quinta-feira, dezembro 30, 2021

Como nossa busca por padrões pode explicar crenças e teorias da conspiração

 




O comportamento de uma roleta é um evento aleatório, sem causa ou padrão histórico

Coincidências acontecem, acredite. Quando dois fenômenos parecem estar ligados, mas na verdade não têm relação entre si, podemos ter dificuldades em aceitar que se trate apenas de coincidência, por acharmos que elas sejam raras.

A verdade, no entanto, é que as coincidências são mais comuns do que possam parecer. Quando aceitamos esse fato, ficamos menos sugestionados a acreditar em conexões inexistentes ou teorias da conspiração.

Para explicar essa tendência humana de ver causa e efeito onde não há nem um nem outro, o psicólogo e escritor canadense Steven Pinker, autor de livros como O Novo Iluminismo e Os Anjos Bons da Nossa Natureza, faz uma pergunta relativa a algo que consideramos bastante pessoal: o dia do nosso aniversário.

Imagine que você esteja em uma festa, sugere Pinker, com algumas dezenas de outros convidados. "Quais são as chances de que dois desses convidados façam aniversário no mesmo dia?", pergunta o psicólogo.

"São mais que 50%. Se a festa tiver 60 convidados, as chances serão mais que 99%", responde ele mesmo.

Surpreso? É natural, e a situação na hipotética festa ilustra bem nosso recorrente espanto diante de coincidências, como explica o escritor.

"Esse é um exemplo de como ficamos, frequentemente, impressionados demais pelas coincidências, porque nos esquecemos de quantas maneiras existem por meio das quais elas ocorrem."

Padrões no acaso

A tendência de ver conexões significativas entre coisas completamente desconectadas é o que psicólogos chamam de apofenia.

O termo descreve o fato de que frequentemente vemos padrões em informações aleatórias, o que pode ser profundamente problemático.

"Quando temos alucinações e vemos coisas que não estão lá, podemos tomar decisões tolas. Podemos imaginar que existem conspirações porque várias coisas ruins acontecem em seguida", diz Pinker.

"Podemos acreditar em divindades malévolas, porque subestimamos como é fácil para infortúnios se agruparem."

'Numa festa, a chance de dois convidados fazerem aniversário no mesmo dia pode ser grande'

Entre as muitas "pegadinhas" que nossos próprios pensamentos podem nos aprontar, estão inclinações a identificar padrões baseados em eventos passados, sem que haja nenhuma base para sustentar algum tipo de repetição ou tendência futura.

"Podemos nos tornar vítimas da 'falácia do apostador'", afirma Pinker, referindo-se a um termo inspirado no erro de achar que exista algum tipo de regra para ocorrências em jogos de azar, como a roleta de cassinos.

"Pense, por exemplo, que, se a roda da roleta parou numa casa vermelha seis vezes seguidas, então seria a vez de ela parar numa preta… Embora, é claro, a roleta não tenha uma memória ou um desejo de jogar de forma justa."

A "falácia do apostador", também conhecida como "falácia de Monte Carlo", é a crença incorreta de que um evento passado influenciará o resultado de um evento futuro. Mas por que tantos de nós caímos nessa história?

"O motivo central de se ter um cérebro é entender o que se passa no mundo", explica Pinker. "Isso é uma coisa útil num ambiente natural, porque não temos um fio saindo direto do nosso cérebro para a realidade, nós estamos sempre interpretando padrões."

Essa capacidade do nosso cérebro é essencial para, por exemplo, identificar perigos na floresta ou possíveis fontes de alimentos, diz ele.

"Nós vemos formas parcialmente obscurecidas por folhas das plantas, nós vemos peixes sob a superfície da água, nós sempre vamos além das informações que nos são dadas."

"Mas isso também significa que podemos exagerar e interpretar coisas que na verdade não estão lá. Não apenas no campo das formas visuais, mas no campo dos acontecimentos."

Aquecimento global com frio?

Essa incapacidade de aceitar o valor da aleatoriedade pode levar a todo tipo de problema. Pode, por exemplo, levar algumas pessoas a não acreditar nas mudanças climáticas após um dia com frio recorde, quando, de fato, se elas pudessem olhar para a tendência histórica, ficará claro que esse dia foi uma flutuação completamente normal, mesmo que aleatória.

Essa dificuldade também pode nos levar a atribuir significado a ocorrências totalmente desconectadas.

"Quando eventos acontecem de forma aleatória ao longo do tempo", afirma Pinker, "eles frequentemente formam grupos, porque não existe um processo tentando separá-los. Isso é algo muito difícil para nós reconhecermos".

A situação fica ainda mais desafiadora para a mente humana, explica o escritor, quando os acontecimentos dizem respeito a nós mesmos e a nossa experiência de vida.

"Quando se trata de eventos nas nossas vidas, que podem ser distribuídos de forma aleatória ao longo do tempo, da perspectiva das nossas mentes buscando padrões, eles parecem vir em grupos", diz ele.

'Muito frio significa que não existe aquecimento global? Errado. É preciso ver a tendência'

De acordo com Pinker, é aí que essa exagerada e equivocada interpretação de ocorrências pode nos levar a abraçar superstições, crenças infundadas ou teorias da conspiração.

"Podemos acreditar que coisas ruins acontecem em grupos de três, que Deus está testando nossa fé, que nascemos sob um signo ruim."

Uma outra ilusão comum é a chamada probabilidade anterior, às vezes chamada de "falácia do atirador de elite do Texas", inspirada no atirador que atira na parede de um celeiro e depois desenha um alvo em torno do buraco feito pela bala. Essa ideia pode ser aplicada no mercado financeiro, como afirma Steven Pinker.

"Existe a história do consultor do mercado de ações, que envia milhares de cartas, metade prevendo que o mercado iria subir, metade prevendo que iria cair. Ele, então, apaga os nomes na lista que receberam a previsão incorreta."

Muitos, diz Pinker, vão achar que o consultor realmente acertara. "Depois de um ano, haverá pessoas que pensarão que esse sujeito é um gênio."

Já se impressionou com algo dito por alguém se apresentou como "visionário" ou "místico"? Como Pinker explica, trata-se da mesma probabilidade enganosa.

"Essa é uma falácia a que todos nós estamos suscetíveis. É por isso que, com frequência, ficamos impressionados com psíquicos ou adivinhos cujas previsões são incrivelmente corretas, depois que elas ocorrem, mas tendemos a esquecer todas as outras falsas previsões."

Juntos, não caímos

Então, se nós sabemos que somos suscetíveis a cair nessas ilusões, a ver padrões que não existem, o que nós podemos fazer a respeito?

"Estarmos cientes de que todos nós somos vulneráveis a falácias e ilusões, tendências, não significa que nós deveríamos simplesmente, de forma fatalista, erguer as mãos e dizer 'nós humanos somos irracionais e, portanto, precisamos de algum tipo de déspotas benevolentes para tomar decisões por nós, que a democracia foi um grande erro'", diz o psicólogo canadense.

'A solução contra os erros de intepretação que cometemos é a colaboração entre pessoas'

A resposta, segundo Pinker, viria da colaboração entre as pessoas e do fato de que, em geral, costumamos ter mais facilidade em identificar problemas nos outros do que em nós mesmos.

"Provavelmente nenhum de nós é tão sábio a ponto de ser capaz de perceber nossos próprios pensamentos falaciosos. Nós somos muito melhores em perceber o pensamento falacioso de um outro sujeito."

Como em tantas outras atividades humanas, portanto, a interpretação de acontecimentos exige a cooperação entre pessoas, algo proporcionado pela vida em comunidade. É dessa forma que uma sociedade com a abertura para troca de informações, ideias e pontos de vista pode tomar decisões corretas, como explica Steven Pinker.

"Podemos aproveitar essa habilidade em comunidades que possuem liberdade de expressão, debates abertos, um processo contraditório, controle e equilíbrio, edição, verificação de fatos, para que a primeira impressão equivocada de uma pessoa, seu julgamento ilusório instantâneo, possa ser identificada por outro alguém, e a comunidade como um todo implemente a decisão mais razoável."

BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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