quinta-feira, dezembro 30, 2021

Três fatos econômicos que vão além de 2021

 




Saneamento, novo marco das ferrovias, fim de era no pré-sal

Por Daniel Rittner (foto)

Retrospectivas costumam ser compilações de personagens, episódios, frases marcantes de um ano. Sem delongas, eis três tendências econômicas com origem em fatos ocorridos em 2021, mas que não se encerram com a virada de calendário e terão desdobramentos relevantes ao longo do restante de década.

1) Saneamento: tornou-se a estrela dos leilões de infraestrutura, com estreantes no mercado e investidores estrangeiros capitalizando empresas já bem posicionadas. Questionamentos sobre a viabilidade do modelo envelheceram rapidamente. O Supremo Tribunal Federal (STF) afastou incertezas jurídicas.

O leilão de três blocos da Cedae (RJ), em abril, foi o pontapé inicial da transformação. Um bloco remanescente está sendo licitado hoje e recebeu pelo menos duas propostas Houve certames bem- sucedidos no Espírito Santo e na região metropolitana de Maceió.

Lembra a história de que as empresas privadas iam querer só o filé e deixar para trás o osso? Basta uma estruturação correta dos projetos para viabilizar a chegada dos serviços em áreas mais carentes. Mesmo com baixa densidade populacional, o Amapá atraiu R$ 3 bilhões em investimentos e quase R$ 2 bilhões em outorgas, trazendo para o saneamento a Equatorial, bastante conhecida no setor elétrico. Quando alguém disser que municípios menores serão esquecidos, convirá resgatar o caso de Alagoas. Dois blocos - um no agreste e no sertão, outro na zona da mata e no litoral - foram arrematados com êxito.

É apenas a primeira de três ondas de investimentos. A segunda deve chegar no pós- 2022, quando termina o prazo dado às estatais de água e esgoto para comprovarem capacidade econômica para universalizar os serviços. Quem não conseguir perde os contratos e abrem-se concorrências. Companhias estaduais no Pará, Piauí, em Rondônia e Santa Catarina correm risco. A terceira onda virá em 2027/2028, quando empresas que passaram pelo primeiro sarrafo precisarão demonstrar cumprimento das metas de qualidade estipuladas. Se não, devem ter concessões cassadas.

Na infraestrutura, boas oportunidades de negócios para investidores privados são sempre bem-vindas. Mas nunca se deve perder o foco do principal: melhorar serviços, de forma palpável, para a população. Há razões para acreditar numa baía de Guanabara limpa - assim como na recuperação de muitos rios fétidos que cruzam capitais - até o início da próxima década.

2) Ferrovias: a modernização e a ampliação da malha nacional, irrisória para o tamanho do país, estavam calcadas em dois pilares. Um era o investimento público (Norte-Sul e Fiol), com repasse à iniciativa privada na reta final de execução. Não há mais espaço para isso. Outro é a prorrogação antecipada de concessões perto de vencer, em troca de exigências bilionárias, o que viabiliza obras como a duplicação de trechos da Malha Paulista e a construção da Fico (entre Goiás e Mato Grosso).

São avanços que derivam de um planejamento iniciado em 2015. Infraestrutura é assim mesmo: dá mais certo quando as estratégias privilegiam o longo prazo, viram política de Estado, e não de governo, sem uma guinada a cada quatro anos. No entanto, a janela de grandes investimentos aberta com as renovações antecipadas se fechará depois de algum tempo.

A Lei 14.273, sancionada no dia 23 de dezembro, é o “game changer”. O projeto original foi apresentado em 2018 e precisou de uma legislatura quase inteira, além do empurrão dado por medida provisória de teor semelhante, para andar. A partir de agora, ferrovias poderão ser construídas pelo regime de autorização, com mais liberdade regulatória e sem a necessidade dos exaustivos trâmites de um leilão organizado pelo governo.

Em menos de quatro meses, desde a publicação da MP, foram apresentados 64 requerimentos de novas ferrovias. O Ministério da Infraestrutura anunciou que haverá cerca de R$ 180 bilhões em investimentos privados. Essa estimativa é irrelevante. Serve aos propósitos de inflar divulgações oficiais, mas muitos pedidos do setor privado são excludentes entre si ou têm viabilidade para lá de contestável. Devem virar ferrovias de papel. Não importa. Se um terço disso for adiante, excluindo tudo o que não tiver pé nem cabeça, será suficiente para termos o maior chacoalhão em décadas na logística brasileira.

3) Pré-sal: a era dos bônus de assinatura bilionários em leilões do petróleo pode ter terminado com a venda de Sépia e Atapu, os dois últimos blocos dos volumes excedentes da cessão onerosa, na bacia de Santos. Eles vão render R$ 11,1 bilhões na assinatura dos contratos. São áreas já em fase de produção e com reservas fartas, com uma alta produtividade dos poços, o que reduz a emissão de carbono por barril. Isso explica o interesse de grandes petroleiras, como Total e Shell, pela exploração na costa brasileira.

De agora em diante, o quadro fica mais desafiador. O estoque de áreas nobres no pré-sal chega perto do fim. Em vez de rodadas convencionais, daqui para frente o governo pretende ter uma “oferta permanente”, espécie de cardápio com ativos disponíveis continuamente às petroleiras que manifestarem interesse.

O que poderia converter-se em novas fronteiras exploratórias, na margem equatorial, esbarra em sensibilidades ambientais. A 17ª rodada de licitações de blocos pelo regime de concessão teve o menor número de participantes e áreas arrematadas nas disputas do gênero até hoje. Empresas preferiram manter distância de arquipélagos como Fernando de Noronha e Atol das Rocas. A foz do rio Amazonas, onde muitos veem potencial de descobertas semelhantes às que prometem mudar a cara da vizinha Guiana, deverá permanecer intocado.

O pré-sal já representa 70% da produção. Saem de cena os leilões pomposos, entra a fase mais aguda de exploração. Os cofres da União serão recheados com fortunas em participações governamentais. Sépia e Atapu, por exemplo, vão gerar R$ 300 bilhões ao longo de sua vida útil em royalties, impostos e barris pertencentes à estatal PPSA.

A mudança de tempos, porém, coloca em evidência o futuro da Petrobras. Ela deveria mesmo concentrar seus investimentos e capital humano em sugar o pré- sal até a última gota, enquanto o petróleo continua sendo a maior commodity do planeta, ou seria o caso de acelerar sua transição energética e preparar-se para a economia verde? Como poderá valer mais daqui a 20 ou 30 anos? Teria que agir como indutora do desenvolvimento em setores supostamente estratégicos ou isso significaria uma armadilha para monopólios e corrupção?

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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