terça-feira, abril 18, 2006

Corregedoria investigará proteção a bicheiros

Por:Bernardo Mello Franco, Ediane Merola e Sérgio Ramalho

O chefe de Polícia Civil, Ricardo Hallack, determinou que a corregedoria da instituição investigue a participação de agentes no esquema de proteção aos contraventores Rogério Andrade e Fernando Iggnácio. Os dois herdeiros do jogo do bicho estão foragidos da Justiça e são acusados de disputar o controle de caça-níqueis na Zona Oeste. Segundo Hallack, a Delegacia de Repressão a Ações Criminosas Organizadas (Draco), que apura o caso, vai remeter hoje cópia do inquérito com a identificação dos policiais ao corregedor Ricardo Martins.
Reportagem publicada sábado pelo GLOBO, com base num relatório da Subsecretaria de Segurança e Inteligência (SSI) e de inquéritos do Ministério Público estadual e da Draco, revelou que 86 homens, entre eles policiais civis e militares, bombeiros e agentes penitenciários da ativa e reformados, fariam a segurança dos dois contraventores, possibilitando que eles levem uma vida normal.
O ex-chefe de Polícia Civil Álvaro Lins admitiu a participação de agentes na escolta dos contraventores:
- Os bicheiros contam com proteção de parte do aparato policial. Esses agentes facilitam a vida dos contraventores, que têm acesso a informações privilegiadas sobre operações policiais - afirmou Álvaro Lins, que deixou o cargo no fim de março para se candidatar a deputado estadual.
O ex-procurador-geral do estado e deputado federal Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ) criticou a ineficiência da polícia. Ele disse que a maior parte da escolta aos foragidos é formada por policiais de baixa patente. Sem citar nomes, o deputado afirmou que os condenados também têm apoio de integrantes da cúpula da polícia.
- É um absurdo que um condenado a 19 anos de prisão (Rogério Andrade) transite livremente e continue determinando execuções. Quando há tolerância ao jogo, outros interesses estão sendo atendidos. Da forma escancarada como eles fazem, é um incentivo à criminalidade - disse Biscaia, que, como procurador-geral, comandou as investigações que levaram à prisão de 14 integrantes da cúpula do jogo em 1993.
Segundo o parlamentar, os contraventores retomaram o poder gradativamente desde a condenação da cúpula comandada por Castor de Andrade, tio de Rogério Andrade e sogro de Fernando Iggnácio:
- Eles conseguiram ampliar os domínios com essas máquinas ilegais. A guerra pelos pontos da Zona Oeste e a impunidade dos contraventores fazem com que a sociedade se sinta desprotegida.
Juíza responsável pela condenação dos 14 bicheiros em 1993, a deputada federal Denise Frossard (PPS-RJ) não se surpreendeu com a notícia de que os dois foragidos têm escolta de policiais. Segundo ela, o bicho se transformou em fachada para outros delitos:
- Ninguém fica rico com o bicho. O jogo serve de escudo para outros crimes, como o tráfico de armas. Parte dos policiais, que deveriam ser os principais predadores da contravenção, acabou se tornando aliada dos bandidos, que também atacam instituições como o Ministério Público e a Justiça. Mas a polícia é mais fácil de corromper por estar no confronto direto com o crime.
O sociólogo Ignácio Cano, pesquisador do Núcleo de Estudos da Violência da Uerj, comparou o esquema de escolta aos contraventores à corrupção de policiais que protegem traficantes de drogas:
- O fato de os dois estarem foragidos há tanto tempo mostra que os bandidos que têm dinheiro conseguem aliciar policiais para garantir proteção e escapar da Justiça. Parte do aparato público está trabalhando para o crime.
Segundo o sociólogo, a participação de 86 homens na escolta aos contraventores mostra que os esforços para limpar a polícia não estão surtindo o efeito necessário:
- A existência da escolta desmoraliza o combate ao crime.
O secretário de Segurança Pública, Roberto Precioso Júnior, não quis comentar o inquérito, que corre sob segredo de Justiça.
Fonte: O GLOBO

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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