quarta-feira, abril 23, 2008

Isabella: defesa encurrala polícia

Necessidade de reconstituir a cena do crime é apontada como prioridade para encerrar o caso
A polícia tirou o pé do acelerador. A expectativa de concluir ontem o inquérito policial sobre a assassinato de Isabella de Oliveira Nardoni, de 5 anos, foi substituída pela decisão da polícia de anexar os laudos da perícia ao inquérito. A decisão permitirá que os advogados de Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá - pai e madrasta da menina e indiciados pelo crime - tenham acesso aos documentos, em resposta à ameaça da defesa de recorrer à Corregedoria da Polícia Civil.
Além disso, a polícia pretende fazer, no próximo dia 27, a reconstituição do crime e a acareação entre os dois indiciados e ouvir os depoimentos de quatro testemunhas - o pai e a irmã de Alexandre e dois moradores do Edifício Residencial London, onde o crime ocorreu. Isabella morreu após ser jogada do 6º andar em 29 de março.
Assim, o inquérito só deve ser relatado pelos delegados do 9º Distrito Policial (Carandiru) na próxima semana, quando, além de apontarem o casal como autor do crime, eles deverão pedir à Justiça a decretação da prisão preventiva de Alexandre e de Anna Carolina. A decisão de prorrogar as investigações foi tomada em uma reunião realizada na Secretaria da Segurança Pública. Delegados, peritos e um médico-legista se reuniram com o secretário Ronaldo Bretas Marzagão.
Depois de ouvir o que todos tinham a dizer, Marzagão julgou conveniente manter a cautela e prosseguir com a apuração do crime antes de a polícia e a perícia divulgarem os resultados Para isso, foi decisivo o fato de a polícia temer que a defesa do casal usasse suas conclusões para preparar seus clientes para a acareação e para a reconstituição do crime.
Concluída a reunião, o diretor do departamento de Polícia Judiciária da Capital (Decap), delegado Aldo Galiano Junior, foi incumbido de explicar à imprensa por que a polícia ia adiar a entrevista coletiva na qual deveria anunciar suas conclusões. Galiano deixou claro que uma das razões era não instruir a defesa. "Nós não queremos instruir, não. Eu acho que a defesa tem de ter acesso ao laudo e ela tomar um posicionamento, mas não ter acesso ao que a polícia pensa e ao que a polícia vai perguntar", afirmou.
O delegado disse que o inquérito do caso já tem seis volumes e que os laudos do Instituto de Criminalística (IC) sobre o local do crime e o do Instituto Médico-Legal (IML) sobre a causa da morte de Isabella foram anexados ao inquérito ontem, apesar de a polícia ter tomado conhecimento dos dois documentos na sexta-feira passada.
A ausência dos laudos do inquérito provocou polêmica. A defesa de Alexandre e de Anna Carolina afirmava que a polícia não podia ter questionado o casal durante os interrogatórios da última sexta-feira com base em laudos que não constavam no inquérito. Galiano respondeu a essa crítica dizendo que "as perguntas inerentes aos laudos foram feitas aos indiciados com base nas informações obtidas pelos delegados no local do crime e nas reuniões mantidas com os peritos".
A Secretaria da Segurança Pública afirmou na noite de ontem que os advogados do casal não entraram com representação na Corregedoria, questionando os métodos de investigação e para "apontar uma série de irregularidades que foram cometidas na condução da investigação". O trio de advogados, por sua vez, não quis informar se ainda planeja oficializar a reclamação à Corregedoria.
Segundo o delegado Galiano, a defesa terá pleno conhecimento e "plena possibilidade de tomar conhecimento do laudo". O delegado afirmou que os policiais do 9º DP pretendem ouvir mais quatro testemunhas do caso - Antônio Nardoni, pai de Alexandre, e Cristiane, irmã do pai de Isabella. Além deles, a polícia vai inquirir duas testemunhas, vizinhos do casal.
Estes serão ouvidos às 14 horas de hoje e o pai e a irmã de Alexandre, às 16 horas. "Esses depoimentos são imprescindíveis para a conclusão do inquérito e para que possa ser feito relatório bem substanciado", disse Galiano.
A intenção da polícia é evitar ainda a necessidade de investigações complementares a pedido do Ministério Público Estadual (MPE). "Eu acho que estamos fazendo um trabalho técnico e responsável. A cautela é a melhor arma que a polícia tem. Chegou num momento em que a defesa parte para um confronto. Nós agimos eticamente", afirmou o delegado. "Nós não achamos prudente um confronto. Não é salutar para a defesa, não é salutar para a polícia", completou Galiano.
O delegado voltou a negar que Anna Carolina tenha sido agredida durante o tempo em que esteve detida no 89º Distrito Policial. Ela e o marido ficaram presos durante uma semana por ordem da Justiça durante as investigações do caso.
A polícia pretende fazer a reconstituição do crime no próximo domingo, e estuda a possibilidade de evacuar o Edifício London durante os trabalhos. O casal pode participar da reconstituição, mas não é obrigado, pois nenhum acusado pode ser forçado a fazer prova contra si. A polícia quer mostrar com a reconstituição que seria impossível alguém invadir o apartamento, jogar a menina pela janela e sair sem ser visto do prédio.
Fonte: Tribuna da Imprensa

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

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