sexta-feira, julho 25, 2008

Um retrato da violência

Em 24 horas, 11 homicídios, 5 carros roubados, 8 ônibus assaltados. Polícia invade favela e mata dois suspeitos. PM é baleado e desembargador é vítima de sequestro
O desembargador Mário Albiani foi vítima ontem no começo da noite de um sequestro relampago. Ao chegar em casa, na Avenida Sabino Silva, no carro de um amigo, uma Land Rover, eles foram dominados por assaltantes que entraram no carro, e seguiram com os dois. O porteiro do prédio avisou a polícia, iniciando-se uma perseguição. Logo depois o desembargador e seu amigo foram libertados na Av. ACM. Os criminosos fugiram com o carro. Este foi um dos lances que revelam a audácia dos bandidos que estão agindo em Salvador, que viveu 24 horas de muita violência. Foram 11 homiciídios, entre eles um crime passional. A ação dos marginais contra soldados da PM fez mais uma vítima, que não corre risco de morte. Em Cajazeiras, uma ação policial deixou muitas dúvidas. Um pretenso ataque a um policial civil teriam detonado uma ação policial, que acabou com as mortes de dois jovens. Moradores protestaram e acusam policias civis e militares de terem exterminado dois jovens. A comunidade alega que existe um terceiro rapaz morto. O crime aconteceu na comunidade Esperança, localizada em Cajazeiras VI. Conforme os moradores, os agentes da Policia Civil realizaram uma operação durante a manhã de ontem, com seis viaturas padronizadas da polícia, e alguns carros dos agentes civis, com ajuda do helicóptero. “Os agentes invadiram os barracos das pessoas, dominaram Samuel Santana de Souza, de 17 anos, apelidado de “Passarinho”, Jéferson Santana da Cruz, de 20 anos, e outro rapaz que foram obrigados a deitar juntamente com outros moradores no chão. Teriam sido pisoteados, e depois os agentes levaram os três para dentro do barraco de Jéferson e começaram a atirar, simulando que os rapazes estavam armados e atirando. Eles gritavam, correm, eles estão armados e atirando. Entraram muitos policiais e efetuaram rajadas de tiros”, disse um morador. Ainda de acordo com a comunidade, os policiais colocaram os três rapazes no camburão da viatura. E os conduziram para o Hospital Ernesto Simões, dando entrada quase duas horas depois. A mãe de Samuel, a copeira Vanda Boavetura de Santana, 37, disse que obteve informação no hospital que seu filho deu entrada na unidade sem vida. “O corpo dele estava crivado de bala. Como é que a polícia afirma que houve resistência. Se nenhum deles nem seus carros foram alvejados”, em lágrimas revelou a mãe de Samuel. A mãe ainda disse que seu filho estudava o 1º ano no Colégio Luís Fernando de Macedo, em Cajazeiras. “Nunca esteve envolvido com criminalidade. Nem fumava maconha. Ele era acostumado a se reunir no barraco de Jéferson para tocar na banda que ele fazia parte. Eles estavam ensaiando com os amigos e posso afirmar que meu filho é inocente. Agora busco por justiça”, concluiu. (Por Silvana Blesa)
Jovem é morta por ex-companheiro
; O vendedor Wagner Macedo Alves, 29, foi preso em flagrante por matar com golpes de facada nas costas e no tórax a companheira Luciana dos Santos Muniz, 21, no estacionamento do supermercado Extra, na Rótula do Abacaxi, por volta das 20h, de segunda-feira. A vítima e o agressor tinham um relacionamento de oito anos e estavam separados há mais de um mês. O casal morava junto há mais de quatro anos e tinha uma filha de três anos. Após a separação, Wagner saiu de casa e foi morar com a mãe. Mas ele não aceitava o fim da relação. De acordo com os policiais da 6º Delegacia, Wagner desconfiava que Luciana tinha um caso com um colega de trabalho e passou a seguir a ex-companheira todos os dias. Wagner disse que viu Luciana saindo após o expediente, com o atual namorado, Eric Cristiano Silva Soares, 35, e os seguiu em direção ao supermercado. “Fui pego por uma forte emoção quando vi os dois se beijando. Achei uma faca no canteiro do mercado e fui em direção dela apenas para assustá-la”, conta o acusado. A polícia contradiz a versão do autor do crime. De acordo com os agentes, a ação já estava premeditada e a faca pertencia a Wagner. Eric, que estava com Luciana no momento do crime , tentou defendê-la dos ataques e também foi ferido com uma facada no antebraço direito. O acusado tentou evadir-se do local do crime em direção ao Retiro, mas foi localizado pela polícia. Wagner confessou que matou a companheira por ciúmes e também disse estar arrependido. Os policiais encontraram a faça encravada no corpo da vítima. Wagner é acusado de homicídio doloso, quando existe intenção de matar. Esse é o segundo crime passional em menos de uma semana. No último dia 19, uma tentativa frustrada de reconciliação terminou em tragédia. O sargento PM Wellington Souza Silva, 47 anos, matou com um tiro na cabeça a ex-mulher, Jelza Helena da Silva, 41, e depois cometeu suicídio com a própria arma. O crime passional aconteceu na Rua da Harmonia, localizada a poucos metros da concessionária Grande Bahia, bairro de Pernambués. (Por Tatiana Ribeiro )
Mortes acima da média
; A Central de Telecomunicações da Polícia Militar registrou, da manhã de quarta-feira até a tarde de ontem, 11homicídios em Salvador e Região Metropolitana. Os números apresentam um dia atípico para a cidade, onde a média estipulada pelo Centro de Estatísticas da Polícia Civil apresenta quatro crimes contra a vida em 24 horas. Até o final da tarde de ontem, mais cinco homicídios entraram para as estatísticas. Por volta de 17h, o adolescente Everton Matos Correia dos Santos, 14 anos, foi assassinado com tiros por desconhecidos. Familiares do menor assumem o envolvimento dele com o tráfico de drogas. No início da tarde, Jeferson Santana da Cruz, 20 anos, e um adolescente de 17 anos, foram baleados quando teriam tentado matar um policial civil, na localidade conhecida como Invasão Esperança, no bairro Cajazeiras VI. Em Lauro de Freitas, Jair de Paula dos Santos foi atingido com tiros próximo à estrada do Consulado da Bélgica, às 11h. Em Plataforma, Valnei Ribeiro Costa, 25, foi morto quando estava no bar de Eliene, na Rua 17 de Fevereiro, por volta de 5h. Quarta-feira - Por volta de 21h, Luciana dos Santos Muniz, 21 anos, foi assassinada com facadas pelo companheiro Wagner Macedo Alves, 29. Pela tarde, José Carlos Santos Ferreira, 22 anos, foi atingido por vários tiros durante um tiroteio com marginais, no bairro Cosme de Farias. Ele chegou sem vida ao Hospital Geral do Estado. Em Abrantes, quem morreu vítima de homicídio foi Marcos Nascimento Monteiro, 28 anos. A autoria é atribuída a dois homens. Ainda na quarta, desta vez pela manhã, duas pessoas de dados ignorados foram mortas em horários e localidades diferentes no Centro Industrial de Aratu. Em Simões Filho, mais uma pessoa com os dados ignorados foi vítima de arma de fogo. Até o fechamento desta edição, familiares não haviam comparecido para reconhecer os corpos. Oito assaltos a ônibus foram registrados pelo Grupo de Repressão a Roubos em Coletivos (Gerrc), na última quarta-feira. Os números revelam a fragilidade a qual estão expostos passageiros, motoristas e cobradores. A modalidade, bastante praticada em centros urbanos, é difícil de ser combatida sem a presença de câmeras dentro dos coletivos para identificar os criminosos. Este ano foi registrado um aumento de 21,5% nos dois primeiros meses do ano em relação ao mesmo período do ano passado. Mas a média, conforme o delegado titular do Gerrc, Cláudio Oliveira, é de três a cinco assaltos por dia. Na maioria dos casos, os assaltantes não se atêm apenas aos cofres dos veículos.A moradora do Politeama, Tânia Vieira, 33 anos, todo dia pega o coletivo em frente ao Colégio Nossa Senhora do Salete e já foi assaltada duas vezes. Na penúltima vez, dia 3 deste mês, ela teve seu notebook levado pelos assaltantes. “Eu levava ele para o trabalho numa mochila jeans velha que tenho para despistar ladrão. Mas dentro de ônibus eles levam tudo, não tem como”, reclama. Carros – A Centel registrou ainda cinco carros tomados de assalto em Salvador. De acordo com a polícia, os bairros da Pituba e Itapuã lideram o ranking de carros roubados ou tomados de assalto, com 15% das ocorrências. A cada dia, a média é de 18 carros roubados ou tomados de assalto em Salvador e RMS. (Por Hieros Vasconcelos)
Fonte: Tribuna da Bahia

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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