sexta-feira, dezembro 31, 2021

A luta da América Latina por democracia




Protestos contra o governo Bolsonaro em São Paulo

Por Uta Thofern 

A confiança na democracia definha, e o autoritarismo avança na América Latina. Mesmo assim, há razões para otimismo em 2022.

Adiantando: os ditadores da América Latina estão indo muito bem. Na Nicarágua, Daniel Ortega iniciará seu quinto mandato em janeiro, tendo prendido quase toda a oposição antes das últimas eleições e amordaçado o restante. Em Cuba, Miguel Díaz-Canel resistiu à chuva de protestos inesperados no meio do ano e impediu com sucesso novas tentativas. Para aqueles que não gostam da ilha, o amigo Ortega tem oferecido recentemente viagens sem visto − um gesto simpático à la Lukashenko, porque a ideia, é claro, é que os refugiados cubanos aumentem a pressão migratória sobre os EUA.

E ainda há a Venezuela, onde o chefe de Estado, Nicolás Maduro, pode assistir com prazer enquanto a própria oposição se desmancha. O Parlamento, eleito democraticamente pela última vez em 2015, acaba de aprovar uma nova prorrogação do mandato do presidente interino, Juan Guaidó. Mas sua legitimidade está desmoronando, e importantes representantes da oposição dividida retiraram seu apoio. Os partidários de Guaidó nos EUA e na União Europeia só podem esperar a menor atenção possível ao assunto, pois o fracasso dele poderia ser constrangedor.

Ditadores potenciais ou autoproclamados, como o presidente de El Salvador, Nayib Bukele − que, entretanto, trocou o título por "CEO" em sua conta no Twitter − de qualquer forma não dão mais importância às opiniões da Europa ou dos Estados Unidos. Bukele continua desfrutando de grande popularidade em El Salvador com seu comportamento machista. Embora sua introdução do bitcoin tenha provocado protestos, o enfraquecimento da separação dos Três Poderes atraiu menos atenção.

Concorrência para o Ocidente

O chamado mundo ocidental também está vendo cada vez mais na América Latina que suas ofertas não são mais tão irresistíveis e que suas ameaças não são mais tão eficazes. Com a Rússia e a China, outros parceiros estão disponíveis para ditadores, autocratas, cleptocratas e para aqueles que o querem ser. Estados que não questionam direitos humanos, democracia e Estado de direito. Estados que sabem como esconder o próprio autoritarismo por trás de fortes críticas e dúvidas sobre a integridade da comunidade ocidental de valores.

Críticas que, aliás, muitas vezes se justificam, afinal de contas, também nas democracias são tomadas decisões erradas terríveis. Mas, ao contrário da Rússia ou da China, porém, os governos nas democracias podem ser substituídos por meio das urnas.

E enquanto o crescimento constante da imigração aumenta a pressão sobre o sistema social dos Estados Unidos e alimenta a polarização, a Rússia e a China não têm que temer tal desafio, pois ninguém quer ir para lá. Apesar de todas as críticas aos Estados Unidos, o país continua sendo a opção dos latino-americanos que fogem da violência, da desigualdade social e da falta de oportunidades. Nos últimos anos e décadas, muitas pessoas têm perdido a esperança de alcançar mudanças positivas em seu próprio país através de suas próprias ações.

O exemplo chileno

Ainda mais poderoso parece ser o sinal dado pelo Chile nos últimos dias (e meses): em uma democracia, uma sociedade civil vigilante pode mudar muitas coisas; em uma democracia, uma mudança pacífica de governo é possível; uma democracia pode até se dotar de uma nova Constituição. O que aconteceu no Chile refuta não só dúvidas sobre a democracia chilena, mas também dúvidas sobre a capacidade de funcionamento dos sistemas democráticos em geral.

O recém-eleito presidente Gabriel Boric mostrou que é possível transformar protestos poulares em política. Ao reconhecer rapidamente seu triunfo eleitoral, seus oponentes demonstraram o que é o decoro democrático. A população chilena mostrou, com sua alta participação nas urnas, que deixou de lado a resignação. E o resultado das eleições prova que o engajamento político vale a pena. Naturalmente, Boric também terá que passar pelo teste da realidade, pois terá que lutar diariamente por maiorias para implementar suas políticas. E a nova Constituição ainda precisa ser redigida e submetida a um plebiscito. Os processos democráticos são mais lentos do que as decisões relâmpago dos autocratas, mas são mais sustentáveis.

Colômbia: novo plebiscito sobre acordo de paz

A democracia colombiana também é frequentemente posta em questão, e há muitas boas razões para duvidar do sistema de valores de representantes da classe política. Entretanto, há condições básicas para mudanças através de eleições, a Colômbia está familiarizada com a transferência pacífica do poder, e o presidente em exercício, Iván Duque, conhece a fidelidade constitucional. Afinal, ele não rasgou o acordo de paz com os guerrilheiros das Farc, mas continuou a implementá-lo, embora de forma vacilante e incompleta.

As eleições parlamentares e presidenciais de 2022 poderiam ser um novo plebiscito sobre como continuar tratando o acordo de paz, que ainda sofre com a mancha do referendo fracassado de 2016. Estas eleições também podem dar voz e mandato à parte pacífica do movimento de protesto social dos últimos meses, mostrando que a violência não é um requisito necessário para a mudança.

Resiliência da democracia brasileira

O Brasil será o próximo teste para a democracia, que, sob o governo do presidente Jair Bolsonaro, tão autocrático quanto imprevisível, se mostrou capaz de sobreviver. As eleições federais e presidenciais de outubro de 2022 mostrarão quão fortes são as correntes democráticas e quão influente é a sociedade civil.

Possivelmente o Brasil terá que ir às urnas mais uma vez para obter uma política que ofereça alternativas ao dilema entre o estado de bem-estar social e o capitalismo predatório, e proporcione ao país um modelo econômico sustentável.

Na última década, mais de 2 milhões de brasileiros deixaram seu país, assim como milhões de outros do México, Honduras, Guatemala, Haiti, ou de ditaduras como Venezuela, Cuba e Nicarágua. Em situações difíceis, esperar por mudanças é pedir demais. Mudanças são difíceis e levam tempo. Mas em uma democracia isso é mais viável do que em uma ditadura.

*Uta Thofern é chefe do Departamento América Latina da Deutsche Welle, do qual a DW Brasil faz parte. 

Deutsche Welle

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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