quinta-feira, dezembro 30, 2021

Duzentos anos




Os cinco anos que Flaubert passou escrevendo ‘Madame Bovary’ foram os mais ricos e criativos. 

Por Mario Vargas Llosa (foto)

Em algum momento do século passado, cheguei a Paris e no mesmo dia comprei um exemplar de Madame Bovary numa livraria do Quartier Latin chamada Joie de lire. Depois de passar a maior parte da noite lendo, ao amanhecer já sabia o tipo de escritor que queria ser e, graças a Flaubert, estava começando a aprender todos os segredos da arte do romance.

Ninguém deu maior ímpeto ao gênero romance que o solitário de Croisset. Ele descobriu que o narrador era o personagem mais importante que o romancista podia criar, e que este poderia ser um narrador impessoal que sabia de tudo - uma imitação de Deus Pai - ou um contador personagem, e que estes podiam ser vários e diversos. Desse modo, Flaubert criou o romance moderno e lançou as bases daquilo que, anos depois, seriam os infinitos arranjos e figuras inventadas por James Joyce para dotar o romance e diferenciá-lo do passado, dos clássicos. Mas o romancista que melhor aproveitou as invenções de Joyce, o irlandês, não foi um europeu, mas sim um americano perdido na região do Mississippi, em cujas mãos o gênero ficcional alcançou uma flexibilidade no tempo e no espaço que permitiu todos os excessos: William Faulkner. O mais extraordinário de Faulkner, no entanto, não foi a fantástica audácia que lhe permitiu escrever romances como Enquanto Agonizo e O Som e a Fúria, as mais difíceis da criação do gênero, mas sim os enganos dos jornalistas a quem se apresentava “como um fazendeiro que amava cavalos” e se recusava a falar sobre as técnicas do romance porque, segundo ele, “nada sabia sobre essas coisas”. Graças a Flaubert, Joyce e Faulkner, o romance moderno seria uma realidade nova e singularmente diferente do romance clássico.

No caso de Flaubert, a preocupação com a estrutura do romance vinha nas cartas que escrevia todas as noites para sua amante, Louise Colet, durante grande parte dos cinco anos que levou para escrever Madame Bovary. Passaram-se muitos anos antes que essas cartas pudessem ser reunidas em livro, talvez o mais importante que jamais foi escrito, colocando os limites do romance moderno como uma forma perfeitamente estabelecida e distinta de tudo o que até então se havia feito em algumas histórias que teriam o nome de “romance”. A ruptura com o passado foi flagrante, mas misteriosa. Consistiu em explicar que o ordenador de uma história podia ser a imitação de “Deus Pai” que tudo sabe de tudo, ou uma simples personagem que não pode saber mais do que aquilo que os seres comuns sabem dos outros, com a falibilidade implícita nesse conhecimento. Dentro de um romance, como em Madame Bovary, pode haver um narrador “Deus Pai” e vários narradores personagens, desde que respeitados os limites de cada um.

No plano da prosa, Flaubert sempre acreditou que a excelência da frase dependia de sua música e que bastava uma sílaba desafinada para que se perdesse aquela perfeição musical - a que Flaubert atribuía virtudes encantatórias. Os cinco anos que passou escrevendo Madame Bovary foram os mais ricos e criativos do ponto de vista da estrutura do romance. Verdade seja dita: o verdadeiro criador do romance moderno foi Flaubert.

A história de Emma Bovary e as cartas quase diárias para Louise Colet foram a fundação do romance moderno, ainda que esse fato tenha levado algum tempo para se revelar. O narrador invisível é a criação mais importante de Flaubert: aí está aquele que sabe tudo sobre a história que conta, mas que não é uma presença. É uma ausência que sabe tudo o que acontece, mas não se mostra. Bem ao contrário, esconde a sua presença fingindo impessoalidade, sempre interrompido pelas demais personagens da história, que podem mostrar e sentir uma presença e uma existência limitadas, desde que não ultrapassem o que uma pessoa deve e pode saber.

O ângulo de foco é sempre a obra do narrador “Deus”, que distribui as aparições e reaparições das personagens de acordo com as diferentes flutuações da história. Nesse esquema, pode-se conhecer e contar tudo, até mesmo os sábios silêncios que o narrador impõe à narrativa.

O “novo romance” que Flaubert inventou em Madame Bovary permite tudo, dentro de certos limites. Por exemplo, criar uma personagem coletiva e momentânea, como aquela sala em que o novo aluno irrompe no início do romance, quando a professora apresenta Charles Bovary. Esse auditório é uma personagem só, que se dividirá em diferentes seres à medida que os alunos recuperarem sua personalidade e começarem a se diferenciar uns dos outros.

No esquema criado por Flaubert, tudo é possível e coerente, desde que o romancista respeite as regras e não se distraia, para que não ocorra um acidente que desmorone a arquitetura rigorosa do romance.

Não foi facilmente que Flaubert se tornou aquele que podia passar cinco anos de vida escrevendo da manhã à noite, sete dias por semana, Madame Bovary. Antes teve de inventar uma enfermidade que convencesse seu pai, o Doutor, que, é claro, queria que o filho Gustave seguisse sua carreira. Críticos e médicos vêm discutindo bastante sobre a famosa doença de Gustave Flaubert, aquelas crises que o atingiam e o derrubavam ao chão, vendo luzes estranhas. Acredito que essa enfermidade ele a inventou para poder trabalhar em paz, dedicando todo o seu tempo à escrita - o que não significava em absoluto que ele às vezes não caísse no chão e visse luzes estranhas e tivesse vômitos e tudo mais. Ainda bem que suas cartas para Louise Colet foram preservadas. Ela as guardou, bendita seja sua memória. Mas as cartas de Louise Colet a Flaubert, porque seriam muito pornográficas, foram queimadas por uma sobrinha infame, que assim ganhou todo o ódio dos flaubertianos (também o meu, é claro).

Flaubert sabia da revolução que iria desencadear com Madame Bovary? Não dá para saber. Ele acreditava, ao longo daqueles cinco anos, que estava trabalhando em Madame Bovary e provavelmente não estava ciente da extraordinária difusão que teria sua descoberta, nem da revolução que provocaria o narrador invisível e total, que abriria uma cisão entre o romance novo e o antigo, isto é, o clássico. Não é a primeira vez na história da literatura que alguém, como que por acaso, descobre um novo sistema narrativo e gera uma revolução (por exemplo, Borges em seus contos).

Sempre tive admiração e carinho por Flaubert, como a um tio ou avô. Fui a Croisset não sei quantas vezes para reviver seus passeios gritando na “alameda da gritaria”, onde ele ia testar a perfeição de suas frases rítmicas. Também lhe levei flores não sei quantas vezes naquele cemitério cheio de sepulturas e de cruzes e visitei o hospital de seu pai, o médico que o obrigou a sustentá-lo enquanto ele escrevia aquele romance-rio.

Ele tem hoje duzentos anos e a forma de escrever romances que inventou está sempre viva e jovem. Tenho a sensação de que, nos duzentos anos que virão, sua maneira de escrever seguirá operando em sua eterna juventude.

O Estado de São Paulo

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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