Dispõe-se, o senador Arthur Virgílio, a disputar a Presidência da República, e já anunciou esse propósito. De acordo com as regras democráticas e os mandamentos constitucionais, qualquer cidadão brasileiro, com mais de 35 anos, no gozo de seus direitos políticos, pode aspirar à mais alta magistratura do país. Segundo se sabe, o senador Arthur Virgílio responde a todas essas condições. Até aí, nada de estranho. O que intriga são as circunstâncias políticas do candidato. Em primeiro lugar, pretende disputar - em prévias partidárias - a indicação de sua agremiação, o PSDB, com dois nomes que emergem como candidatos naturais. José Serra é governador de São Paulo, foi ministro de Estado e tem biografia marcante na vida política nacional, desde sua militância estudantil. Aécio Neves é governador de Minas e, se não tivesse outras recomendações, como deputado federal e presidente da Câmara dos Deputados, bastaria ocupar, há cinco anos já, o Palácio da Liberdade, para credenciar-se à postulação. Ao terminar seu mandato, Aécio terá sido o governador eleito diretamente pelo povo a viver mais tempo entre as vetustas paredes da secular sede do governo de Minas. Benedito Valadares esteve ali mais de 11 anos - mas em outro tempo, escolhido por Getúlio e confirmado pela Assembléia Constituinte de Minas, em 1935, para ser novamente ungido por Vargas com o Estado Novo.
Na tradição republicana brasileira nunca tivemos a eleição de um presidente da República que não dispusesse do apoio majoritário de seu Estado. É possível que Estados de eleitorado reduzido, como ocorreu com o de Alagoas, com Fernando Collor, recomendem, para o bem e para o mal, candidato capaz de empolgar o país. Mas, sem o sólido apoio do povo de sua terra, é muito difícil vencer candidatos lançados por Estados de grande densidade eleitoral, como é o caso de São Paulo e de Minas - sobretudo quando se trata de governadores no exercício do cargo. O senador Arthur Virgílio obteve menos de 5% dos votos quando, no último pleito, foi candidato a governador de seu Estado, o Amazonas. Não é provável que, depois disso, sua situação tenha melhorado entre os conterrâneos.
Alenta-se o senador pelos aplausos que diz receber nas ruas das grandes cidades, pelo fato de haver assumido o comando dos opositores à prorrogação da CPMF. Não se duvide disso. Mas isso não significa aval ao exercício da chefia do Estado e do governo. Ali cantam outros galos e caem outras águas. Há de acrescer-se que, se há os que aplaudem o fim do tributo, existem os que nele vêem mais benefício do que prejuízo, mormente porque a alíquota pesava pouco. A saúde é cara. Os que podem pagar preferem os centros de excelência, mas os pobres não encontram outro socorro que não o do Estado. E há situações - como a da dengue e a da febre amarela - que exigem a mobilização imediata e dispendiosa de recursos, a fim de evitar situações catastróficas, que atingem também os ricos. Se a situação vier a agravar-se, será mais difícil ao governo controlá-la sem os recursos da contribuição. E nem são necessárias desgraças suplementares: sem o dinheiro da CPMF, quantos morrerão a mais nas filas do SUS?
Não sabemos se o entusiasmado senador pelo Amazonas obteria o mesmo aplauso nas miseráveis povoações das ribeiras de seu Estado, que só podem contar com a assistência, ainda que insuficiente, do poder público.
Antigamente dizia-se que os donos da política tiravam os nomes dos candidatos do bolso do colete. Arthur Virgílio é candidato da própria algibeira.
Fonte: JB Online
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