quinta-feira, dezembro 30, 2021

Troca de siglas deve movimentar 40 deputados




Maior bancada do Centrão e terceira maior da Câmara, sigla do presidente deve receber em torno de 20 deputados bolsonaristas

Por Camila Zarur 

RIO - A escolha do presidente Jair Bolsonaro de se filiar ao PL desencadeará uma série de trocas de legenda por parlamentares na última janela partidária antes das eleições do ano que vem, entre 3 de março e 1º de abril. Entre deputados que deixarão o partido por incompatibilidade com o presidente, o ingresso da bancada bolsonarista hoje abrigada no PSL, e outros rearranjos na antiga sigla de Bolsonaro, em processo de fusão com o DEM, líderes partidários calculam que ao menos 40 parlamentares já estejam de malas prontas para trocar de sigla. O número deverá ser maior, considerando legendas sem ligação direta com o passado recente ou a atual filiação do presidente.

A janela partidária é o período em que deputados federais ou estaduais podem trocar de sigla sem serem punidos por infidelidade. O PL, atualmente com 43 deputados, é a maior bancada do Centrão e a terceira maior da Câmara. A expectativa é que o partido receba em torno de 20 deputados bolsonaristas que ainda estão no PSL — ultrapassando, assim, o PT (53 deputados) e, eventualmente, até mesmo o futuro União Brasil, que surgirá da fusão entre o PSL (55 deputados antes da debandada bolsonarista) e o DEM (27).

Receber o presidente também provocará, por outro lado, uma revoada de parlamentares do PL. Dois já anunciaram a partida: o vice-presidente da Câmara, Marcelo Ramos (AM), e Cristiano Vale (PA). Ramos, aliás, não deve sequer esperar a janela. Ele ingressou no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com uma ação pedindo o direito de se desfiliar já, sem perder o mandato, alegando “mudanças de rumo” do partido. O pedido foi aceito pelo ministro Luís Roberto Barroso, que levou em conta uma carta assinada pelo presidente da sigla, Valdemar Costa Neto, afirmando que a permanência se tornou “insustentável”.

A outra saída confirmada se dá porque Cristiano Vale, que está rumo ao PP, é aliado do governador do Pará, Hélder Barbalho (MDB), opositor de Bolsonaro. A proximidade de deputados com rivais do presidente pode fazer aumentar a debandada do PL. É o caso, por exemplo, de Júnior Mano (CE), aliado do ex-governador cearense Cid Gomes (PDT), e de Fabio Abreu (PI), ex-secretário do governador Wellington Dias (PT). Edio Lopes (RR) e Fernando Rodolfo (PE) podem aumentar a barca.

O líder do PL na Câmara, Wellington Roberto (PB), minimiza as saídas.

— Diante uma situação interna, ele (Ramos) deve sair, mas não é uma questão do partido. Ele é muito querido no partido — diz o líder do PL na Câmara.

Ramos deve anunciar seu novo partido apenas em fevereiro. Uma possibilidade é se filiar no PSD, do ex-ministro Gilberto Kassab. No Amazonas, Ramos é próximo do senador Omar Aziz (PSD), presidente estadual da sigla e que antagonizou com Bolsonaro ao presidir a CPI da Covid.

A leva a caminho do PL, porém, deve ser maior. Eleitos com o apoio do presidente em 2018, a ala bolsonarista do PSL aguardava desde 2019 uma sinalização de Bolsonaro. Naquele ano, o mandatário rompeu com o mandachuva da legenda, Luciano Bivar (PE), por causa da disputa pelo controle do partido e de seus milionários fundos eleitoral e partidário.

Na época, Bolsonaro deixou o PSL, mas o mesmo não pôde ser feito pelos deputados devido à fidelidade partidária — por ser um cargo eleito por voto majoritário, o presidente não é penalizado por trocar de sigla fora da janela.

A demora em Bolsonaro decidir para qual partido iria estava deixando vários deputados apreensivos, pela dificuldade em formar alianças locais sem saber para qual partido seguiriam. Um fato externo à decisão do presidente pode agora fazer o tempo jogar a favor. Como o PSL está finalizando sua fusão com o DEM, os parlamentares poderão deixar a sigla quando o novo partido estiver formalizado, mesmo fora do período previsto pelo calendário eleitoral, sem risco de perderem o mandato.

A futura legenda ainda precisa ser homologada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), o que só deve acontecer a partir de janeiro. Porém, assim que for autenticada, seus integrantes poderão se desfiliar alegando mudança no estatuto do partido.

Recentemente, o deputado Carlos Jordy (PSL-RJ) publicou uma foto ao lado de Valdemar Costa Neto e do ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, cotado para concorrer ao governo de São Paulo. Na legenda, o parlamentar escreveu que estava “acertando os detalhes da nossa ida” ao PL.

Nas contas de Jordy, a ala mais fiel a Bolsonaro no PSL tem hoje entre 26 e 29 deputados federais, entre eles o próprio filho do presidente, Eduardo Bolsonaro(SP), Major Vitor Hugo (GO), Carla Zambelli (SP) e Bia Kicis (DF).

Não é apenas no antigo partido do presidente que haverá defecções para seguir Bolsonaro. No DEM, os deputados aliados do pastor Silas Malafaia, que é próximo do presidente, também devem migrar para o PL, embora digam que ainda é cedo para anunciar a transferência. Sóstenes Cavalcante (RJ), que deve presidir a Frente Parlamentar Evangélica no próximo ano, é um deles.

A sigla demista também perderá dois ministros do governo federal. Onyx Lorenzoni, chefe da pasta do Trabalho, deve ir para o PL, assim como se espera que faça Gilson Machado (PSC), do Turismo. Já Tereza Cristina, da Agricultura, está de malas prontas para o PP.

A noiva preferida

O emagrecimento do DEM não se dará apenas pela saída de bolsonaristas. O racha entre o presidente da sigla, ACM Neto, e o ex-presidente da Câmara Rodrigo Maia, hoje sem partido, deixou aliados de Maia à espera da oportunidade para sair. É o caso de Pedro Paulo (RJ), com previsão de seguir os passos de seu padrinho político, o prefeito do Rio, Eduardo Paes, que migrou para o PSD. Neto e Maia, porém, ensaiam uma reaproximação nas últimas semanas, o que abriria a possibilidade de o ex-presidente da Câmara acabar retornando ao partido.

Outro que está de saída é o deputado Kim Kataguiri (DEM-SP), que procura uma sigla mais alinhada com a candidatura do ex-juiz Sergio Moro, apoiado pelo MBL, seu grupo político. Moro se filiou ao Podemos, e na disputa estadual paulista deve apoiar Arthur do Val, também do MBL, e filiado ao Patriota.

Como a perda de muitos deputados já estava prevista por PSL e DEM ao longo do ano, a criação do União Brasil foi vista como uma forma de sobrevivência das duas siglas. Antes das defecções, o novo partido chegaria a 82 deputados, e seria de longe a maior bancada da Câmara. Para efeitos da divisão do tempo de TV e do fundo eleitoral, porém, o União Brasil não perderá com a saída dos parlamentares. A sigla é a noiva mais disputada para o pleito de 2022, com cerca de R$ 700 milhões apenas do fundo eleitoral.

A robustez da nova sigla, porém, vai servir para atrair deputados de partidos e de história bem distintas, como Clarissa Garotinho (PROS-RJ) e o capixaba Felipe Rigoni, eleito pelo PSB e atualmente no PSL. No Rio, o União Brasil deve receber ainda o ex-governador Anthony Garotinho e a filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, Danielle.

Até março, a formação de alianças e palanques nos estados em torno de candidatos a presidente e a governador deve provocar a mudança de vários outros deputados. Partidos com candidatos fortes a cargos majoritários têm a oferecer bons cabos eleitorais a deputados em busca da reeleição. Por outro lado, siglas fora das corridas majoritárias têm o atrativo de poder destinar a maior parte dos recursos a quem quer renovar o mandato na Câmara.

O Globo

Em destaque

E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

Mais visitadas