sexta-feira, dezembro 31, 2021

A contribuição de cada presidente à estabilidade




Sarney e Collor, os mais atacados, contribuíram para a estabilidade

Por Cristiano Romero (foto)

Daqui a nove meses, será realizada a nona eleição direta para presidente da República no Brasil, decorridos 37 anos do fim do regime militar. O pleito ocorrerá em meio à forte polarização que vem caracterizando a política nacional desde o primeiro mandato presidencial de Luiz Inácio Lula da Silva (2003-2006) e que se acirrou com a reeleição de Dilma Rousseff em 2014 e a ascensão de Jair Bolsonaro, em 2018. É bem provável que a disputa transcorra num ambiente de grande instabilidade.

Depois de ter a ordem institucional interrompida em 1964, quando, apoiados por civis interessados em tomar atalhos para chegar ao poder, chefes militares derrubaram o presidente João Goulart num contexto de grave crise econômica, o Brasil custou a reconquistar a estabilidade política. O poder só foi devolvido aos civis 21 anos depois e, mesmo assim, por meio de eleição indireta realizada pelo Congresso.

A chapa vencedora tinha um integrante da oposição - Tancredo Neves - e um prócer da ditadura - José Sarney. Foi o jeito encontrado para acalmar militares inconformados com a perda iminente de poder. Ademais, a união da oposição com dissidentes da situação seria suficiente para derrotar Paulo Maluf, candidato do governo militar. Antes disso, tratou-se de impedir que a transição se desse por meio do voto popular - em 1984, o nome mais bem cotado para triunfar numa eleição direta era o de Ulysses Guimarães, rejeitado pelos generais.

No país onde a vida imita a arte, o destino apareceu na undécima hora para nos testar. Eleito em 15 de janeiro de 1985, Tancredo começou a sentir dores no abdômen nos dias e semanas seguintes, mas decidiu esconder o fato de todos. Seu temor era que uma possível doença não o deixasse assumir a Presidência, tornando possível um retrocesso na transição de regime. No dia 14 de março, véspera da posse, ele foi internado às pressas e submeteu-se à primeira de uma série de cirurgias, até falecer em 21 de abril. Em seu lugar, assumiu Sarney, o vice.

No ano anterior, milhões de brasileiros foram às ruas para exigir a volta do voto direto para presidente. A proposta de emenda constitucional Dante Oliveira, que a restabelecia, não passou da Câmara, disseminando sentimento amargo de frustração, tangível apenas quando o Parlamento vota contra o desejo da maioria da população. O moral só elevou-se quando Tancredo derrotou Maluf.

Depositaram-se no ex-governador de Minas Gerais todas as esperanças para o restabelecimento da democracia e a saída do país da crise econômica. Informações sobre a enfermidade de Tancredo só começaram a circular em Brasília na noite do dia 14. Sarney, político da ditadura, assumir a Presidência no lugar de Tancredo soava à maioria como conspiração, não do destino, mas de quem nos subtraiu a democracia.

O ex-governador do Maranhão tornou-se o primeiro presidente da Nova República nas piores condições. João Figueiredo, último general-presidente, recusou-se a lhe passar a faixa e deixou o Palácio do Planalto pelos fundos. Se já não bastasse o fato (antipático, por definição) de assumir o cargo do “salvador da pátria”, Sarney enfrentava risco real de não subir a rampa do palácio. No meio militar, era audível o burburinho de golpe, ameaça contida apenas pela firmeza do novo ministro do Exército, Leônidas Pires Gonçalves, que, na noite do dia 14, telefonou ao vice-presidente e lhe deu garantias para tomar posse.

Restabelecer a democracia em meio a um cenário político e econômico tão desfavorável, com inflação anual próxima de 200%, foi um feito que, olhado em perspectiva, deveria dar a Sarney reconhecimento de que pouco se ouve falar. Seu mandato foi marcado por três tentativas frustradas de estabilização de preços, por denúncias de corrupção e pela extensão do mandato para cinco anos, obtida no Congresso por meio de concessões de rádio a parlamentares.

Um dos presidentes mais criticados da história do país, Sarney teve o mérito de não flertar uma só vez com tentações autoritárias, que, em Brasília, reaparecem a cada crise política. Em sua gestão, instalou-se a Assembleia Nacional Constituinte que estabeleceu, nos capítulos de direitos e garantias fundamentais da Carta Magna do país, os princípios para a construção da nação que não somos, como o fim da censura e a proibição de qualquer forma de discriminação.

Na economia, apesar do malogro no combate à hiperinflação, o governo tomou decisões importantes como a criação da Secretaria do Tesouro Nacional e o fim da conta-movimento do Banco do Brasil e das operações de fomento do Banco Central.

Fernando Collor venceu a primeira eleição direta pós-ditadura apresentando-se como o anti-Sarney, tirando proveito dos escândalos que ocuparam o noticiário desde 1985. Em setembro de 1992, perdeu o mandato, acusado justamente de corrupção (em dezembro daquele ano, o STF o inocentou). Olhando para trás, nenhum governo da redemocratização, com exceção ao de Itamar Franco (1992-1994), transcorreu sem casos ruidosos de corrupção, envolvendo não necessariamente os presidentes, mas assessores, ministros e aliados.

Também sob Collor, a estabilidade política foi colocada em xeque, mas prevaleceu a democracia. Vale registrar, por exemplo, que as investigações que, em última instância, trouxeram à luz do dia elementos constrangedores para o então presidente foram conduzidas por instituições públicas, como a Receita Federal e a Polícia Federal. Collor não impediu que ambas realizassem seu trabalho, fato que deve ser louvado como importante contribuição à democracia - é isso que se espera de governantes eleitos, mas todos sabemos que nem sempre funciona assim.

Na economia, o governo fracassou em duas tentativas de estabilizar os preços (Collor I e II), mas promoveu avanços que, adiante, contribuíram para o sucesso do Plano Real, como a adoção de um cronograma de redução unilateral de alíquotas de importação, a abertura da conta de capitais, a acumulação de reservas cambiais e a renegociação da dívida externa.

O objetivo destas reflexões, iniciadas na coluna passada (“Brasil: quem paga ‘pra’ gente ficar assim?”, 23/12/2021), é mostrar o árduo caminho que levou o país a conquistar a estabilidade política e econômica e apontar os riscos que a vêm ameaçando desde 2011. A série continuará no dia 20 de janeiro.

Valor Econômico

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E a fama do Tabaris era comprovada: chegou inclusive a ser citada em uma música dos Novos Baianos. “Deus dá o frio e o freio conforme a lona, meus para-choques pra você, caia na estrada e perigas ver, ser como o poeta do Tabaris, que é mais alegre que feliz”, dos compositores Paulinho Boca de Cantor, Luiz Galvão e Pepeu Gomes. Para o professor e escritor Adson Brito, falar do Tabaris é falar de “memória histórica, cultural, musical e falar também de memória etílica”. “É muito importante para a memória da cidade porque ele vai mexer ali com o imiginário coletivo de milhares de anos, milhares de soteropolitanos que estiveram presente nesse momento”, confessa. E a felicidade era resultado de um conjunto de fatores proporcionados pela casa. Afinal, não era só um cabaré. Por lá, encontravam amigos, intelectuais, famosos, balés internacionais e as famosas damas “acompanhantes”, como eram chamadas as profissionais do sexo que ali trabalhavam. Na internet há registros daqueles que um dia frequentaram esse espaço boêmio. Resgatado de um blog pessoal, Luiz Carlos Facó reconta sua primeira vez na propriedade de Sandoval, descrita por ele como “casa feérica”. Imortal da Academia de Letras da Bahia, Aramis Ribeiro Costa chegou a eternizar o local em seu romance, “As Meninas do Coronel”, publicado pela Editora Via Litterarum. No entanto, apesar de ter recriado o espaço, o autor só frequentou a casa uma única vez, justamente na última noite do Tabaris. OS ANOS DE OURO O Tabaris não era a única casa noturna presente na região entre a Praça Castro Alves e a Rua Chile, mas foi capaz de construir sua história por cerca de 35 anos, abrigando apresentações de companhias de teatro de São Paulo, Rio de Janeiro, balés internacionais e sendo também espaço perfeito para intelectuais, jornalistas, políticos, escritores e toda uma gama de pessoas. O professor Adson considera ainda que o Tabaris foi “o mais famosos cabaré, a mais famosa, a mais importante casa de shows da Velha Bahia”. E essa Bahia, a do início da década de 30, quando o empreendimento de Nagib Jospe Salomão surgiu em frente a praça do poeta, era bastante diferente da que se conhece atualmente. “Uma cidade pacata, uma cidade provinciana, onde os hábitos da população de modo geral era muito simples”, explicou Adson. Nessa Salvador em que Tabaris surge, ainda não existia muitas coisas, como por exemplo, a Universidade Federal da Bahia, o Estádio Fonte Nova e nem o famoso bar e restaurante Anjo Azul, que Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir visitaram. “Quando entravam ali naquele local, as pessoas já se deparavam com um palco. Então, tinha um palco, no fundo, tinha orquestra, tinha banda, tinha o maestro e todas as pessoas que iam tocar ali na banda estavam vestidos de smoking, de paletó e gravata”, descreve Brito. O professor conta ainda que Nagib foi um homem “revolucionário”. “Esse homem visionário, ele coloca no coração da cidade, uma casa de espetáculos que vai envolver companhias de teatro de revista de São Paulo, do Rio de Janeiro, vai envolver cassino, vai envolver uma decoração glamourosa, uma ambientação, bandas ao vivo”, conta. A chegada do Tabaris foi, para o Adson, um “ganho muito grande pra cidade” e motivo de curiosidade para todos - incluindo as mulheres -, pois “o Tabaris também era um local para dançar, também era um local para se divertir, para ouvir uma boa música”. “Esses frequentadores ali no cabaré, eram os frequentadores dos mais diversos. Eram geralmente pessoas que tinham poder aquisitivo grande. Pessoas que tinham que fazer dinheiro para gastar ali naquelas noitadas, com bebidas, comidas, danças e com mulheres também. Agora, também existia pessoas mais humilde, que tinha um sonho de frequentar o Tabaris”, compartilha Adson. Dentre um dos frequentadores estava um jovem Mário Kertérz, que viria a se tornar prefeito de Salvador - nomeado pelo governador ACM - em 1979. Ao Bahia Notícias, Kertérz conta sobre sua experiência no local. “Antes de eu conhecer o Tabaris Night Club, como era chamado, era um cassino ali que tinha jogo de roleta e tudo, que era autorizado pelo Governo. Depois, quando acabou o jogo, o Tabaris passou a ser uma casa de espetáculos, mas também uma casa de prostituição”, explica o radialista. Kertérz frequentou a casa noturna aos 18 anos, como parte do que ele explica ser um hábito da sociedade da época. “A virgindade era fundamental, então a gente namorava, mas não transava. Então, os jovens namoravam, ficavam excitados e iam para os prostíbulos se aliviar, digamos assim… e se divertir, dançar…”, conta. “Se tinha um show, as pessoas dançavam, inclusive com garotas de programa, e foi assim que funcionou os últimos anos. E ela tinha uma característica fundamental, ela só fechava tipo 7 horas da manhã. Então, todo mundo que tava na boemia naquela época, eu inclusive, visitando outros bordéis, íamos terminar a noite lá. Todo mundo ia, inclusive as prostitutas que trabalhavam em outro lugar, os boêmios e aí nós ficavamos lá, curitindo, bebendo, dançando, até o dia clarear e a gente ir embora”, recorda Mario Kertérz. AS DAMAS DO TABARIS Sobre as profissionais do Tabaris, Adson dá mais detalhes: eram chamadas de “acompanhantes” e Nagib possuia uma rígida seleção. “Geralmente eram mulheres bonitas, mulheres que ficavam ali perfumadas, bem vestidas, para poder atender a essa clientela que ali estavam”, esclarece. “Havia prostitutas de nomes americanas, e, por ordem da casa, essas mulheres tinham que se passar como paulistas ou cariocas porque eram mais valorizadas, porquem vinham de fora e também ali eram frequentados por prostitutas francesas, argentinas, paraguaias, peruanas. Tinha toda uma classe que frequentava ali o Tabaris”, acrescenta Adson. SANDOVAL, O ‘REI DA NOITE’ A partir da década de 1960, nos últimos anos de existência do espaço, o Tabaris Night Club mudou de administrador. Nagib sai de cena e abre espaço para um já conhecido profissional da noite: Sandoval Leão de Caldas. O ex-motorista de táxi já possuia outro empreendimento, o Bar Varandá, quando passou a cuidar do Tabaris. Foto: Reprodução Segundo o professor Adson, foi a partir da administração de Sandoval - que faleceu aos 61 anos ao ser atropelado por um pneu - que o Tabaris deixou o título de “elitizado” de lado e passou a ser popular. “Sandoval Caldas foi um ícone da noite baiana. Ele era chamado de Rei da Noite e era uma espécie de símbolo da boemia do Salvador. [...] Esse homem era uma figura folclórica, era um homem sorridente, usava roupas coloridas, roupas de palhaços, escolares. Ele era um homem que ele agregava”, descreveu Brito. Para o professor, Sandoval transformou o Tabaris, abrindo espaço inclusive ao permitir apresentações de atores transformistas que na época eram “perseguidos” e “desvalorizados”. “O que era oferecido aos atores transformistas da época eram espaços alternativos, eram bares de fundo de quintal, eram espaços sem nenhuma visibilidade”, revela. O declínio do Tabaris, no entanto, coincidiu com sua popularização. Em 1968, a casa fechou suas portas após um reinado na noite de Salvador. Entre os fatores que podem ter influenciado neste fechamento estão, para além da popularização, a diminuição de frequentadores, o baixo investimento de Sandoval em novas apresentações, bandas e repertórios e o surgimento da Ditadura Militar, em 1964. “Ali era um centro de resistência, eu digo resistência porque abrigava transformistas e também porque o Tabaris era frequentado pela intelectualidade da época. Vários jornalistas frequentavam aquele espaço e jornalistas geralmente, na sua maioria, eram pessoas de esquerda. Eram pessoas que questionavam o sistema, questionavam o modo que o país estava sendo conduzido pelos militares”, opina o professor.

  Uma volta no tempo: Relembre o Tabaris Night Club, símbolo da vida noturna de Salvador há 60 anos sexta-feira, 03/04/2026 - 00h00 Por Laia...

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