sexta-feira, dezembro 31, 2021

Bolsonaro parece um turista no Palácio do Planalto




"Para Bolsonaro, andar de jet ski e de moto parece ser mais divertido e fácil do que liderar um país"

Por Thomas Milz*

O presidente negacionista chega ao fim de seu terceiro ano de mandato negando-se cada vez mais até mesmo a governar. Está na hora de o Brasil ter mais ambição e botar alguém com vontade de trabalhar na Presidência.

Nada mais simbólico do que o presidente andar de jet ski e dançar funk numa lancha, enquanto as casas de milhares de brasileiros estão sendo submersas por inundações, principalmente no sul da Bahia. Mas isso não é nenhuma novidade.

Em três anos de governo, Jair Messias Bolsonaro mostrou o desinteresse pelo cargo que ocupa. Ele tem sido um turista, e não um líder de governo e da nação. Andar de jet ski e de moto parece ser mais divertido e fácil do que liderar um país.

Bolsonaro já havia se omitido quando florestas brasileiras pegaram fogo e quando milhares morreram de coronavírus. Ele parece gostar do avanço da destruição, portanto não faz nada para detê-la. Às vezes, ainda sabota os bombeiros e joga gasolina nas chamas. Por outro lado, não sabe construir nada. Seu mandato presidencial é a continuação dos seus quase 30 anos como parlamentar, nos quais não criou nenhum projeto de lei digno de nota.

Por outro lado, ainda bem, diga-se de passagem. Assim, aqueles projetos malucos de costume, como a escola sem partido, já foram deixados de lado por ele. Assim como a criação de escolas militares em massa. Já não se fala mais em Olavo de Carvalho, graças a Deus, a não ser da fuga dele para os Estados Unidos. Aliás: de fugas hollywoodianas para lá, houve muitas ultimamente: o ex-ministro da Educação Abraham Weintraub, o blogueiro Allan dos Santos e aquele líder dos caminhoneiros que nem era líder dos caminhoneiros. Turma estranha.

E não se fala muito mais em Paulo Guedes. A última coisa que ouvi dele foi a explicação de como evitar pagar impostos ao criar empresas offshore no Panamá. O tal choque liberal na economia, por outro lado, ninguém viu. Ao invés de privatizar estatais como a Petrobras, o presidente quer mais interferência governamental para manipular o preço da gasolina. Como tantos outros governos antes dele já tinham feito.

E nada de combater a corrupção. Sob o governo Bolsonaro, acabou-se o lavajatismo. Ao invés disso, há rachadinhas generalizadas e orçamentos secretos. Sobraram, portanto, os velhos instrumentos dos populistas, nada mais. Alias, é a velha política que ele tinha prometido combater. Consequentemente, ele está de volta ao PL de Valdemar Costa Neto, de volta ao coração do Centrão. E não se ouve mais o general Heleno cantar "Se gritar pega centrão, não fica um, meu irmão".

Na América Latina, uma das regiões mais pobres e desiguais do planeta, o Brasil tinha dado sinais de se transformar num país sério, a partir de meados dos anos 1990. Tinha conseguido, pouco a pouco, ser destaque internacional na área de meio ambiente, de diplomacia global e de combate à pobreza. Tudo isso foi para o lixo no governo de Jair Messias. A única iniciativa de política externa foi repetir tudo o que Donald Trump fazia, até esse cair. Sem Trump, Jair Messias conversa com os garçons nas cúpulas internacionais.

Caetano Veloso já tinha cantado: "Nessa terra a dor é grande. E a ambição, pequena". Está na hora de ter mais ambição e botar alguém com visão e vontade de trabalhar na Presidência. O Brasil é grande demais para se apequenar com um presidente turista no Palácio do Planalto. A notícia triste é que, com tanta mamata, Jair Messias e sua família podem ficar o resto das suas vidas andando de jet ski e dançando funk num jatinho. Prova que a tal meritocracia não existe. Outra promessa que virou vento.

*Thomas Milz saiu da casa de seus pais protestantes há quase 20 anos e se mudou para o país mais católico do mundo. Tem mestrado em Ciências Políticas e História da América Latina e, há 15 anos, trabalha como jornalista e fotógrafo para veículos como a agência de notícias KNA e o jornal Neue Zürcher Zeitung. É pai de uma menina nascida em 2012 em Salvador. Depois de uma década em São Paulo, mora no Rio de Janeiro há quatro anos.

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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