sexta-feira, dezembro 31, 2021

PGR 2021: retrospectiva da omissão




Vendeu 'descriminalização' da política, entregou impunidade de delinquentes públicos

Por Conrado Hübner Mendes* (foto)

Protagonista da CPI da Covid e pré-candidata à Presidência, a senadora Simone Tebet viu seu pai se fazer prefeito, governador e senador. Ingenuidade não explica que, no Natal de 2021, declare: "Ninguém imaginava que Bolsonaro poderia namorar o autoritarismo ou ameaçar instituições democráticas".

Somente dois cientistas políticos e meio sustentaram a tese do "risco zero" com sinceridade enquanto Jair prometia enviar gente para a "ponta da praia".

Tebet aprovou indicação de André Mendonça ao STF. Resignação talvez explique voto "não pelo seu passado, mas pelo que espero que faça no futuro, um voto de confiança".

"Passar borracha" num passado recheado de violência permitiu a ela confiar em Bolsonaro. No futuro poderá dizer "ninguém imaginava que Mendonça poderia namorar o fundamentalismo contra a autonomia das mulheres e a diversidade".

Tebet teria votado pela recondução de Augusto Aras à Procuradoria-Geral da República, o que ela nega —a votação é secreta. Depois de entregue o relatório da CPI da Covid ao PGR, declarou: "Vi firmeza de propósito. Ele sabe o que tem de fazer e as consequências de sua omissão." E assegurou: "Estaremos atentos não só à inercia, mas a atos protelatórios. Se ele se omitir, aí tem uma ação".

Aras sabe as consequências de sua omissão. Para ele, nulas. Para o país, mortíferas. Para sua biografia, uma Ordem do Rio Branco e abraços calientes do presidente. Na busca constrangedora por indicação ao STF, apostou na colaboração premiada. O prêmio não veio.

Não bastasse a arquitetura constitucional que lhe autoriza a jogar parado (explicada em outra coluna), conta com a cumplicidade geral do Senado, que lhe deu novo mandato e se recusa a analisar pedido de impeachment contra ele; do STF, que impediu tramitação de representações criminais contra Aras no Conselho Superior do MPF; e da advocacia garantista por autodeclaração, que aplaudiu nomeação e recondução do PGR. Tebet não podia imaginar.

A laboriosa não atuação do PGR pede retrospectiva. Afinal, da "inércia" e de "atos protelatórios" de Aras se fez governo irresponsável, inimputável e incontrolável.

Esta a sua "firmeza de propósito": vendeu "descriminalização da política" e entregou extinção da punibilidade da delinquência pública.

Não denuncia ação política nenhuma, nem mesmo política de morte que afeta crianças na pandemia, com abundância de provas. Mas simula diligência por meio de "averiguações preliminares" e pedidos sigilosos, que dificultam acusar o golpe.

Essa omissão holística tem numerosos exemplos desde 2019. Alguns mais recentes: contra precedentes da própria PGR, Aras não se opôs a iniciativas de Bolsonaro contra urnas eletrônicas; defendeu legalidade do "orçamento secreto", maior engrenagem de compra de voto da história brasileira; não questionou ameaça de Bolsonaro a conselheiros da Anvisa, apenas anunciou "providências" para protegê-los.

Mais gritante foram as posições de Aras em torno da CPI da Covid. Bolsonaro tentou obstruir a instauração da CPI, mas o PGR não viu crime ou ilegalidade quando presidente pressionou senador Kajuru a pedir impeachment de ministros do STF. Viu apenas uma "perspectiva pessoal".

Instalada a CPI, Aras se recusou a investigar fatos e denúncias que foram surgindo no processo (como da Covaxin). Argumentou, contra a tradição da própria PGR, que precisava esperar o fim da CPI. Rosa Weber alertou que ele não poderia ser só "espectador".

Terminada a CPI, e diante de relatório de 1.200 páginas que aponta pelo menos nove crimes do presidente, Aras esperou 30 dias e pediu ao STF providências que não sabemos quais são.

Solicitou sigilo, e STF aceitou. Além disso, abriu novo capítulo de "averiguações preliminares", como se a CPI fosse apenas uma pré-preliminar. Nenhuma denúncia, nenhum inquérito sequer.

Aras bloqueou quase tudo o que pôde. Sobraram procedimentos heterodoxos que o STF, com advertências à paralisia do PGR, viu-se forçado a instaurar (como o inquérito das fake news).

Eloísa Machado e Luíza Ferraro demonstram que a PGR, instituição desenhada para controlar o governo, propôs 1,74% das ações contra o governo de 2019 a 2021. Aras propôs no período 276 ações. Apenas uma contra o governo, em tema inofensivo para Jair.

Renata Lo Prete sintetizou: "O governo Bolsonaro está disposto a delinquir na vacinação das crianças porque perdeu o medo. No momento, ninguém está com medo de parar na cadeia".

A ausência de medo se explica. Aras libera Bolsonaro. Bolsonaro libera subordinados, como Queiroga, e incita militantes, como a turba que ameaça de morte conselheiros da Anvisa.

Nessa bolsa de valores, cadeira no STF vale mais que vida de crianças. Soaria demagógico e hiperbólico, não estivéssemos falando de Jair Bolsonaro e Augusto Aras.

*Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e membro do Observatório Pesquisa, Ciência e Liberdade - SBPC

Folha de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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