Pequim diante daquela nação. Mas não foi coincidência, senão bem engendrada operação neoliberal desenvolvida para baixar a bola chinesa.
Outras tentativas poderão acontecer para contrabalançar a admiração de bilhões de telespectadores em todos os continentes. Admiração que não deixará de se estender, também, ao regime, apesar das merecidas restrições óbvias. Estão de cabelos eriçados os chefões do capitalismo selvagem, mesmo sabendo-se que lucram horrores com o desenvolvimento chinês impulsionado pelos baixíssimos salários pagos à sua população. Não vão entregar com facilidade essa presumível vitória ideológica de seus adversários. A moda pode pegar.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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