quinta-feira, janeiro 31, 2008

Coronéis se rebelam contra comando

Operação padrão agrava crise e antecipa posse do novo comandante da Polícia Militar
O governo fluminense antecipou para a tarde de ontem a posse do novo comandante da Polícia Militar, coronel Gilson Pitta Lopes, para evitar o alastramento na corporação da sublevação capitaneada pelo "Grupo dos Barbonos", formado por coronéis que confrontaram o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame.
Inicialmente, a solenidade só deveria ocorrer hoje, às 16h, como o próprio Pitta afirmou no início da tarde de ontem. Mas o anúncio de que 40 coronéis e tenentes-coronéis, solidários ao comandante demitido, Ubiratan Ângelo, entregaram ontem cedo seus cargos ao comando, e a notícia de que policiais de alguns quartéis tinham permanecido aquartelados, fizeram o governador Sérgio Cabral Filho (PMDB) realizar a cerimônia na tarde de ontem - sob tensão e num gabinete fechado, longe da tropa e da imprensa.
"Nunca, nos 200 anos de história da Polícia Militar, houve uma troca de comando sem a tropa formada", lamentou o presidente da Associação de Oficiais Militares do Estado do Rio de Janeiro, coronel da reserva Dilson Anaide. Ele afirmou que o novo comandante terá problemas de legitimidade.
Os sinais de insubordinação dos policiais militares ficaram claros desde cedo. Os 40 oficiais, que assinaram um manifesto contra a troca de comando na PM e a punição dos oficiais que participaram da passeata por reajuste salarial na Praia do Leblon no domingo, protocolaram de manhã seus pedidos de exoneração dos cargos de chefia e comandos de batalhões que ocupavam, segundo o coronel Anaide.
À tarde, ainda de acordo com Anaide, outros sete oficiais fizeram o mesmo. E policiais militares iniciaram "operação padrão" em pelo menos quatro batalhões - 13º (Praça Tiradentes), 18º (Jacarepaguá), 17º (Ilha do Governador) e 39º (Belford Roxo). Nessas unidades, a maioria dos PMs não foi para as ruas. À tarde, o movimento teria sido contido. O coronel Anaide afirmou que outros oficiais também aderiram ao movimento, mas uma lista oficial não tinha sido divulgada até o fim da tarde.
Ele informou que os "Barbonos", alusão ao antigo nome da rua Evaristo da Veiga, onde fica o quartel central da corporação, vão continuar a promover manifestações para pressionar o governo estadual a dar reajustes salariais. Para ele, Beltrame erra ao classificar a passeata realizada por eles no último domingo de insubordinação. Segundo Anaide, não houve desobediência, já que o comandante exonerado, Ubiratan Ângelo, sabia da manifestação e não deu ordem para que ela não acontecesse.
"O direito de livre manifestação ordeira e desarmada é garantido pela Constituição Federal a todos os brasileiros. Não parece, às vezes as pessoas esquecem, mas PM também é brasileiro e cidadão", disse Anaide, admitindo que Ângelo pediu aos manifestantes que não se aproximassem do edifício onde mora o governador, no Leblon.
Surpreso com a nomeação de Pitta, um "Barbono", para o comando, Anaide disse que recebeu a notícia como uma faca no peito: "O coronel Pitta sempre esteve presente nas reuniões, como um dos mais ativos. Nas reuniões que antecederam a nossa caminhada de domingo, ele esteve presente em todas. Quando decidimos fazer a caminhada, ele aplaudiu com efusividade, apoiou e disse: 'É isso mesmo, eu estarei lá no domingo'. Ele não foi. E agora vem uma declaração atribuída a ele de que ficou desgostoso com o rumo do movimento. Rumo que ele mesmo traçou, que aplaudiu de pé", afirmou. "Ele quebrou unilateralmente o compromisso que tinha com os demais coronéis da PM (de não assumir o cargo no atual governo). Ele vai ter que explicar por que roeu a corda", disse Anaide.
Ontem, pelo segundo dia consecutivo, oficiais se reuniram na sede da associação, no Centro do Rio. Os coronéis admitem que não há volta na exoneração do coronel Ubiratan Ângelo, mas pedirão ao governador que ele tenha um cargo de destaque no governo. Eles também querem o afastamento do secretário, José Mariano Beltrame, considerado persona non grata aos oficiais. O grupo estuda a possibilidade de processar o secretário por supostos danos à imagem da corporação. Beltrame questionou a credibilidade da PM, diante de tantos casos de desvio de conduta e falhas no policiamento, para pedir aumento de salário.
Fonte: Tribuna da Imprensa

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas