sexta-feira, dezembro 31, 2021

Como a Argentina reagiu após Bolsonaro rejeitar ajuda para vítimas das enchentes na Bahia




Moradores de Ilhéus, no sul da Bahia, estão há dias embaixo d'água

Por Marcia Carmo,  De Buenos Aires 

O governo argentino do presidente Alberto Fernández ofereceu ajuda humanitária ao governo brasileiro para o socorro às vítimas das enchentes no Estado da Bahia.

A ajuda seria o envio de uma equipe de dez pessoas do organismo chamado Cascos Blancos (Capacetes Brancos), vinculado ao Ministério das Relações Exteriores do país, com especialização e longa trajetória de atuação em situações de tragédias internacionais.

O governo brasileiro dispensou a ajuda, argumentando que já está trabalhando nesta situação e, caso necessário, aceitaria a oferta argentina.

Mais tarde, o governador da Bahia, Rui Costa (PT), afirmou no Twitter que a Argentina ofereceu ajuda diretamente às cidades afetadas, apesar da negativa do governo Bolsonaro. "Me dirijo a todos os países do mundo: a Bahia aceitará diretamente, sem precisar passar pela diplomacia brasileira, qualquer tipo de ajuda neste momento", escreveu o petista.

A dispensa brasileira foi destaque na imprensa do Brasil e da Argentina e noticiada também até em Portugal.

"Bolsonaro rejeitou a ajuda argentina para socorrer os danificados pelas inundações e a oposição o acusa de politizar o desastre natural", publicou, nesta quinta-feira, o jornal argentino La Nación, de Buenos Aires.

A agência portuguesa Lusa também fez eco da negação do presidente brasileiro à oferta do país vizinho, informando que a resposta do Brasil foi a de que "tem recursos suficientes" e que há dois anos apresentou o mesmo argumento "quando rejeitou apoio para combater incêndios na Amazônia".

Após a polêmica gerada, Bolsonaro disse, em suas redes sociais, nesta quinta-feira, que "o fraterno oferecimento" era "muito caro para o Brasil" e "aconteceu quando as Forças Armadas e a Defesa Civil já prestavam assistência local".

Bolsonaro disse ainda que foi informado, através do Itamaraty, que a Chancelaria argentina tinha oferecido a ajuda "para trabalho de almoxarife e seleção de doações, montagem de barracas e assistência psicossocial à população afetada pelas enchentes na Bahia".

Em suas redes sociais, na noite de quarta-feira, o governador da Bahia, Rui Costa, do Partido dos Trabalhadores (PT), chegou a agradecer "aos argentinos" e pediu "celeridade" ao governo federal para a "missão estrangeira".

A ajuda, como Costa detalhou, consistiria no envio de profissionais especializados nas áreas de água e de saneamento, logística e apoio psicossocial para vítimas de desastre. "Isso inclui, por exemplo, a oferta de comprimidos para a potabilização de água", escreveu o governador baiano.

'Mais de 20 pessoas morreram durante alagamentos e deslizamentos na Bahia'

A resposta do governo federal brasileiro ocorre num contexto de tragédia na Bahia, onde as chuvas que começaram no início do mês, já deixaram 24 pessoas mortas, 434 feridas, 630 mil pessoas afetadas e mais de 37 mil desabrigados, segundo dados da Superintendência de Proteção e Defesa Civil da Bahia.

Relação conturbada

A dispensa à participação dos especialistas argentinos contribuiu para alimentar o ambiente de distanciamento político entre os dois presidentes.

O presidente Alberto Fernández ratificou sua proximidade com o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva ao recebê-lo como convidado especial para o ato público que marcou seus dois anos de gestão, no dia dez de dezembro passado, na Praça de Maio, que fica em frente à Casa Rosada.

Em seu discurso, o ex-presidente brasileiro, principal opositor de Bolsonaro na provável disputa eleitoral de 2022, agradeceu a visita de Fernández em sua prisão em Curitiba, em julho de 2019.

Naquela ocasião, Fernández realizava campanha política à Presidência. "Estou aqui para agradecer de coração a cada homem e mulher da Argentina que me deram sua solidariedade quando fui preso no Brasil. Quero agradecer ao meu companheiro Alberto Fernández", disse Lula diante da multidão.

'Presidente argentino, Alberto Fernández, é próximo de Lula'

À BBC News Brasil, o embaixador da Argentina em Brasília, Daniel Scioli, descartou, porém, nesta quinta-feira, que a rejeição de Bolsonaro possa ter implicações políticas em relação ao seu país.

"Há três dias oferecemos a ajuda humanitária com o envio de dez profissionais da comissão Cascos Blancos, que trabalha dentro da Chancelaria argentina. O Itamaraty respondeu de maneira muito elegante, como sempre ocorre com meu amigo França (Carlos Alberto Franco França), que a ajuda não era necessária no momento, mas que, se necessário, a aceitarão", disse Scioli.

Quando perguntado sobre como a Argentina percebeu a resposta brasileira, o embaixador argentino disse: "Agradecemos e afirmamos que, se necessitarem, estamos à disposição".

De acordo com o Itamaraty, conforme veiculado na imprensa brasileira, a situação "está sendo enfrentada com a mobilização interna de todos os recursos financeiros e de pessoal necessários" e que "na hipótese de agravamento da situação, requerendo-se necessidades suplementares de assistência, o governo brasileiro poderá vir a aceitar a oferta argentina de apoio da Comissão dos Capacetes Brancos, cujos trabalhos são amplamente reconhecidos".

'Muito caro' x 'custo zero'

'Bolsonaro vem sendo criticado por curtir normalmente as férias em Santa Catarina enquanto população da Bahia sofre com as chuvas'

Mas e ao fato de o presidente Bolsonaro ter dito que a ajuda seria "muito cara"?, perguntamos. Ao que Scioli respondeu: "Tenho certeza que quando ele disse 'muito caro' se referia a sentimentos porque estaria muito agradecido e valorizando (a oferta de ajuda) e não se referindo de nenhuma maneira a muito caro porque Cascos Blancos assumem todos os gastos e representariam custo zero para o Brasil". De acordo com o embaixador, o único possível apoio à equipe argentina seria "talvez para alojamento".

Ex-vice-presidente da Argentina, durante a gestão do ex-presidente Nestor Kirchner, entre 2003 e 2007, e ex-governandor da província de Buenos Aires, Scioli é conhecido, entre políticos da situação peronista e da oposição, como político habilidoso e que "trabalha para evitar os enfrentamentos", segundo fontes da Chancelaria argentina.

Seu perfil teria sido decisivo para que fosse nomeado embaixador no Brasil, em meio a troca de farpas entre Bolsonaro e Fernández, na campanha presidencial e no início do governo argentino, e também de distanciamento inédito na história recente entre presidentes dos dois países.

Nas recentes reuniões virtuais do Mercosul e do G20, Bolsonaro e Fernández fizeram declarações sobre a rivalidade no futebol.

"Você ainda não me deu os parabéns", teria dito o argentino ao brasileiro, durante a reunião do G20, depois que a seleção argentina venceu a Copa América, de acordo com a agência de notícias Telám, de Buenos Aires. Logo depois, os dois tiraram fotos juntos e sorridentes no evento.

Mas como em um ziguezague político, o clima teria voltado a ser menos afável, logo após o anúncio da visita de Lula para o ato do dia dez de dezembro, que marcou ainda o Dia da Democracia e dos Direitos Humanos, como informou a imprensa argentina.

Causou surpresa, por exemplo, a declaração de Bolsonaro sobre a exigência de quarentena para passageiros desembarcando da Argentina no território brasileiro diante do avanço da variante ômicron do coronavírus. Naquele momento, no fim de novembro, esta cepa ainda não causava preocupação na Argentina, onde o índice de vacinação atinge a mais de 70% com as duas doses, segundo dados do Ministério da Saúde.

De acordo com fontes do governo brasileiro, "a relação bilateral, envolvendo os vários ministérios e administrações corre seu curso normal e de forma fluída, apesar do distanciamento entre os dois presidentes". 

BBC Brasil

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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